segunda-feira, 14 de abril de 2008

Chove chuva

Finalmente chegou a chuva. Depois de semanas e mais semanas de secura e dos olhos ardidos por causa do pó, ela chegou. Não que eu esteja agradecendo, muito pelo contrário. Nem tenho lavoura de arroz ou plantação de morangos silvestres para precisar dessa água toda... Aliás, foi por causa dela que demorei quase uma hora para andar os quatro quilômetros que separam minha casa do trabalho. Odeio-a. Chuva só é bom em três situações: para molhar as plantinhas, para os índios (não sei por qual maldito motivo tenho a impressão que os índios adoram a chuva) e para as canções de amor.

Sim, senhor. Para as canções de amor.

Sei lá por quê. Deve ser por causa da natureza meio esotérica do verbo chover. Na escola a gente aprende assim: "Ontem choveu. Cadê o sujeito dessa oração? Não existe. Não, ele não está oculto. Ele simplesmente não existe. Joãozinho, cala a boca!" Talvez o fato de não ter sujeito exima a chuva de qualquer culpa. Pode ver que a chuva sempre molha alguém nas canções. Enquanto o Falamansa diz "oh, chuva, peço que caia devagar/só molhe esse povo de alegria", Caetano Veloso "se beija e se molha/de chuva, suor e cerveja". Sem sujeito, a culpa não recai sobre nenhuma pessoa. Alguém dirá que a chuva é obra de São Pedro, mas eu que não serei o primeiro louco a processá-lo.

Nessa curta e rápida pesquisa sobre as músicas que falam de chuva e amor (e viva o Google!), uma coisa me deixou intrigado. Tenho a impressão de que o amor – e aqui falo do sujeito amor, o ser amado – nessas canções, além de cego, é burro. Ou será que minha insensibilidade chegou a tal ponto que não vejo mais romantismo numa camiseta molhada? É que, na verdade, algumas dessas letras me dão a impressão de que o sujeito apaixonado está seco e aquecido numa sala bem iluminada, com lareira, TV de plasma, cascata de camarões e de frente para o mar, enquanto o objeto da sua paixão está no meio da rua, com frio e molhado igual a um frango de granja. Veja o exemplo de Sandy e Júnior na música Cai a Chuva: "cai a chuva/e molha meu amor/cai a chuva/vai molhar o meu amor". Apesar da construção da estrofe parecer simples – OK: é simples –, ela dá uma impressão de deboche. É como se tivesse um "otária" subentendido ali. Tipo "ei, chuva! Vai lá molhar o meu amor, aquela otária", e aí vem uma risadinha sarcástica. Com a entonação que o neto* de Francisco dá, então, fica parecendo uma tiração de sarro, quase que uma entrevista do Pânico.

Um exemplo mais óbvio – e que não poderia faltar – é do grande Jorge Ben. No final da música Chove Chuva ele canta "por favor chuva ruim/não molhe mais o meu amor assim". Com certeza é um pouco mais romântica do que a poesia do Júnior, mas ele não deixa de estar devidamente abrigado e aquecido enquanto ela está no meio da rua, sob um toró descomunal, sem guarda-chuva e desviando dos carros que lhe atiram a água barrenta das poças. Nesse caso, a palavra que fica subentendida é "coitadinha", que, convenhamos, não é muito mais nobre do que "otária". Mais suave talvez, porém mais nobre nunca.

Se você quer saber, tomei chuva sim. Me sinto um coitado de um otário. Ou um otário coitado. Enfim, morram.

*Para mim, todos os seis da velha guarda são os filhos de Francisco. Portanto, se você é filho dos Amigos, você é neto de Francisco.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Cyber velhinho

Outra manhã o Velho me ligou. Reconheci-o imediatamente por causa da voz rouca, que ele diz ser resultado de tanto uso nos bares e esportes radicais da vida. Não tenho outros amigos velhos, só parentes, e a eles reconheço por causa da convivência mesmo. Imaginei meu amigo num daqueles antigos telefones beges, com disco, gancho e cadeado. Qual minha surpresa quando ele disse para falarmos rápido porque a bateria do celular estava acabando? Sempre esqueço que meu Velho não é tão velho assim.

Ele ligou porque queria me convidar para um programa de velho, conforme ele mesmo disse. Fiquei esperando que me chamasse para jogar xadrez na praça ou para ir dançar polca no baile do SESC, mas não. Disse que ia levar o neto na lan-house, para ensinar o garoto a jogar CS. Achei aquilo muito estranho e perguntei por que levar o neto na lan-house era um programa de velho. E ele, calmo como sempre, respondeu "ora, meu Jovem, por acaso você já viu algum jovem levar o neto em algum lugar?"

Adoro sair com o Velho. Ele tem uma experiência verdadeira em tudo. Não é daqueles que sabem muitas coisas porque leram em livro. Sabe porque esteve lá e viu as coisas com olhos que a terra há de comer (em breve). Certa vez fomos fazer o passeio de trem pela serra e ele foi daqui até lá contando como era o caminho na época que ainda não havia poluição. "A viagem até Morretes durava mais de duas horas, mas ninguém se importava. Tínhamos que ir devagar porque havia muitos animais no percurso. O maquinista não queria atropelar nenhum bicho. Além disso, o trem parava quando a paisagem era bonita; ou seja, toda hora". Sempre que o Velho pára para contar suas histórias, uma multidão se aglomera em volta.

Chegamos na lan-house e dezenas de rostos viraram para nós. Note que é quase impossível tirar a atenção de um gamer em plena atividade, mas o Velho era realmente uma atração. Além do mais, ele chegou botando banca: "quer ver algum piazão ganhar de mim nesse joguinho". Nenhuma risada, talvez por respeito a idade do desafiante, talvez por causa dos imensos fones de ouvido certamente no último volume que cada cabeça ostentava. Sentamo-nos nas duas últimas máquinas do recinto, o velho com o neto em uma, eu em outra. Quando finalmente consegui conectar ao servidor do jogo (nunca havia jogado o tal de CS), já ouvia o Velho gritando "toma, papudo" lá do outro lado do salão.

Não há moral da história nesta crônica. O único fato pitoresco é que o neto acabou passando a manhã inteira assistindo o avô jogar CS na tela do computador. Ensinar que é bom, nada. Ah, e eu, que levei uma bronca memorável por atirar sem querer na cabeça do personagem do Velho no jogo, que por acaso era meu aliado. "Head shot!"

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Vou estar transferindo sua ligação

Coitado do gerúndio! Até pouco tempo atrás ele era usado apenas para designar ações correntes: estou jantando, estou escrevendo, estou jogando. Na escola aprendi assim, pelo menos. Mas eis que inventaram o telemarketing e, por conseqüência, seus manuais. Traduzidos mal e porcamente ipsis litteris do inglês, esses roteiros de bom atendimento transformaram I will be transferring em vou estar transferindo. Os tradutores só não levaram em conta que o inglês é uma língua anglo-saxã e o português é latino: a tradução nem sempre pode ser feita palavra por palavra. Bom para nós, os não-atendentes de telemarketing, já que com isso tudo vieram inúmeras piadas.

Enfim, este não é o assunto desta crônica. Ou é, se levarmos em conta que a moda do tal “gerundismo” encobre outra grande mazela da cultura do brasileiro, que atinge especificamente o jornalismo pós-mercantilização-da-notícia: o “futurismo do pretérito”. OK, eu sei que essa expressão nunca foi dita; foi cunhada por mim, agora mesmo. Mas o “gerundismo” também não existia, não é verdade? Aposto que se fosse um bã-bã-bã da notícia tivesse escrito “futurismo do pretérito”, isso logo cairia na boca do povo. Quando essa expressão virar corriqueira, quero meus royalties.

O problema de tudo está nesta guerra sem limites que é a economia de mercado. A notícia hoje é objeto, vendável como um carro ou um pacote de farinha. Ganha quem mostrar as novidades primeiro. Portanto, no afã de querer “furar” os concorrentes, os jornais publicam tudo, inclusive – e acho que principalmente – especulações. E é aí que entra o “futurismo do pretérito”.

Quem nunca leu, principalmente no Terra Gente & TV (anônimos, criticai-me), títulos do tipo “Fulana teria beijado outra na boca”? Pensem: o que quer dizer esse “teria”? Talvez “teria beijado, se fosse verdade”; ou então, e mais provavelmente, “teria beijado, se eu tivesse certeza disso”. Entendem o que isso significa? Estão publicando qualquer suposição, só para dar a notícia antes dos adversários. Se der certo e o fato for confirmado, ótimo: somos melhores que vocês. Se der errado, basta apagar do servidor e nunca mais tocar no assunto. É tão banal que nem desculpas se pede mais.

O futuro do pretérito já vem com um “se” subentendidamente (gostaram dessa?) acoplado. É um verbo que naturalmente precisa de uma explicação; tal coisa só teria acontecido se isso e aquilo tivesse provocado, tal pessoa só teria se matado se o tal pai-de-santo tivesse pedido. Um exemplo concreto é o da Gazeta do Povo, que hoje deu uma notícia sobre a morte da menina Isabella. Assinada Agência O Globo, mas deu. São nada menos que cinco verbos no futuro do pretérito. Cinco! “O buraco na tela de proteção por onde Isabella foi jogada teria sido feito por uma pessoa destra”. Sim, teria, mas por quê? Porque só uma pessoa destra tem força suficiente para cortar os fios? Ou então porque um canhoto nunca alcançaria a posição do buraco? Então escreva isso, raios! “O buraco na tela teria sido feito por um destro, pois os canhotos nunca desenvolveram a habilidade de cortar barbantes”.

Isso estaria menos confuso se eu não estivesse com tanto sono.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Seqüestro na Rua do Limoeiro

Posso dizer com convicção que meu primeiro professor de português foi Maurício de Souza e que aprendi a ler "elado". As minhas primeiras palavras e frases formadas sem a ajuda da "tia" foram nos gibis do Cebolinha, Mônica, Cascão e sua turma. Até minha letra, quando ainda era feia que dói, foi melhorada por eles; mamãe me mandava copiar todos as falas dos balões dos gibis no caderno de caligrafia. Tive assinatura das revistinhas da "Turma" por cerca de cinco anos, e tenho certeza de que foi a melhor época deles: quando leio, hoje em dia, um almanaque do Chico Bento, só tem histórias que já conheço, que foram publicadas na minha época. E uma coisa posso afirmar sem pesquisa de campo: não estou sozinho nessa.

Numa conversa de bar, basta alguém citar Xaveco ou Zé Luiz para começar a sessão nostalgia. Um lembra de uma história em especial, outro daquela revistinha antológica. Há também aquele que é fã do Doutor Olimpo e o que ainda tem sua assinatura (mas diz que deu para o irmão mais novo). Invariavelmente, todos os da minha idade, que gostam verdadeiramente de ler, começaram com a Turma da Mônica. E, bem, admito que até hoje não posso ver uma capa da Magali que corro para ler. Posso estar atrasado para qualquer compromisso sério, coisa de adulto, mas perco cinco minutos folheando aquelas benditas páginas coloridas. Leio as histórias antigas e rio como se fosse a primeira vez, igual criança. Acreditem: tem muita piada lá que foi feita para somente um adulto entender.

E não é que seqüestraram o filho e a ex-mulher do meu professor Maurício de Souza? Já os libertaram, graças ao Deus (esse é o apelido do tenente da polícia que comandou a operação de resgate), mas serviu para assustar mais ainda a população. Será que são só os jogos modernos e realistas, cheios de tiros e sangue por toda a tela, que geram violência na sociedade? Ora, afinal de contas ninguém seqüestraria a família do Maurício de Souza por dinheiro. Duvido que ser cartunista no Brasil dê dinheiro. Nada que gere cultura e educação, no Brasil, tem apelo mercadológico.

Quem conhece a História (com "h" maiúsculo) da Turma da Mônica sabe que os personagens dos quadrinhos são inspirados em pessoas próximas ao Maurício. A Mônica, a Magali e a Marina, por exemplo, são algumas das filhas dele. O Marcelo, o filho seqüestrado, também deve ser, só que com outro nome. Tem que investigar se na revista personagem dele (ou ele, como queiram) não fez mal para o Humberto, o Rolo ou o Do Contra; um fã alucinado pode ter sido tentado a se vingar. Proponho às autoridades que se investigue bem quem são os mandantes desse crime: se eles tiverem menos de 20 anos, o motivo foi alguma ação do personagem na revista, pode apostar.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O velho

Peguei o primeiro bonde do dia e fui para o centro. Era uma manhã gelada e clara, desperta do sono pelo canto dos pássaros. No banco ao lado do motorista havia um senhor de parcos cabelos brancos, provavelmente um aposentado buscando diversão, segurando uma antiga e longa bengala de madeira. Cada passageiro que entrava no veículo era saudado pelo velho com um sorriso sincero e um caloroso "bom dia". Na minha vez respondi "bom dia, velho" e ele me estendeu a mão, ostentado um sorriso maior ainda. Adoro chamar velhos de "velhos", pois dá a impressão de que sua condição de idoso não interfere em nada. E de fato não interfere. Ao contrário daquele falso respeito das pessoas que chamam a velhice de "melhor idade", chamá-los de "velho" não aparenta que o fato de sê-lo seja um catalisador da sua condição de nada no mundo. Velhos são engraçados.

Desembarquei quase uma hora depois no centro novo da cidade. Aqueles edifícios arranha-céus me impressionaram. Pensei com meus culhões o quão perigoso seria morar num bichão daqueles. Toneladas e toneladas de concreto apoiados sobre uma fina camada de terra (embaixo existem galerias de esgoto) e sustentados por uma simples viga de aço e cimento. Olhei para o velho que chegara com dificuldades ao meu lado e falei "você moraria num lugar desse?" Ele pensou sem tirar os olhos do topo do prédio; coçou a cabeça e disse "na minha idade, meu filho, você já não duvida mais das capacidades técnicas do ser humano". Entendi aquilo como um sim e convidei-o para tomar um café na lanchonete da esquina.

Era um velho muito simpático. Aparentava ter pouco mais de oitenta anos, e sua saúde era impecável. Via seus olhos brilharem a cada vez que o chamava de "você". Chamo velhos e autoridades de "senhor" quando a ocasião exige. Numa condição de igualdade, como quando somos apenas bons amigos tomando café da manhã, não há tratamento mais respeitoso do que "você". Não dissemos nossos nomes; ele era apenas o "velho" e eu apenas o "jovem". Nos entendemos bem assim. Ele me contava histórias, eu o contava planos. O velho já tinha feito muitas coisas que eu ainda nem sonhava em fazer. Esteve na guerra do Paraguai, no lançamento do rádio, na posse de vários presidentes. Foi remador do Flamengo, artista de circo e alpinista nos Andes. Acho até que oitenta anos era pouco para ele.

Passado um bom tempo desde que sentamos na lanchonete, finalmente perguntei o que ele estava fazendo àquela hora no centro da cidade. Ele me respondeu sem tirar o sorriso do rosto que tinha um velório a ir. Era um grande amigo que tinha partido, veterano da guerra como ele. "Tem uma época na vida em que você conhece mais gente morta do que viva", me falou. Questionei-o, então, se não estava triste com isso e ele me disse resignado "de jeito algum; ele finalmente completou seu ciclo". Tentei não entender e pedi para acompanhá-lo até o cemitério. Ele disse que sim, então pagamos a conta e saímos ao encontro da morte.

Já nem lembrava mais o motivo da minha ida ao centro. Eu era apenas o "jovem", amigo do "velho", que estava indo junto prestar as últimas homenagens ao amigo falecido. Fui para tentar entender o que pensam os velhos sobre a morte. Chegando na capela, não vimos mais do que cinco ou seis vivalmas. Todos velhos, inclusive os filhos do morto. Ninguém chorava, todos riam e contavam histórias. Na hora da morte, todo ser humano é bonzinho, mas ali, entre os amigos, isso era mais do que da boca para fora. Era um sentimento puro e sincero. O velho no caixão sorria. Todos em volta riam das suas peripécias. Naquela hora tive certeza de que ele era um sujeito querido e fanfarrão.

Meu amigo "velho" pediu licença para se despedir daquele corpo inerte. Me apinhei numa cadeira próxima e fechei os olhos. Fiquei só escutando, e o velho dizia: "vá em paz, irmão. Divirta-se lá e não esqueça de guardar um lugar no seu time pra mim. Eu já to chegando. Sua estadia por aqui foi boa enquanto durou, mas agora você precisa ir lá e dar um pouco de diversão pro resto do mundo. Mande um abraço pro Elvis, se você o encontrar". Dito isso, deu um tapinha na cara do morto e gritou "grande Cabeça". E o Cabeça se foi.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Promoção pra mocinha e pros manés

Parabéns! Você foi um dos escolhidos para a próxima fase do concurso PITOMBA’S MAGAZINE ARRUMA SUA VIDA. Você mais 499 felizardos foram escolhidos entre uma gama de um milhão e meio de pessoas. Agora você faz parte de um seleto grupo que pode faturar um carro zero quilômetro e mais um caminhão de prêmios, ou ainda pode trocar tudo pelo prêmio surpresa no valor de 100 mil reais em barras de ouro.

Mas para que você confirme sua participação no concurso PITOMBA’S MAGAZINE ARRUMA SUA VIDA, você deve renovar a sua assinatura da revista PITOMBA’S MAGAZINE e preencher o cupom que vem na revista bônus, que vem de brinde inteiramente grátis no ato da renovação da sua assinatura da PITOMBA’S MAGAZINE. E não é só isso não! Renovando sua assinatura da revista mais moderna do Brasil, você ganha sem nenhum custo adicional um lindo avental para churrasco e um chapéu de mestre cuca, para tirar a maior onda de Tiozão do Churrasco nas suas festas e reunião com os amigos.

Vai perder uma oportunidade dessas? Claro que não, pois só os verdadeiros vencedores assinam a PITOMBA’S MAGAZINE. E você já pode se considerar um vencedor, pois não esqueça que dentre um milhão e meio de pessoas você foi um dos escolhidos para participar da fase final do concurso PITOMBA’S MAGAZINE ARRUMA SUA VIDA. Ligue agora mesmo para 0800-555-5477 e renove já a sua assinatura da revista que é sucesso total de norte a sul do Brasil. Aproveite, a ligação é grátis.

Mas as surpresas ainda não acabaram. Por apenas mais R$ 12,90 nas três primeiras parcelas da assinatura (renovada), você receberá em sua casa um lindo jogo canecas personalizado do RBD. Agora é com você, está em suas mãos a sua grande chance. Não deixe a sorte escapar entre seus dedos, renove agora mesmo a assinatura da revista que é um show. Contamos contigo. Boa Sorte!

Atenciosamente
Equipe de premiações
Pitomba’s Corporation Inc.


Fim

Prazer, Maycon Dimas

Já não é mais segredo pra ninguém que o que eu almejo é o sucesso. Por enquanto apenas almejo, não o busco, mas isso é outra história. O fato é que espero encarecidamente que meu nome seja citado como expoente da literatura mundial no item "Brasil" do livro que será escrito quando já não houverem mais países no mundo. Sim, um dia já não haverão mais países no mundo, seremos uma nação só; a língua será o inglês, a religião muçulmana e a moeda... Bem, a moeda provavelmente será sal, como no Egito antigo. Mas isso, pessoal, e papo para outra crônica.

O primeiro passo para eu alcançar o sucesso – fora buscá-lo, claro – é mudar de nome. Ou alguém aqui acha que Maycon Dimas é um nome que alcançaria a fama? Alguém consegue imaginar o título "Novo livro de Maycon Dimas é sucesso de público e crítica" na capa do Caderno 2 do Estadão? Tenho uma pá de nomes no meu RG, mas ainda não encontrei uma solução mercadologicamente aceitável.

Minha teoria é que o nome decide mais da metade do sucesso da pessoa. O talento às vezes ajuda, claro, mas não adianta você iniciar uma carreira de ator com o nome artístico José da Silva. Simplesmente não vai pegar. Ainda não descobri a fórmula exata para um nome cair na boca do povo, mas prometo que um dia farei um estudo empírico sobre isso.

Lembro-me de um rapaz que conheci há uns 7 anos mais ou menos. Jogávamos futebol no colégio e ele barbarizava. Arrasava. Com a bola nos pés, pendia do seu lábio a baba elástica e bovina de quem sabe tratar a pequena (citação rodrigueana). Dizíamos "vá tentar ser profissional, meu chapa! Você é bom nisso". Ele foi. Com méritos, foi aprovado no Coritiba. Era o destaque dos juniores e tudo mais. Seu nome? Pedro Moreira, conhece? Era assim que o chamávamos, e desse jeito ele não foi nada além daquele "piazão dos juniores que joga bem". Assim como se continuasse insistindo no nome não seria muito mais do que um bom ponta-direita num time qualquer do Mato Grosso do Sul. Só que ele mudou seu nome de guerra para Pedro Ken. O resto da história muita gente conhece (o que certamente não aconteceria com o tal Pedro Moreira – talvez em Portugal).

Dizem que a numerologia pode ajudar nisso. Não sei não, mas alguma lógica eles devem ter encontrado. A Claudia Leitte, por exemplo, era apenas Claudia Leite antes de ir a uma numeróloga. Mandaram-na por mais um "t" no sobrenome e deu no que deu: essa praga que ganha toneladas de dinheiro cantando qualquer coisa que vem na cabeça.

Numa conversa que tive outro dia na ágora brasileira – o bar – sobre esse assunto, quiseram me provar que o nome parece que influencia no sucesso porque só conhecemos a pessoa depois que seu nome já está disseminado na opinião pública. Em outras palavras, queriam me provar que nos acostumamos com qualquer nome depois que ele aparece insistentemente no jornal. Digo que não, não e não, e posso provar. As meninas que me perdoem, mas o assunto agora é futebol.

Tenho dois exemplos. O primeiro é Alan, um neguinho que jogava nos juniores do Mengão junto com o Ibson, há uns cinco ou seis anos. Ele simplesmente esmirilhava no inúmeros campeonatos sub-qualquer-coisa que existiam. Jogava de meia-armador (bicha) e só o que sabia fazer é dar infinitos gols para os atancantes. Acho até que era o centroavante dessa época era o Adriano. Mas qual era o problema do Alan? Oh, sim, ele se chama Alan. Ou alguém aí acha que o Barcelona vai querer comprar um cara chamado simplesmente de Alan? Só para constar, dizem que ele ainda joga uma barbaridade, mas está num time, se não me engano, da segunda divisão da Noruega.

O outro exemplo é o portuga Cristiano Ronaldo. Conheci-o num mundial sub-17 qualquer em que ele jogou brilhantemente como um príncipe etíope de rancho (citação rodrigueana). Depois ainda o vi em um ou outro jogo do Sporting, mas ele não foi nada de tão fenomenal. Só que o cara se chama Cristiano Ronaldo. Sei lá, combina; dá para entender? Ainda mais na camisa, quando está escrito só C. Ronaldo. Hoje ele é craque, mas quando foi pro Manchester era apenas mais um bom jogador do campeonato português. Só que ele se chama Cristiano Ronaldo.

Maycon Dimas Olveira dos Santos. Cinco reais para quem achar uma solução economicamente sustentável.

terça-feira, 25 de março de 2008

Se o dinheiro falasse

Já parou para pensar por onde andou o seu dinheiro? Não que está no banco, mas essa nota de um real que tens no bolso. Pois bem, olhei para minha carteira e vi que entre todos os meus reais (que não são muitos), uma cédula em especial chamou mais atenção que as outras três (uma de cinco, uma de dez e outra de um novinha). Uma nota de um real velha, suja, maltrapilha e maltratada, com um furo no meio e com a esfinge de “óculos escuros” e bigode. Na hora pensei: e se essa nota falasse!

Em pouco tempo admirando aquela nota que estava (e ainda está) em frangalhos, comecei a imaginar diversas situações sobre o fabuloso destino desta nota. Desde que saiu da casa da moeda e foi para um banco. Do banco foi para as mãos (ou bolso) de alguém, quem sabe de uma velhinha que foi comprar pão. O garoto do caixa da padaria ao dar o troco para uma bela senhorita rabiscou o seu telefone na nota que a velhinha pagou pelos pães.

Na seqüência a nota foi para na banca de jornal, sem que a garota levasse a sério o galanteio do rapaz do caixa da padaria. Da banca de jornal foi para o cobrador do ônibus, quando o jornaleiro foi embora. Do cobrador a nota foi para um estudante do ensino médio que colocou os óculos escuros na esfinge, antes de passar a nota para frente. E assim a nota de um real foi circulando de mão em mão.

Foi lavada dentro do bolso da calça de algum esquecido. Usada por um garoto para comprar figurinhas do campeonato brasileiro de 1997. Foi apostada numa partida de caixeta. Foi parte do pagamento de uma rifa que concorria a uma cesta de páscoa. Foi doada como esmola. Serviu de pagamento para uma dose de cachaça. Passou pela Casa China. Algum moleque filadumaquenga resolveu fazer um saque, direto na conta do papa, através da santinha que vai de casa em casa no lares católicos e pegou essa nota.

Claro que tudo isso são apenas suposições de por onde essa nota pode ter passado, mas não é muito diferente disso. Quem garante por onde o nosso dinheiro já andou? E aqui está a nota de um real toda mulambenta, estropiada, furada e com um poema rabiscado. Não resisto em transformar a esfinge que estava de óculos escuros em um daqueles caras do Kiss.

Fim


O artigo 290 do Código Penal, diz ente outras coisas que é crime inutilizar nota, cédula ou bilhete representativo de moeda.

Assunto obrigatório

A malandragem no trânsito é a maior das incongruências do comportamento humanas – principalmente em Curitiba. Eu não sou nenhum santinho, admito. Forço alguns sinais amarelos (por que acredito que se deve ter esperança até o fim), dou minhas "picotadas" entre os carros e uso os 15 minutos da vaga da farmácia para ir à panificadora ou  à banca de revistas. Nada de tão grave, porém é a tal da ambivalência brasileira: faça o que eu falo mas  não faça o que eu faço.

Alguns caras exageram. E digo caras porque os malandrões do trânsito são sempre homens entre 18 e, vá lá, 30 anos. Nunca se vê uma mocinha pilotando um Ford Ka vermelho a 120 por hora na Visconde de Guarapuava. Elas estão sempre que podem se maquiando no espelho retrovisor. Que não me levem a mal, mas é talvez por isso mesmo que elas são mais educadas na direção. Nada têm a ver com os adesivos de florzinha, Betty Boop, Hello Kittys e afins que elas colam sobre a tampa do porta-malas.

Um dos casos mais emblemáticos é o momento de arrancar no sinaleiro. Eu não perco nunc... Digo, todo homem acha que consegue arrancar antes do veículo imediatamente ao lado. E não importa se há alguém na frente ou se precisará atravessar a pista para entrar à esquerda na primeira rua após o cruzamento: a espera pelo sinal verde é um breve momento de tensão. Os malandrões pisam fundo, roncam os motores, intimidam os vizinhos e, quando o sinal finalmente abre, correm, aceleram como se nada houvesse de mais importante do que chegar antes do "adversário". Mas... Chegar onde? Justamente no próximo sinal fechado, onde você, motorista prudente que arrancou calmamente e seguiu com velocidade segura e compatível com a via, chegará apenas alguns pouquíssimos segundos depois.

Mas o que mais irrita este que vos escreve são as benditas faixas de conversão obrigatória. Sabe, como aquela na Bento Viana, onde quem está na faixa da esquerda é obrigado a entrar na Avenida do Batel? Ou então para quem está na faixa da direita da Visconde de Nácar, logo após a Vicente Machado, e é obrigado (quase induzido, pois ali é um movimento praticamente natural) a entrar na Comendador Araújo? Essas faixas são quase que isoladas das outras por aquelas tartariguinhas, muito bem sinalizadas e, principalmente, NÃO CONTINUAM depois da rua onde se é obrigatório fazer a conversão. Mas o que fazem os malandrões? "Wooow"!, são muito espertos e ultrapassam todos os bobos que ainda esperam para seguir reto na faixas – digamos – mais convencionais.

Particularmente tenho uma técnica supimpa que serve, se não para educar os malandrões, pelo menos para deixá-los profundamente irritados. E garanto a vocês que é uma técnica empiricamente comprovada. Funciona assim: logo que o espertalhão entrar espertamente na sua frente, oriundo de uma dessas faixas de conversão obrigatória, tasque-lhe um jóia pelo seu pára-brisa. Sim, aquele mesmo jóia que se faz para cumprimentar o colega do outro lado da rua. Mas preste muita atenção. É preciso colar na traseira do indivíduo e ter certeza de que ele viu o jóia por algum dos espelhos. Admito que é uma técnica perigosa, mas a risada, no final, compensa todas as agruras desse trânsito caótico. Ah, e é muito importante conferir se o malandrão é mesmo um malandrão. Às vezes acontece de um motorista novato ou senil (esses são peritos nisso) estarem na faixa errada e PRECISAREM entrar na sua frente. Só que aí a história é outra.

Mas, espera aí. Será que estes motoristas senis, que por muitas vezes acho-os estúpidos em todo o âmbito da palavra, não foram os malandrões da sua época e estão usando toda sua malemolente velhice para passarem a pernas nos bobocas aqui? Sinto que fui enganado.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Sustentando o vicío

Imagine-se num distante país qualquer. De preferência num desses que "não existem", tal como Ossétia do Sul, Abecásia ou a República do Palau (são tão longínquos e desimportantes que nem o word os reconhece). Você, por algum motivo que não merece explicações, está representando o Brasil numa visita oficial. E o Brasil, por incrível que pareça, acaba de ajudar o referido país a conseguir a tão desejada independência sobre os imperialistas do Turcomenistão. Resumindo: você está sendo tratado como rei.

Entre um aperto de mão e outro, a fome começa a apertar. Você olha no relógio e ainda faltam pelo menos duas horas para a próxima refeição. As perspectivas não são boas: a fila para abençoar os fiéis (sim, criaram uma igreja evangélica dizimista onde você é deus) some da vista, descendo o serrote até pelo menos a cidade baixa; todas as duas emissoras de TV locais e as três de rádio querem lhe fazer entrevistas exclusivas; e, finalmente, a assessoria do Imperador do paisinho (diminutivo de país) foi lhe informar que o almoço seria servido somente dentro de longuíssimas três horas.

Em três horas sua fome será de refugiado de guerra, de recém-nascido abandonado pela mãe no matagal do Jardim Botânico. O estado será tão crítico que você verá imensos T-bones suculentos e flutuantes ao invés das vacas e cachorros que circulam pelas ruas. Mas uma coisa o acalma: o almoço certamente será digno de príncipe etíope, com tudo o que de melhor o país tem a oferecer e – o mais importante – em fartura. Muita fartura.

Mesa posta, você se vê em meio a todas as autoridades locais – alguns em formato de coxa de galinha, devido ao avançar do instinto. As bandejas começas a entrar e o estômago arde, de tanta fome. Você fecha os olhos e sente o aroma... Finalmente comerá, depois de infindáveis horas de abraços, autógrafos e entrevistas. Enquanto o Imperador e o Ministro de Guerra fazem seus discursos, seu pensamento é apenas no que virá debaixo daquelas lustrosas tampas. Imagina uma grande panela de arroz, uma bandeja repleta de picanhas malpassadas fatiadas, um pote de farofa de milho temperada e uma cumbuca de feijão abarrotada de bacon e paio.

Dada a ordem, os serviçais avançam até as bandejas e puxam-lhes as tampas. À primeira vista, seus desejos se realizaram: você vê o arroz, o feijão, a picanha e a farofa. Mas é apenas uma miragem. Forçando a vista para enxergar a realidade, vê um singelo coelhinho com uma maçã na boca, que os criados anunciam como "Lebre Virgem ao Molho de Ostras". Um pouco mais ao lado, uma mistura verde e grossa que expele gosmentas bolhas de ar é anunciada como "Molho Típico de Ervas Grossas". E antes que você pudesse pedir licença para vomitar, um jovem serviçal sobe numa cadeira e anuncia, a plenos pulmões, o que diz ser a especialidade do país: "Filhote de Gambá à Milanesa". A multidão à mesa vai ao delírio; você, finalmente, desmaia.

Um vício nunca é saciado com novidades e invencionices. E convenhamos que comer, pelo menos num estado de fome terminal, é um vício físico e psicológico, muito mais atormentador do que a abstinência de cocaína ou de video game. Esse seria um caso em que você chegaria num restaurante qualquer e pediria o famoso PF, que NUNCA varia da combinação arroz, feijão, macarrão, salada e carne à escolher. Na hora da fome, nada é melhor do que isso. Não me venha com água-viva cozida, canário-da-terra assado ou anta grelhada: o que eu quero é sustança.

(Graças ao Lucas Mário)

quarta-feira, 19 de março de 2008

Se a vida lhe der limões...

De saco cheio de não ter amigos e nem para quem ligar, Luana Inocêncio começou a trabalhar como operadora de telemarketing. Hoje vive feliz pois todos os dias tem para quem ligar. O seu desejo atual é que as pessoas liguem para ela.
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Cansado de sua vida solitária, a falta de emprego e da sua virgindade que durava vinte e poucos anos. Clóvis Marçal, largou a frieza dos relacionamentos na internet e foi fazer filmes adultos, pela Brasileirinhas. Agora faz o que sempre teve vontade, ganhou um nome artístico (Clóvis Peróba) e ainda ganha para isso.
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Vinícius do Amaral, adorava futebol. E como todo garoto sonhava em jogar no seu time de coração. Porém quis o destino (esse brincalhão) que Vinícius não nascesse com o dom de ser bom de bola. Vinícius não deu bola (hã hã hã) ao destino e hoje trabalha orgulhoso, no seu time de coração. É gandula profissional há doze anos do Esporte Club Birolauense, o Dragão da Serra.
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Dêmia Gonçalves, queria ser modelo. Porém a beleza nunca foi o seu atributo que mais a destacava. Mesmo depois das plásticas no nariz, olhos e orelha. Mais os implantes de silicone aqui, ali e acolá, Dêmia não ficou exatamente bela. Mas hoje faz uma série trash onde ela é a heroína e também a mais bela das atrizes do seriado.
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Depois de ser motivo de chacota a vida toda, Cleriston Bingolau resolveu dar um basta nas chacotas que sofria. Começou a usar as piadas que faziam dele em um show de comédia stand-up. “Agora olha quem está rindo por último!” diz ele.

Fim

Quase um déjà vu

Foi ócio, admito. Minha semana (essa que passou) foi de completo ócio. Mas, como dizem, foi o tal do ócio produtivo. E ócio produtivo, no meu caso, significa MUITA leitura. E isso não é especialmente bom.

A cada livro que leio, fico impressionado. Me atento principalmente aos clássicos, é certo, mas – raios! – como podem escrever coisas tão boas? Cada página é um verdadeiro chute no saco. Acho que tudo que valia a pena ser escrito já foi. Será possível escrever algo tão bom ou melhor do que Dom Quixote? Acho improvável.

Não há mais nada de novo a ser escrito. O futuro nos reserva apenas releituras de velhos clássicos. É o fim da história (sem trocadilho). No mundo nada se cria, na se destrói; tudo se transforma.

O mesmo vale para a produção musical. As músicas vêm sendo sistematicamente catalogadas desde pouco mais de 400 anos. E num mundo extremamente burocrático como o nosso, o que não está catalogado não existe. A inspiração nunca irá acabar? Não seria o funk uma prova de que a produção musical de qualidade está em vias de extinção? Provavelmente no futuro só teremos versões de antigos clássicos.

Aliás, será que esse texto já não foi escrito antes?

O bom e velho ele

De repente, instalou-se a crise. Mental, que fique registrado. No mais está tudo bem: com os amigos, com a família, com o trabalho. O problema é a cabeça e os velhos questionamentos sobre a existência e, principalmente, o porquê dela. Nada que fará seu mundo perfeitinho ruir, mas incomoda na hora das conversas mais fúteis.

Os pensamentos variam da descrença nos ideais de sobrevivência à idéia de que a vida é apenas um rito de passagem. As angústias, veladas, fazem eco nas atitudes, nas palavras. Há um certo rancor no ato da convivência social. As regras... Não está certo. Nada está certo.

Alguém lhe disse, certa vez: "A vida é curta, rapaz. Aproveite enquanto é tempo". Hoje ele se pergunta por que isso. A vida é curta comparada a quê? O planeta tem milhões e milhões de anos. Se comparado a isso, a vida é curta mesmo. Mas uma mosca vive dois, três dias. E então?

Mas, na verdade, o que é a vida? Seria ela um direito adquirido? Ou então uma grande sorte de loteria? Até um azar, talvez. O fato é que vivo ele está; sente dores e suas variações; sente sabores, gostos, sons e formas; sente preguiça, ira, avareza a luxúria. Só não entende os motivos disso tudo.

Explicações. Ele quer explicações.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Marketing agressivo

Domingo cedo, estava com uma ressaca considerável assistindo o Esporte Espetacular, com seus jogos que exaltam o patriotismo brasileiro. Pois sempre tem um “desafio internacional” de alguma modalidade esportiva, em que o Brasil enfrenta algum adversário meia-boca e dá aquela impressão de que o Brasil não é só futebol. Mas o que me traz a escrever estas linhas é um fato do mundo marketeiro futebolístico de fora das quatro linhas.

Pois vejam a audácia da diretoria do São Paulo. Esses geniais senhores tiveram a pachorra de traçar um plano de marketing para que um dia quem sabe, o São Paulo tenha a maior torcida do Brasil. Isso mesmo, os sumpaulinos querem ter uma torcida maior que a do Flamengo. O projeto é inovador, tenho que concordar, mas tem um detalhe. O plano, a lá Dick Vigarista, pode até dar certo. Contudo as condições para que o clube paulistano obtenha sucesso são um pouco improváveis, duas delas são eminentes.

Um destas condições é a de que o clube paulistano continue a fazer campanhas vencedoras, como vem fazendo ultimamente. O que para quem acompanha futebol, sabe que o Brasil não é a França nem a Alemanha, onde um único clube reina absoluto por décadas e sem ser incomodado pelos rivais. Aqui sempre há uma certa rotatividade de clubes no topo da cadeia alimentar.

Outra condição, depende dos adversários. Pois nada impede o Flamengo, o Ipatinga, o Corinthians (é timão mano), o Palmeiras, Fluminense, Bacalhau entre outros de menor expressão, de fazer uma campanha igual ou parecida com essa. A tal campanha de marketig é válida, mas não vejo muito futuro nisso não. Ao menos vale o fato de o clube paulistano ser lembrado como a vanguarda da idéia.

Outra coisa, pelo menos a campanha do São Paulo é mais racional do que a que um comentarista esportivo, muito imparcial e corintiano disse na TV um tempo atrás. Dizia o comentarista, incomodado com o Corinthians (é timão mano) ter a segunda maior torcida do Brasil:- Você corintiano, depois do jogo vá para casa e faça mais um corintiano. Assim logo teremos mais torcida que o Flamengo.- É mole!? Esse sim é um brincalhão, como diria outro comentarista imparcial de acha que sabe tudo.

Voltando à campanha do sumpaulo, se eles acham que vão sair por ai roubando torcedores do Mengão, já vou avisando que estão muitíssimo enganados. Pois já estou fazendo a minha parte, para frustar as intenções malignas do tricolor paulistano. Meu sobrinho, Murilo um figurinha, estava assistindo comigo, e no alto dos seus recém quatro anos, me perguntou o que era aquilo. “Aquilo” era um sujeito careca vestido de mascote do São Paulo.

Como o dever de todo tio é zelar pela boa educação e principalmente ensinar o caminho do bem ao sobrinho amado, disse a ele que aquilo que o sujeito careca estava fazendo era colocar roupa de menina nos meninos. Perguntei se ele queria uma camiseta daquelas, sem pensar muito disso: - Eu não, é de menina.- Garoto esperto, sabe das coisas. Sem pressão nenhuma deste que vos escreve ele já sabe quem é e quem foi o Zico. Até quando vê a camisa do Atlético-Pr diz que é a camisa do Zico. Tudo bem ele só tem quatro e deu essa moral para o Atlético por causa das cores. Em breve estará vestindo a camisa do Mengão para orgulho do tio coruja aqui. E isso não tem marketing
que supere.

Fim

sexta-feira, 14 de março de 2008

Questão de prioridades

O governador de Nova York, Eliot Spitzer foi pego, descobriram que o sujeito andava, e por muito tempo, com a boca na botija, com a mão na massa, ou seja, descobriram que o governador era chegado nos serviços das profissionais do sexo. Dizem que era uma profissional de luxo, e de fato era mesmo, pelas fotos divulgadas pela mídia. Mas alguém esperava que não, governador que é governador, não usa serviços que não sejam luxuosos, ainda mais os serviços desta natureza.

Se bem que o Bill Clinton deu aquele tchuplec-tchuplin naquela estagiária, que não era assim uma brastemp, e até hoje é lembrado como o presidente que pegou a estagiária gordinha(na época). Mas apesar dos pesares, Clinton continua firme e forte apoiando a esposa Hillary na corrida pela Casa Branca. Voltando ao Sr. Eliot Spitzer, depois que vasculharam o histórico do seu computador (tremenda sacanagem), descobriram que o governador era muito chegado numa sacanagem e com um pouquinho mais de empenho verificou-se que o governador gastou 80 mil dólares com serviços das profissionais de luxo.

A pressão foi tanta que, Spitzer renunciou o cargo de governador, não agüentou, pediu pra sair, fez cara de choro e prometeu não fazer isso de novo (me engana que eu gosto). É engraçado essa coisa puritana dos políticos americanos, depois de descobrirem as suas sacanagens, chamam a família, convocam uma entrevista coletiva, pedem desculpas ao povo e fica por isso. Mostram a fragilidade do ser humano. Assumem que a carne é fraca, só falta dizerem que “foi sem querer”.

Já que eles dão tanta importância para a fornicação, o que falta para pedir desculpas pelas agressões no Afeganistão e no Iraque. Só para começar.

Fim

terça-feira, 11 de março de 2008

Peça uma e ganhe outra

Tem uma coisa que me deixou bolado outro dia no restaurante. É que em cima de cada mesa tinha um pequeno quadro de propaganda, do restaurante, que de um lado dizia que aquele era o restaurante mais lembrado pelos entrevistados do Top Of Mind. Do outro lado tinha uma espécie de convite/promoção, para os clientes voltarem mais vezes ao restaurante. A promoção era a seguinte, nas terças o cliente que pede uma cerveja Heineken, ganha outra.

Percebeu a pegadinha do malandro? Não? Pois explico, imagine o sujeito que aprecia uma Heineken, ao chegar no restaurante é gentilmente recepcionado pela bela moça que o acompanha até a mesa que melhor o agrade. Em seguida um garçom vai anotar o pedido da bebida. Logicamente o sujeito pede uma Heineken, pensando na promoção. Antes que o garçom volte com a cerveja ele vai se servir. No buffet pega uma saladinha, um pouco disso, um pouco daquilo, um tantinho daquele outro e volta para a mesa.

Ao sentar-se na mesa o garçom vem com a cerveja, porém para espanto do cliente, ele não traz uma Heineken. O garçom serve uma cerveja de outra marca. O cliente chama a atenção do garçom, dizendo que deve ter havido algum equivoco. Mas o garçom diz que fez exatamente o que o cliente pediu. O sujeito fica confuso e pergunta sobre a promoção da Heineken. O garçom educadamente explica: - Veja bem, não servimos Heineken. E está bem claro no panfleto. PEÇA UMA HEINEKEN E GANHE OUTRA. Entendeu? Você pede uma Heineken e leva uma cerveja de outra marca.

O cliente pode retrucar falando, que estava escrito que o cliente GANHA outra. E quem ganha não precisa pagar.

Fim

sexta-feira, 7 de março de 2008

Passionacionalidade

De repente a euforia e a esperança, num instante torna apreensão e angústia. Aquele entusiasmo de certa forma serviu de combustível para que a esperança não se fosse de uma única vez. Porém em instantes outro fato deixaria a esperança “respirando por aparelhos”. Mesmo assim ainda havia esperança, e não é que ela é realmente a última a morrer. Quando tudo dizia que não ia dar certo, aquele resto de esperança iluminava e de certa forma acalmava a angústia que já se fazia presente nas expressões faciais. No pedido de mais um chope. Era a esperança dando sinais de fraqueza.

Minutos depois, mais um golpe que leva a esperança à lona. Mesmo assim eram os últimos suspiros daquele restinho de esperança. Agora a angústia tomava conta do ambiente, ninguém dizia nada, apenas resmungavam lamentos e grunhidos de raiva. A raiva surge como se já estivesse pairando no ambiente a algum tempo. A esperança em estado terminal e em diminuindo cada vez mais, só fazia aumentar o sentimento de nó na garganta. Angústia, nó na garganta e a sensação de impotência em não poder ajudar.

Mais duas fatalidades seguidas e a esperança “sobe no telhado”, com o rosto enfiado entre as mãos. Um olhar distante para o nada, desvio o olhar para a tela e vejo que minha angústia, o nó na garganta, o desconforto e o sentimento de não poder ajudar iriam durar mais vinte minutos. É como se você estivesse amarrado e na sua frente alguém agredisse alguém que você preze muito. Tamanha tristeza no ambiente que até um uruguaio, e torcedor do Nacional, não se empolgou muito com a vitória do seu time. Sentiu-se culpado pela dor no coração dos presentes e tentou até atenuar o sofrimento alheio. Disse em portunhol: - Tranquilo, no fim seremos nós e Flamengo classificado. Tranquilo.

Perguntei a ele, como se sentiria se a situação fosse inversa. Nós no Uruguai e o Flamengo vencendo o time dele. O gringo respondeu que ficaria tranqüilo, pois sabia que se classificariam com o Flamengo para a segunda fase. Disse a ele, que essa é a diferença, uma derrota do Flamengo é muito maior e mais triste para nós do que uma derrota do Nacional para eles.

Fim

Viaje o Mundo com a FCC

- Mas o Brasil é um lugar do mundo, não é?
- É, sim senhor. Mas a promoção que o senhor ganhou dá direito a uma passagem internacional, e não nacional.
- Pois não. Mas no panfleto dizia que se eu ganhasse teria direito de ir para qualquer lugar do mundo.
- Ok, senhor. Isso significa que o senhor pode escolher uma passagem de ida e volta com acompanhante e tudo pago para qualquer lugar do mundo. Paris, Roma, Berlim, Praga...
- O Brasil é um lugar do mundo!
- É sim, senhor, só que a promoção que o senhor ganhou só dá direito a viagens internacionais.
- Chamava-se "Viaje o Mundo com a FCC", não é?
- Sim, senhor.
- Pois então eu quero ir para Salvador. Eu ganhei, eu escolho.
- Sim, senhor. Mas para ir a Salvador o senhor teria que ter ganhado na promoção "Viaje o Brasil com a FCC". A sua promoção só dá direito a viagens internacionais.
- Mas de que me adianta conhecer o resto do mundo se nem meu país eu conheço?
- Pense bem, senhor. O senhor terá a chance de ir para os países mais ricos do mundo, conhecer outras culturas, aperfeiçoar idiomas...
- Nenhum país é mais rico do que o Brasil. A riqueza não é apenas o dinheiro. E eu não conheço a cultura da Bahia. Além do mais, nem o português eu sei falar direito!
- Seria um desperdício do seu tempo e do nosso dinheiro ir para Salvador ao invés de Nova Iorque.
- Desperdício? Você está querendo dizer que conhecer o meu país é perda de tempo?
- Não foi isso que eu quis dizer, senhor. O senhor precisa entender que ganhou uma promoção dos sonhos de qualquer pessoa. Conhecer qualquer lugar do mundo, não é formidável?
- Excelente! Eu quero conhecer o Brasil.
- Eu já lhe expliquei, senhor: essa promoção só lhe dá direito a viagens internacionais. Que tal ir para Sidney? Conhecer os cangurus, a Opera House...
- A senhora já viu uma anta?
- O senhor está me ofendendo.
- Não é isso. Eu falo da anta mesmo, o animal. O maior mamífero do Brasil.
- Não, senhor. Nunca vi.
- Então para que conhecer um canguru? As pessoas não olham nem para o seu próprio quintal!
- Mas, senhor, a questão agora não é essa...
- A questão é essa sim! A construção da identidade nacional. O Brasil é muito lindo, porém desunido. Somos recebidos em outros estados como estrangeiros. Estrangeiros na própria terra... Quanta canalhice.
- Desculpa, senhor, mas eu recebi ordens para te ligar e combinar os detalhes da sua viagem. Infelizmente só posso te oferecer viagens internacionais.
- Então vamos fazer assim: eu vou de ônibus para a Argentina e de lá pego um avião para Salvador. Ok?
- Não sei te responder, senhor. Aguarde um minuto que vou estar te transferindo para o setor responsável.

*****

Parto hoje para Fortaleza-CE. Coisas novas deste que vos escreve só a partir do dia 17 próximo. Prometo voltar com a mente limpa de preocupações.

Os dilemas continuarão, mas a iminência do suicídio cessará por uns tempos.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Mas eu me mordo

Estava tudo indo muito bem, a Camila é uma menina sensacional. E sem falsa modéstia, sou um bom namorado. Estamos juntos a um ano e meio, raramente brigamos. E quando isso ocorre é sempre por questões como o controle remoto da TV ou que sabor de pizza pedir, nada de grave. Ela é muito querida na minha família e a família dela também me trata muito bem. Nos conhecemos numa fila de banco e disso não ficamos mais sem se ver.

Ela estuda odontologia de manhã e faz natação a tarde, eu trabalho numa agência de publicidade e tento jogar futebol nas terças e quintas. Não por obrigação, mas por prazer mesmo eu costumo levar a Camila no cinema, toda quarta feira. Só quando tem jogo do Mengão que não, e ela entende isso. Se bem que ela não seria louca de me contrariar.

Fazemos programas bem diversificados, nunca deixamos de visitar os amigos e procuramos ter o maior número de amigos em comum. E talvez esse tenha sido o princípio da inquietação que corrói a cada minuto. Nunca fui de ter ciúmes, mas confesso que ultimamente eu me mordo de ciúmes. Tudo por causa das nossas concessões de namorados descolados que se amam. Porém dessa vez isso me pegou desprevenido.

Tudo começou depois de uma reunião etílica na casa da Carla, irmã da Camila, em que ela mandou chamar todo mundo. Tinha tudo para ser uma festa bacana, mas o problema é que foi todo mundo. Todo mundo mesmo, tinha gente de todo tipo. Sumidos apareceram, os de sempre, como sempre estavam lá, enfim foi um sucesso. Carla disse que nunca tinha dado tão certo um convite desses.

Voltando ao meu causo, a festa estava maneira. Muita bebida, churrasquinho, risadas, gente fazendo graça, gente fazendo fiasco, era uma festa descolada. Lembro que enquanto a Camila revia e matava as saudades das amigas de antigamente. Malandro que sou, fui jogar um carteado. No truco meu parceiro foi um sujeito que não conhecia. Marcelo era um cara animado, o apelido dele era Cerebelo. A Camila já tinha falado desse sujeito anteriormente. O cara não parava de falar quando estava jogando. Irritava os adversários e demorou para que perdêssemos um jogo. Quando perdemos o Cerebelo foi zoado demais, achei engraçado.

Estava tudo muito bom, tudo muito bem até que a Camila viu o Cerebelo. Se cumprimentaram com um abraço apertado, e ela me apresentou a ele. Foi aquela situação famosa “oh, mas vocês já se conheceram”, disse que jogamos truco. Ficamos eu, a Camila, a Carla e o Cerebelo, que é amigo de infância das duas, conversando numa mesa. Até que de repente, não mais que de repente surge uma conversa estranha de que o tal Cerebelo e a Camila tiveram um affair. Pronto, era o que faltava para estragar meu dia. Minha namorada dando gargalhadas com o ex-namorado. Cerebelo, vê se isso é apelido que se preze.

Depois da festa a Camila me explicou que eles foram namorados, na verdade aqueles namoricos de criança, quando eles tinha cinco anos. E que eles não se viam há mais de quinze anos. Tudo bem, posso estar sendo um tanto exagerado, mas não vejo como não ser. Até queria levar uma vida moderninha, mas eu me mordo de ciúmes.

Fim

terça-feira, 4 de março de 2008

Assunto: amor (adivinha!)

Lá vem ele de novo falar sobre amor. Logo ele que não ama, um sujeito que não tem sentimentos. Coração de pedra feito guerrilheiro desbravador. Praticamente um tropeiro macho, sujo e durão. Quase um forasteiro no Velho Oeste.

Juro, meus caros... Não é minha vontade! É inevitável; algo que surge como que de geração espontânea. O mundo está repleto de amor, e não há dúvida: o assunto é inesgotável.

Há um diálogo no livro "A Idade da Razão", de Jean-Paul Sartre, que ilustra bem minha relação com o dito sentimento:

- Gosta de mim?
- Gosto – disse Boris com uma careta.
- Por que faz essa careta?
- Porque você me perturba.
- Por quê? Não é verdade então que você gosta?
- É verdade.
- Por que não diz isso espontaneamente? É sempre preciso que eu pergunte.
- Porque não sei. Acho que essas coisas a gente não diz.
- Desagrada a você que eu diga que te amo?
- Não, você pode dizer, se isso vem espontaneamente, mas não deve perguntar-me se te amo.
- Querido, é tão raro eu te perguntar alguma coisa. O mais da vezes, basta-me olhar e sentir que eu te amo. Mas há momento em que é o teu amor que eu quero.
- Compreendo – disse Boris com seriedade. – Mas você deveria esperar que acontecesse sozinho. Se não é espontâneo, não tem sentido.
- Mas, meu tolinho, se você mesmo diz que você não diz se não te pergunto!
Boris riu.
- É verdade, você me faz dizer asneiras. Pode-se ter um grande sentimento por alguém e não falar.

Isso é tudo, por ora.

segunda-feira, 3 de março de 2008

O primeiro segundo beijo

Era basicamente uma turminha comum de pré-adolescentes nouveal rich numa tarde de domingo. Sentados esparramados e espalhados pela calçada ao lado do mercadinho, conversavam sobre futebol, desenhos animados e o mundial de skate. Garrafa era o único que estava quieto, como que completamente imerso em seus pensamentos. Olhava fixo para a ladeira no fim da rua, como se de lá viesse algo que lhe chamaria a atenção. Mas não pensava em nada, e seus olhos sumiam atrás das lentes grossas. Lembrou-se que já nem precisava mais deles, mas não haveria sentido o apelido se por ventura parasse de usá-los. Até pedira para a mãe tirar os graus da lente para que pudesse usá-los sem comprometer mais a visão. Sentia-se mais inteligente com os óculos no rosto.

Garrafa era uma espécie de líder carismático da turma. Talvez por morar bem no centro da vila, exatamente no único caminho para o campo de areia da prefeitura, ninguém esquecia dele na hora das brincadeiras. Era também o único ali que já tinha beijado uma garota na boca, e constantemente repetia isso – o que apenas lhe confirmava a condição de líder. Fora há dois anos, sim, e com uma prima, mas era o único que sabia explicar como é encostar uma língua na outra. A maioria da piazada ainda nem ligava para, pois aos 12 anos jogar caçador menino-contra-menina parece mais divertido do que encostar numa garota, mas alguns já chegavam aos 13 e a possibilidade de parar de puxar os cabelos das meninas já lhes parece bem aceitável.

Sempre de chinelos estilo papete, bermuda de sarja e camiseta pólo, Garrafa parecia mais velho do que os outros da sua idade. O bigodinho ralo, conseguido à base de muita gilete "para engrossar os fios", também lhe dava ares de precoce. E, afinal, já havia beijado, enquanto todos os seus amigos ainda treinavam as técnicas com uma laranja ou um copo de gelo. Sentado no meio fio, ainda olhando para o fim da rua, Garrafa começou a ficar com uma cara preocupada; não disse para ninguém, mas o que queria naquele momento era beijar mais e mais, entretanto não sabia como fazer. Sua primeira vez fora com a prima Lúcia, na despensa da casa da avó; não teve que falar nada, nem antes e nem depois.

Para resolver o imbróglio de uma vez por todas, propôs, então, ao Pequeno, que morava no condomínio da esquina e tinha um salão de festas imenso, que promovessem uma festinha americana, com direito a globo de espelhos alugado e um potão de ponche alcoólico (escondido dos pais, lógico).O Pequeno, claro, aceitou, afinal era a oportunidade que ele esperava para ficar mais conhecido na vila, e até, quem sabe, descolar o primeiro beijo. Ligou para o pai e tudo foi esquematizado: sábado seguinte, no salão de festas do condomínio do Pequeno, festa americana a partir das 19h. Meninas levam comidas e meninos levam refrigerantes.

Globo de espelhos alugado e posicionado, ponche alcoólico devidamente "mocado" (feito pelo irmão do Chaliça, mais velho e gente finíssima) e o som com entradas para iPod num canto, a festa estava pronta para começar. Garrafa escolheu sua melhor roupa, com o lustroso sapato de ir à missa nos pés e um lenço vermelho estrategicamente posicionado no bolso da camisa. Entre papos e goles, as meninas começavam a chegar e a se juntar em grupinhos. Não se misturavam, meninos e meninas. Várias rodinhas no salão, eles batendo os pés no ritmo da música e com um copo na mão, elas cantando e dançando o Créu até o chão.

De repente, Garrafa viu Marcinha. Morena, com os cabelos bem lisos caindo suavemente até o meio das costas, era uma das poucas ali que já tinha feito 13. Parecia desconfortável, no canto, de braços cruzados e olhando para o chão. Assustou-se com a chegada repentina do rapaz lhe oferecendo uma dança. "Mas está tocando funk", ela disse. Ele a puxou para a pista e lhe disse no ouvido que já estava tudo preparado. Não tinha idéia de como tinha conseguido fazer aquilo – ir até a menina, falar com a menina e, acima de tudo, tirá-la para dançar –, mas, quando se deu conta, já estavam abraçados ao som de Fugees, que Borbolla colocou quando alcançaram o centro da pista, conforme fora combinado.

Garrafa sentia que Marcinha tremia. Ela, por sua vez, sentia a mão dele suando nas costas. Não ousaram se aproximar e muito menos conversar. Estavam sozinhos na pista, afastados quase um palmo um do outro e balançando para lá e para cá, totalmente fora do ritmo. Quando Borbolla apagou a luz, alguns outros casais se juntaram à dança: Cesinha do prédio verde e a Sônia, filha da Terezinha; Tadeu Capixaba com a Bianca; Xerife, filho do Major Marcelo, da polícia militar, com a Telminha do colégio São Francisco; e finalmente Borbolla e Ingrid, que no clubinho é chamada de Greca. Mas para Garrafa não havia mais ninguém, aquele momento era só dele; só havia luz sobre ele e Marcinha, e tudo o resto eram somente nuvens.

Ia aos poucos tentando uma aproximação. Quem o impedia de chegar mais perto não era Marcinha, e sim seu coração, que batia tão forte que teve medo de se encostar e ela se assustar. Torcia para que a música não acabasse mais: o Ipod que estava tocando era do Marco, o que dava grandes chances de a próxima canção ser um rock progressivo e isso quebraria todo o clima. Precisava agir rápido, pensar no que falar e no que fazer. Imaginava se ela o beijaria ali na frente de todo mundo ou se gostaria de ir até o jardim, esconder-se. Formulava mentalmente frases de efeito para usar de acordo com as respostas de Marcinha. Quando finalmente ia falar alguma coisa, a música parou.

Os cinco segundos entre uma canção e outra pareceram eternos. Ambos soltaram as mãos, mas não saíram da pista e nem de perto. Ao primeiro acorde da próxima faixa, porém, ela disse quase engasgada "vou ao banheiro" e virou sem olhar mais para trás. Com ela – coincidência ou não – foram todas as meninas que dançavam. A pista ficou com Garrafa, Cesinha, Tadeu Capixaba, Xerife e Borbolla se olhando e sem ação. Não sabiam se deviam conversar ou tomar alguma coisa ou dar uma volta ou até ir ao banheiro. Ficaram todos parados, na mesma posição, durante alguns segundos. Então Borbolla virou as costas e foi até o ponche; Cesinha e Xerife se cumprimentaram e saíram em direção ao som; Tadeu Capixaba olhou para o banheiro e andou, mas acabou sentando numa cadeira pelo caminho. Só ficou Garrafa na pista, sozinho e ainda sem se mexer.

Marcinha saiu do banheiro já quase no final da música. Viu Garrafa ainda sozinho no meio do salão e baixou a cabeça. Ele andou em sua direção; ela sabia, mas fingiu não perceber. Finalmente, quando se encontraram, ele perguntou se ela queria sair no jardim, olhar as estrelas. Já tinha tudo programado. Lá fora diria que "a lua só não é mais bonita que seus olhos" e que "todas as estrelas do céu juntas não embelezam mais a noite do que você", para depois finalmente beijá-la. Já do lado de fora, seu coração parecia na boca e as mãos tremiam. Ele até pensou em pegar na mão de Marcinha, mas quando criou coragem já estavam sentados no gira-gira.

Postaram-se um de frente para o outro. Ele pensava "tenho que falar, tem que falar agora", e ela fitava-o nos olhos pela primeira vez. Garrafa tinha a testa molhada de ansiedade; imaginou aquele momento durante a semana toda. Deslizou a mão pelo assento até seus dedos encontrarem os dela. Marcinha não se esquivou, bom sinal. Entrelaçaram as mãos, ainda sem falar nada. Ela mexia nos cabelos, ele olhava para os lados, nervoso. Ela olhava para baixo, mordia os lábios; ele pôs a mão no joelho dela. Quando do salão surgiu a música de Bryan McNight, Garrafa e Marcinha se beijaram. Não foi preciso falar nada nem mandar flores nem convidar para jantar. E também não foi a música que criou a vontade repentina. Eles desde o começo sabiam que aquilo ia acontecer. Nada acontece mais naturalmente do que beijos entre pré-adolescentes.

Um mito besta a menos

Outro dia, estava eu assistindo um jogo qualquer da Libertadores. Digo jogo qualquer, porque não era um jogo do Mengão, logo é um jogo qualquer. Foi uma partida um tanto cansativa sem muita emoção e poucos lances de perigo. E viciado no esporte bretão que sou, fiquei a reparar nos detalhes do jogo, ou melhor, da transmissão. O narrador era o genial, incomparável, sabe tudo e professor de deus: Galvão Bueno. O que é quase certeza de pérolas durante a transmissão.

O jogo começa e a torcida do time da casa não para de cantar. Nosso ícone do microfone manda das suas. “Canta que canta a torcida Nacional” e continua “olha Falcão, não parece a torcida do Boca? É a torcida do Boca que canta assim” essas frases me fizeram pensar numa coisa, talvez nem seja importante. Mas será que as torcidas do River Plate, Estudiantes e de outros times argentinos não cantem igualmente a torcida do Boca.

Mas não para por ai, as torcidas dos clubes sul-americanos tem essa maneira de torcer, principalmente na Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile. Eles cantam músicas intermináveis num mesmo ritmo, isso enche o saco. Mas sabe como é, cada um na sua. Aqui a torcida gremista (os gaúchos, não do Grêmio Barueri ou do extinto Grêmio Maringá) talvez por proximidade e admiração aos argentinos se comportam e cantam como “a torcida do Boca” o que é chato barbaridade tchê! Brasileiros são criativos, não deveriam imitar ninguém, muito menos esses chatos de galochas.

Voltando ao mestre Galvão, principalmente da maneira que ele disse “eles não param de cantar, é impressionante. Parece a torcida do Boca”, calma lá, segura sua onda garotão. Só porque é jogo da Libertadores vossa senhoria vem com esse papinho de Boca isso, Boca aquilo. A torcida do São Paulo, que não é das mais sinistras, passa o jogo todo cantando, do jeito deles, mas cantando. E vai dizer para eles que eles estão imitando a torcida do Boca. O que todos devem perceber é que todas as torcidas cantam, isso mesmo. Todas as torcidas cantam, até a do Coxa canta (teste para detectar leitores) o jogo todo.

E cantar aquelas músicas chatas dos argentinos é mole, e são as mesmas desde de tempos atrás. O que é legal mesmo é a criatividade das nossas torcidas. Aqui nessa Brasila, a todo momento surge uma música nova, um novo hit de sucesso. Já teve até versão de uma do Padre Marcelo que virou moda de várias torcidas ( O senhor é rubro-negro, rubro-negro eu também sou..) e o senhor não foi só rubro-negro, ele também foi alvi-verde, colorado, tricolor e sei lá mais o quê. A torcida do Mengão cantando poeira, é empolgante Até a vil torcida do vice (que não chora) cantando a versão de Ana júlia, é ruinzinha, mas é animada. Os corintianos cantando uma versão de farofa, cheia de trocadilhos. Isso só tem aqui, é uma explosão de sucessos.

Enfim a torcida do Boca e as genéricas deles, são chatas pra caramba. Eles cantam aquelas músicas sem fim e acham legal, imaginem algum estádio do Brasil inteiro cantando “O Diário de um Detento” ou “Faroeste Caboclo” seria sofrível, não pelas músicas, afinal tem quem goste. Mas elas não terminam nunca. É muito mais legal a galera cantando o Créééééééééuuu (nas cinco velocidades), E ninguém cala, Poeira e demais cantos tupiniquins, que são mais criativos e empolgantes. Só me falta o mestre dizer que só a torcida do Curintia (é timão mano) é a única que é fiel.

Fim

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Inspiração, amor, polêmica, sucesso...

Quando a inspiração parecer que nunca mais virá, escreva sobre amor.

Existem assuntos que são infalíveis. Numa das primeiras aulas de jornalismo, aprende-se que qualquer acontecimento que apresente morte, novidade ou escândalo – entre outros que não lembro ou não são importantes – chamam a atenção e viram notícia. No caso das crônicas, é o amor que nunca nos deixa na mão.

Vale ser piegas e dizer que o amor é uma flor de cor vibrante e cheiro intenso, que brota em meio a um mar de espinhos, curando todas as feridas e devolvendo a saúde de um coração sofrido; ou ser sonhador e dizer que na vida existe apenas um amor, esperando sabe-se lá onde, com tudo o que é importante saber e sentir guardado carinhosamente num cesto de vime, simplesmente esperando o sublime encontro com a alma gêmea; ou então ser que nem eu e dizer que o amor, oras bolas, não existe.

Pã, pã, pã, pã. (Criou-se o momento do clímax)

O amor não existe, o amor não existe, o amor não existe. Sim, estou debochando da sua cara, como uma criança que provoca o rival da rua de baixo. O amor não existe, o amor não existe. Mas, calma! Como diria Murphy numa de suas tantas leis, "nem tudo está tão ruim que não possa piorar": assim como não existe amor, não existe Deus.

(Tomara que agora, com a polêmica criada, este blog finalmente alcance o sucesso merecido e esperado)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Justificativa

O personagem que vivo no dia-a-dia está de roupagem nova. É um personagem representando outro personagem. Que loucura.

Juro que não tenho controle sobre isso.

Sem nexo 6

É muito fácil enlouquecer. Bastam dois minutos de prosa com alguém que já foi acometido pela loucura da vida para que as idéias da mente comecem a se confrontar. Ou então dar uma lida em um ou outro livro que exponha a insignificância do ser humano perante a infinidade do universo. Ou até, quem sabe, algumas horas de reflexão acerca do inexorável sentido da vida. Ler o jornal do dia também ajuda a chegar lá.

Loucos, na verdade, acho que somos todos nós, que nos consideramos normais. Nós, que vivemos segundo as regras do jogo. Geroge Orwell já dizia que "liberdade é escravidão", e pensar nisso causa angústia aos mais realistas. Entender que o mundo e suas leis de convivência estão errados e danando a própria existência humana causa frustração aos mais desavisados.

O que ninguém parece compreender é que o indivíduo é muito pouco no contexto do todo. O que é, por favor!, viver a vida? Os acomodados dirão que basta fazer tudo o que der na telha, da maneira que desejar, buscando sempre a felicidade. Mas, ó raios, tudo é muito relativo! Em tudo na vida, como na física, o que importa é o referencial. A minha felicidade não deve ser a mesma que a sua.

Eu faço muitas coisas que me dão prazer. Muitas. E, admito, consigo sucesso na grande maioria delas. Posso dizer que sou um cara feliz, na medida do possível. Porém – ah, o porém – eu quero mais. Sempre quero mais. E sabe porque não consigo fazer dez vezes mais coisas legais do que já faço? Sim, os seres humanos. Já disse e repito: os seres humanos são a escória da humanidade.

Vocês estragam tudo. Ou melhor, nós estragamos tudo. O seres humanos conseguem destruir toda e qualquer coisa em que botam as mãos. Vocês... nós pegamos a inocente folha de coca, trabalhamo-la e criamos a cocaína. E depois proibimos. O mesmo com a papoula. O mesmo com os carros esportivos que mostram no odometro a velocidade máxima de 320 km/h. Aos humanos, um aviso: muito ajuda quem não atrapalha.

Ok, admito. Estou ficando louco. Acho que é muita leitura. Ou muito café. Os livros nos fazem pensar, o café catalisa idéias mirabolantes. As idéias mirabolantes – God damn'it – causam suicídio.

Pensar enlouquece. Pense nisso.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Mexe com está quieto

Logo cedo quando ia ao trabalho, Silvio viu um tumulto do lado de fora do coletivo, eram dois motoqueiros que se espancavam. Todos dentro do coletivo assistiam como se aquilo fosse um espetáculo. Até o cobrador se esticava todo para ver a cena de brutalidade. O sinal abre para o ônibus, mas o motorista estava vidrado na cena. Silvio era o único que olhava na direção contrária da briga, olhava para o rosto das pessoas e só via uma sede torpe por brutalidade.

Nisso o sinal fecha e ninguém percebeu, ainda estavam hipnotizados pelos gritos e socos desferidos pelos dois valentões de capacete. Silvio ignora a briga, aumenta o volume da música que estava ouvindo e continua lendo uma revista. Algum tempo depois, talvez pelo horário, o motorista resolve seguir seu caminho. O semblante das pessoas mostrava que o comentário era sobre a briga, Silvio nem deu pelota para o assunto.

Um sujeito que estava sentado ao lado dele, disse algo. Silvio tirou o fone do ouvido e perguntou o que o sujeito queria. O figura queria muito comentar que um dos motoqueiros deveria ser lutador de jiu-jitsu. Silvio respondeu que não prestou atenção na briga, tentando não dar margem para uma conversa sobre técnicas de luta, mas o sujeito insistiu. E foi além, pediu para baixar o volume da música para ouvi-lo melhor. Pronto era só o que faltava, um figura que ele nunca falou na vida (apesar de que já se conhecerem de vista no coletivo) pedindo para ele deixar de ouvir música para discutir briga de trânsito.

De todos os passageiros do coletivo, o colega do banco do lado era o mais empolgado com a ‘batalha dos motocas’, como ele mesmo chamou a briga. A única coisa engraçada nisso foi que ele dizia coisas do tipo: - se fosse comigo, na hora que o cara fez isso. Eu fazia aquilo e dava um arm-lock (falou o Mr. Graice). Ele seguia com suas teorias e destilava todo seu conhecimento de jiu-jitsu, karatê, capoeira e judô. Quando o sujeito falou em judô, Silvio não se agüenta e começa a rir. Isso deixou sujeito um pouco irritado.

Com cara de poucos amigos, perguntou o que Silvio achava de tão engraçado no judô. Que ainda rindo disse que achava estranho alguém que tinha se amarrado tanto com a violência dos motoqueiros, e que se estivesse no lugar de um dos brigões daria um “arm-lock”, enfim uma cara que acha graça em uma briga, e quanto mais violenta melhor, viesse me falar de judô. Afinal judô só conhecia dois tipos de pessoas que praticam*: crianças nas escolas e atletas olímpicos (tipo a Edinanci). Sem falar que judô é algo que prega disciplina e respeito.

O camarada ficou puto, achou que Silvio estava debochando dele. E debochava mesmo, então Silvio disse a ele: Já lhe ocorreu que em momento algum eu quis falar sobre aquela briga estúpida?

Fim


*Tudo bem podem existir adultos que pratiquem judô, mas eu não conheço nenhum.

Chefia

Em um dos mais de 200 livros que escreveu Plutarco há uma fábula que ainda gera muita intriga. Confesso que nunca a li, mas conheço a história. Trata-se de um soldado que salvou a vida de um rei. Um sábio o aconselhou que fugisse (o soldado), mas ele preferiu ficar para receber a gratidão do monarca. Acabou assassinado pelo rei.

Dizem que a anedota trata da ingratidão humana para com os atos dos seus semelhantes. Não concordo. É claro, há ingratidão. Mas imagina a vergonha para um rei ter de admitir que a sua vida é devida a um ato de coragem de um soldado qualquer. Ele foi morto por isso – a vergonha –, e não porque o rei não reconheceu ou não teve gratidão por sua bravura.

Cuidado na hora de ajudara alguém supostamente superior. Não o faça esperando algo em troca. Quem viu O Diabo Veste Prada –filme besta, mas tem essa mensagem que vale a pena – sabe como são as relações de admiração entre chefe e subordinado. No filme, a mocinha, depois de se demitir, vai a uma redação (ela é jornalista) procurar emprego, e o diretor que a recebe diz "sua ex-chefe me ligou e disse que você foi a pior assistente que ela já teve e que, por isso, seria um erro se eu não a contratasse".

A admiração dos chefes é sempre contida. Eles nunca admitirão que você é bom, apesar de sempre dizerem, retoricamente, "você é o nosso melhor profissional". Isso é apenas conversa fiada, daquelas aprendidas em palestras de motivação de empregados. O importante é que você nunca os deixe saber que almeja suas posições. Os chefões não admitem concorrência.

O problema está nas relações de poder. Não podem haver dois reis num mesmo reino. As pessoas não conseguem louvar mais de um deus. Basta ver que no mundo animal a liderança dos grupos é disputada literalmente a tapa (ou a chifrada, ou a patada, ou a bicada, enfim). Nada muito diferente do que acontece com os seres humanos. Somos todos uns animais. Ou melhor: piores que os animais.

Eles pelo menos não andam de carro.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Caixa, papel e fita

Escolher um presente de aniversário é uma complicada arte milenar. Para mim, então, com tantas confusões mentais e algumas convicções a serem urgentemente revisadas, é mais difícil ainda. A ingerência dos meus ideais por parte do meu já tão comentado e famigerado hipotálamo não permite escolhas sem que sejam feitas algumas daquelas presumíveis conjecturas. Traduzindo porcamente, não consigo pensar num presente a ser dado sem imaginar o futuro dele nas mãos do aniversariante.

Quem dá presente – sincero, não por atacado – não o faz sem muita reflexão. É preciso pensar em tudo: nos gostos e vontades do aniversariante, no sentido que a lembrança terá, na utilidade do objeto, na significância do ato... Às vezes, dependendo da circunstância, um cartão musical do Smilingüido tem muito mais valor do que uma Barbie Alpinista (favor desconsiderar se o aniversariante é criança – NUNCA dê roupas, colares ou abajures de presente para uma criança).

Lembro-me de um bonequinho que ganhei de uma amiga, num aniversário qualquer. Não tinha muita utilidade a não ser ocupar uma lacuna entre duas miniaturas de Ferraris na estante, mas era de um grande significado. Não vou explicá-lo agora porque envolve muitas questões filosóficas, sentimentais e mercantilistas. O fato é que sempre que eu olhava para o boneco, lembrava dela. Se alguma visita perguntava "que raios boneco feio é esse?", minha resposta invariavelmente era "foi fulana que me deu". Sem ressentimentos.

É bom lembrar que não importa se o boneco era feio ou não, útil ou não, caro ou não. Ele era simplesmente um símbolo, uma marca constante e insistente da nossa amizade que se fazia presente todas as manhãs. Poderia ser um quadro, uma carta ou uma folha de parreira, não importa. Ele era algo bem mais complexo e intenso do que uma simples peça de decoração.

Hoje em dia nem sei mais por onde o bicho anda. Assim como a amiga, deve ter ficado para trás numa das tantas mudanças que fiz nos últimos anos. Algumas amizades são efêmeras, todos os objetos são finitos. Somente símbolos duram para sempre. A minha maior dificuldade em presentar é justamente achar algo que represente bem o sentimento que me une ao presenteado.

Mas também não vou apelar e comprar um boneco qualquer numa espelunca qualquer para dar para alguém. Acho que nenhuma pessoa teria um gosto tão exótico (leia-se coragem) quanto o meu para colocar um boneco riTículo daqueles na estante.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Fama ou anonimato

Preciso parar de escrever tanto, todos os dias. Dizem que a mente é infinita, mas sinto que ela não pode se expandir mais do que a caixa craniana. O que eu vou escrever quando for contratado por uma revista de circulação nacional? Do jeito que andam as coisas, quando eu for para a The New Yorker só o que terei para fazer é traduzir meus próprios textos para a língua do Tio Sam.

Já vi muitos filmes em que a moral da história é "não deixe o sucesso subir à sua cabeça". Normalmente eles mostram a história de atletas ou artistas que perderam tudo o que conquistaram por mudarem a personalidade depois de virarem conhecidos. Ora, quem mudaria seu jeito de ser só por uns milhõezinhos a mais na conta bancária?

Quando acontecer comig... não, não posso garantir como vou agir. Sou muito suscetível a palavra "fama". Acho que só namorarei modelos-e-atriz, baterei em paparazzis e desconhecerei minhas origens. Meus atuais amigos, esqueçam: vocês não serão convidados aos bailes promovidos em minha homenagem no Copacabana Palace. Aproveitem para sair em fotos comigo agora, pois no futuro ignorarei os anônimos.

O conceito de sucesso é muito estranho. Ser conhecido não lhe garante a fama. Ou garante, mas de forma muito efêmera. Somente os transgressores são eternamente lembrados. Ou alguém aqui recorda de Paulo Sérgio, cantor da música "Última Canção"? Ele vendeu 60 mil discos numa época em que vender 30 ou 40 já era MUITA coisa. O ano dele foi 1968, no auge da Jovem Guarda, e alguns dirão "mas faz muito tempo!" Eu retruco: quem aqui NÃO conhece Roberto Carlos?

Aí que tá a diferença. Roberto Carlos INVENTOU a Jovem Guarda. Ok, inventar é um exagero, mas ele é um verdadeiro símbolo da Jovem Guarda. E por méritos, afinal era o líder do movimento que tomou conta do Brasil na década de 60. E um músico muito bom, diga-se de passagem. Como ele, posso citar Charles Darwin, Margareth Thatcher e Andy Warhol. Cada um revolucionou alguma coisa na sua área.

Kelly Key, P. O. Box e Tchakabum, cantores ou bandas de MUITO sucesso em seu tempo, mas quem fala deles agora? Eles não mudaram nada e nem foram geniais. Em 10 ou 15 anos nem terão mais seu verbete na Wikipedia. Nem como "famosa banda do começo dos anos 2000". Assim como Fábio Júnior, aquele "brilhante" jogador do Cruzeiro, também do começo dos anos 2000. Mas se for falar de jogadores de futebol, o assunto não terminará nunca.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O vírus do BBB

Em tempos de BBB, até o Gente & TV do Terra fica contaminado pelas ações do brotheres. Minhas tão engraçadas notícias (?) do tipo "Giovanna Antonelli almoça com amigos" são sistematicamente relegadas para segundo plano pela turma do Pedro Bial. Big Brother é uma praga instantânea e reincidente que infesta todos os cantos da internet brasileira. Em qualquer portal que você entre, os destaques são o paredão e a prova do líder. Isso é um absurdo.

Tudo bem que não se pode levar o Terra a sério, mas o BBB é tão imune a vacinas que até o site do Estadão, outrora tão respeitável, deixou-se empertigar com o vírus. O da Gazeta do Povo também. É um neurocídio! Estão paulatinamente aniquilando córtex cerebral dos brasileiros; até mesmo daqueles que procuram, em vão, notícias de verdade na internet.

Admito que nunca acompanhei um BBB. Nem o primeiro, que chegava com aquele status de novidade. Na época eu tinha lá meus 13 anos, e com certeza preferia ler uma bula de paracetamol a ficar na frente da TV observando 12 ratinhos de laboratório se degladiando na "casa mais famosa do Brasil". Alguns dirão que eu não posso falar mal de uma coisa que nem conheço, mas qual é o lado bom do BBB?

Para nós, homens, existem as mulheres. Sem nunca ter visto um "episódio" daquele Big Brother (que, lógico, não sei qual é), fiquei completamente apaixonado pela pescadora Mariana Felício. Ela era linda, simples e, principalmente, inteligente. Mas o BBB é tão ruim que quem é que fez sucesso pós-casa? As burras da Sabrina Sato – que pelo menos é engraçada – e Irislene Stefanelli.

Acho que o único Big Brother Brasil que gerou uma discussão séria foi aquele do tal Jean Willis. Até eu quis ver o momento que ele anunciou que era homossexual (que, convenhamos, nem precisava). Mas também durou pouco: era uma bicha tão chata que hoje deve estar cuidando de algum salão de beleza por esse Brasil. Ou sendo "editor-chefe" de algum programa vespertino de fofoca, afinal ele é jor-na-lis-ta.

O BBB até quando acerta, erra.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A auto-sustentável leveza do ser

Há um grande mérito em se tornar escritor. Apesar de ganhar pouco e esporadicamente, sempre de acordo com a vontade das editoras e da imprensa (que vende sua obra como lixo, cult ou politizada – e, pode crer, a que é considerada "lixo" tem muito mais divulgação), ser escritor tem, como tudo na vida, um lado bom. Algo que os mais metidos chamariam de qualquer coisa parecida com "auto-sustentabilidade de si próprio".

Parece complicado, mas é tudo uma ambigüidade desmedida. E uma grande mentira também.

Sabe-se bem que o ser humano (essa escória da humanidade) têm certas necessidades; podem ser físicas, emocionais, mentais, biológicas e um outro tanto infinito de tipos. Porém sempre há aquele modelo de necessidade que não pode bem ser considerada necessidade, pois, oras, dá perfeitamente para viver sem. As "necessidades" psicológicas.

No caso das crianças, essa "necessidade" psicológica é aquele sorvete sujo e aguado da praça Rui Barbosa, que faz o bicho se retorcer todo e chorar no meio do calçadão, normalmente gritando "eu vou morrer, eu vou morrer!" Todos sabemos que na verdade ela só vai morrer SE comer o sorvete, e não o contrário. É a tal da "necessidade" psicológica.

Com o tempo, essa "necessidade" vai se aprimorando. Uma adolescente, por exemplo, não pode "nem mor-ta" ir para a escola sem um iPod Touch. Assim como houve um tempo em que todo rapaz de 15 anos PRECISAVA ter um skate; se não o tivesse era melhor que nem saísse para brincar na rua. Quando se vira adulto (ou tem lá seus 20 anos e todo o mundo te considera adulto, menos você), as "necessidades" psicológicas começam a se fundir com as outras – essas sim essenciais – e a mente vira uma demência completa e sem tamanho.

A monogamia, por exemplo. Cansei de explicar para as mulheres que isso é apenas uma imposição da Igreja da era medieval para controlar melhor as divisões de seus reinos. Ou seja, é uma regra criada pelos humanos (a tal da escória da humanidade), e não algo natural. Vejam os macaco, que fofinhos. Eles se acasalam com quem desejar, na hora que quiser e quantas vezes precisar. Não estou pregando o sexo em público, mas apenas uma MP que permita a poligamia.

(Estou perdendo o foco, eu sei. Voltemos à auto-sustentabilidade do ser)

Enfim, se a poligamia é proibida pela constituição (e por isso vou, assim que me formar, mudar-me para o Sudão ou algum outro país muçulmano), devemos nos contentar com apenas uma senhora para "fazer" a vida inteira. E, bem, devo que admitir que, devido a formação cristã que tive, esse conceito de que só-se-é-feliz-ao-achar-o-amor-verdadeiro está impregnado no meu conceito cultura civilizada. Por causa lavagem cerebral, é verdade, mas isso me é uma "necessidade' psicológica.

(Aqui entraria toda aquela discussão de que blá-blá-blá... Sou perito em divagações infundadas, mas não me deixarei levar pelo impulso)

Foi para livrar minha mente desse fardo que me impuseram quando criança que entrei para o time dos que "auto-sustentam a si próprio". Minhas "necessidades" psicológicas são todas satisfeitas num fechar de olhos. Com a imaginação solta, tomo aquele sorvete da praça Rui Babosa, tenho um iPod Touch e um skate com rodinhas de titânio e shape da Drop Dead. E minha mente é tão insana que sinto até a dor de barriga provocada pelas três bolas de sorvete Pasqualino, compradas na porta da La Casa di Frango.

E me caso também. Várias vezes, todas as noites, com pelo menos umas três mulheres diferentes. E não!, não é nada disso que vocês estão pensando. São todas imaginações limpas e românticas, onde conheço os pais da noiva, caso de smoking na Igreja da Candelária e passo a lua-de-mel [nu] em Ibiza (aí sim os pensamentos são sujos). Imagino as brigas também. É um casamento completo. E isso me satisfaz.

Repito: isso me satisfaz.

Não vou me casar antes de 2014, pode apostar. E estou contando, aí, a margem de erro – para menos, bem menos. Minha idéia é ir ao matrimônio beirando os quarenta, depois de ter conhecido metade do mundo e ser copiosamente julgado por ter ficado para titio (o que é praticamente impossível, porque sou primogênito AND precoce). Dane-se o que você está pensando. As necessidades psicológicas são minhas e eu as satisfaço do jeito que bem entender.

Eu não bebo, não fumo, não jogo e não quero encontrar a princesa encantada tão cedo. E às vezes minto um pouquinho.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A vida é doce

Juro que estava apenas sentado no banco, como sempre fico, só observando o movimento. Gosto desses momentos de solidão porque nos dão no que pensar. Fico vendo as pessoas, as reações, os comportamentos. Várias questões existenciais pululam no e do meu cérebro. Quem quiser experimentar, comece pelas crianças e pelos velhos que, diferentemente do resto, não querem e não precisam (e quem precisa?) ter vergonha de terceiros. Fazem tudo do jeito que querem e na hora que bem entendem. É muito divertido.

Mas voltando ao meu juramento, digo apenas que era um dia normal como qualquer outro. Passava das seis e o sol já estava partindo, deixando uma leve brisa capaz de provocar calafrios aos desavisados de camiseta curta. Na praça onde eu estava sentado, nunca acontece nada. A graça está em observar o outro lado da rua, onde há um ponto de ônibus por onde circulam dezenas de pessoas por minuto. Eu olhava uma senhora com dificuldades de atravessar a rua quando senti uma mão pousando nas minhas costas.

Numa praça vazia e desconhecida como aquela, uma mão pousando nas costas só pode ser uma coisa: assalto. Na cidade em que vivo, aliás, quando qualquer pessoa vêm espontaneamente conversar com você é porque ela que sua carteira e celular – se vacilar, o óculos também. Na hora senti meu sangue gelar, e minha artéria aorta ardeu por causa da contração precipitada. Não sei se foi por causa do susto, mas quando me virei, tremendo, para ver quem era, minha vista estava tão turva que só consegui distinguir um vulto, que disse:

- Com licença. Posso me sentar com você?

Entre o sorriso de esperança que ela deu e minha resposta, com certeza se passaram mais de 10 segundos. Até que eu recuperasse a voz, a visão e a respiração, ela ficou parada, olhando no fundo dos meus olhos, o que contribuía ainda mais para o congelamento. Eram olhos sinceros, daqueles de pessoas que nunca falariam um palavrão ou mal de alguém. E o sorriso... Ah, o sorriso parecia me convidar para subir ao céu e conhecer os outros anjos como ela. Respondi-lhe "claro", e a partir daquele minuto minha vida nunca mais foi a mesma.

Ela segurava um livro (A Peste, de Albert Camus) que eu havia acabado de ler há poucas semanas. Seria um ótimo pretexto para ter sobre o que conversar. Quando terminei de calcular mentalmente o provável momento da história pela posição do seu marcador, ela perguntou meu nome. Eu sou curitibano, poxa vida. Por mais que seja falastrão, extrovertido e sem-vergonha, não estou acostumado com manifestações espontâneas para com minha pessoa. Pela primeira vez na vida tive que pensar antes de responder qual era meu nome:

- Uéslei – disse. E o seu?

Até hoje não consigo entender como fui capaz de responder aquilo sem engasgar. Meu coração batia tão forte que dava para sentir a garganta pulsando como britadeira. Meu olhos pareciam que a qualquer momento cairiam para fora do globo ocular, tamanha a força do sangue que se fazia chegar ao meu cérebro. Mas eu consegui. Perguntei e ela respondeu, doce e amável como sempre deve ser:

- Maria Eduarda.

Talvez jamais houve poeta ou romancista no mundo que não tenha escrito algo para pelo menos uma Maria Eduarda. É um nome essencialmente poético. É o nome da mocinha mais mocinha das histórias, aquela que ama o príncipe perdidamente mas não faz nenhuma loucura para tê-lo porque não quer magoar os pais. Marias Eduardas sabem esperar, não importa quanto, porque têm sempre a certeza de que o bem vencerá o mau. Para elas, no final tudo dá sempre certo. Marias Eduardas usam vestido branco com bolinhas vermelhas e correm descalças pelo bosque, sem medo do Lobo Mau.

Enquanto minha mente fazia essas divagações literato-psicológicas, ela me olhava com atenção. Com certeza meus olhos estavam brancos e infinitos, pois na hora já não conseguia enxergar nada. "O que você está fazendo aqui sozinho?" Fiquei sem reação. Se falasse a verdade – que adoro ficar sozinho –, ela poderia se levantar e sair para algum outro lugar, distante e frio, tão desprotegida, coitada.  O que eu menos queria naquele momento era me livrar daquele corpo celeste que, certamente por obra divina, havia delicadamente pousado ao meu lado.

- Eu adoro ficar sozinho – falei. Só pouco tempo depois me toquei que era a perigosa verdade, mas fazer o quê? Os impulsos nervosos foram até a medula e voltaram, sem nem dar tempo de eles darem uma passadinha pelo cérebro para uma rápida reavaliação. Puro reflexo.

Silêncio. Conjurei na mente a cena dela se levantando e indo embora, de costas, sem nunca mais olhar para trás. Deu-me um estranho abatimento porque era tudo muito verossímil. Olhei para baixo, esperando o pior, e ela, como se nada tivesse acontecido, perguntou-me se gostava de ler. Ah, aquilo foi demais para mim. O sangue começou a circular com mais força e eu senti as orelhas arderem. Minha nuca já suava de nevosismo e a camiseta subia e descia, numa respiração pausada e forte. Não sabia mais no que pensar.

Levantei-me e fui embora, de costas, sem nunca mais olhar para trás. Juro que nunca pensei em dizer, àquela hora, que queria ficar sozinho; mas já que disse, precisava ser respeitado. Ela falou demais. Maria Eduarda, tão linda e tão angelical, mas muito mal-educada: nunca daríamos certo juntos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Humanos uni-vos

Todo mundo está careca de saber (alguns literalmente) que o aquecimento global está causando mudanças em todo o clima do planeta. Os animais estão ficando sem seu habitat natural, e isso pode trazer conseqüências desastrosas para todo o ecossistema. Por exemplo as onças, pois vejam vocês. Com as queimadas menos mata, com menos mata menos espaço para as onças viverem e caçarem. O que elas fazem , vão para as fazendas, lá comem uma vaca, um cabrito, ou até uma criança que não saiba correr.

O aquecimento global vem derretendo o habitat natural dos ursos polares, e aproximadamente 25% da população de ursos polares já desapareceram do Ártico. Falo do urso polar porque no Ártico é onde os efeitos do aquecimento global são sentidos com mais intensidade. Por enquanto, quem vai saber como será o amanhã.

Talvez alguém pense, que sou só mais um mané que assistiu o filme do Al Gore e resolveu salvar o mundo. Mas não é isso, não que eu faça questão de destruir o planeta. Pois até que procuro jogar lixo no lugar, gastar pouca luz, água também procuro economizar. Mas o que me aflige é que as conseqüências do aquecimento global estão chegando nos seres humanos. E pior, eu sou testemunha desses distúrbios causados pelo aquecimento global.

Explico; como é de conhecimento geral essas mudanças climáticas alteram os hábitos dos animais. É morcego que doa sangue, coruja dormindo a noite, rato comendo gato, vaca louca, leão de juba lisa e outras coisas caóticas. Mas nos humanos já podemos notar algumas mudanças. Tem um cara que não sou eu, um sujeito normal, que não sou eu, tem o hábito de visitar o troninho todos os dias no mesmo horário. Onze e meia da manhã podem fazer o teste e ligar para ele, que o sujeito estará no banheiro. Porém nessa última semana seu relógio biológico está sem a precisão de outrora. Sim os efeitos do aquecimento global já alteram o comportamento dos humanos.

Por favor faça a sua parte e protejam a camada de ozônio. Reutilize materiais recicláveis, não faça queimadas, não compre cds piratas. Sei lá faça qualquer coisa que ajude a acabar com essa porcaria de aquecimento global.

Fim!

Da crônica esportiva

O cronômetro já marca 30 minutos e parece que a goleada está garantida. A bola rola de pé em pé, do lateral ao atacante, do goleiro ao meia armador, sem firulas ou perdas de tempo. Não há objetividade, a não ser que o objetivo seja cansar os espectadores. O último perigo de gol foi ainda nos acréscimos do primeiro tempo, quando o lateral do time verde cruzou e o efeito na bola quase enganou o goleiro adversário. Só que o placar ainda marca 0 a 0.

Na arquibancada, os gritos de apoio praticamente cessaram. Só alguns torcedores dos mais românticos ou novatos continuam entoando coros de "olê-olê" ao time vermelho. Um velho mais ranzinza, daqueles que acompanharam a época de ouro do escrete rubro-rubro, começa a dividir seu pacote de amendoins com as laterais do campo, xingando Deus e todo mundo. O jogo é em casa, a arquibancada está lotada, mas o silêncio que impera dá a sensação de aquilo é xadrez, e não futebol.

À beira do gramado tem alguém que pensa assim. Está lá, impassível, duro como um rochedo, talvez supondo o que terá para jantar ou em como conseguirá mais daqueles remédios para dormir. Não que esteja totalmente alheio ao jogo; o treinador já tem tudo programado, só precisa esperar o tempo certo.  Formulou uma tática para sair de campo vitorioso e sendo chamado de gênio pelos cronistas do esporte. Iria ganhar a partida, e disso tinha total certeza.

Na preleção, chamou os titulares e falou: "Vamos dar um nó na cabeça deles hoje. Na deles e na de quem estiver vendo o jogo. Vamos entrar com vocês três na zaga, vocês dois protegendo as laterais e mais vocês três como leões-de-chácara. O Luizinho faz a ligação e você, Adalberto, fica sozinho lá no ataque. Isso mesmo: jogaremos no 8-1-1.

"O primeiro tempo será uma festa para eles. Deixaremos que toquem a bola no nosso campo o quanto quiserem. Temos que dar a impressão de que o jogo é todo do time verde. Quando algum deles for arrematar para o gol, alguém daqui corta. Mas não vamos ter posse de bola, não. Que um monte de chutões. O jogo é deles, nunca se esqueçam.

"Quando começar o segundo tempo, vamos ficar mais com a bola. Não vai entrar nem sair ninguém, só mudaremos a mentalidade; os comentaristas vão adorar. Sem a bola, suportaremos a pressão. Com a bola, tocaremo-la de um lado para o outro como que tentando furar o bloqueio adversário. Perto dos 40 minutos, saco vocês três (e apontou para um zagueiro e dois volantes) para por aqueles três magrelos do juvenil. Vocês três, portanto tratem de correr bastante e cansar os adversários.

"E vocês, rapaziada, vão entrar lá e fazer a festa. Estará todo mundo cansado de toda ladainha que foi o jogo – inclusive os torcedores – e então a partida será de vocês. Pode driblar, correr, fazer firula; só não esqueçam de marcar. Se fizerem mais de um gol, melhor. Mas não esqueçam que, depois de hoje, vocês três serão os heróis do time. Futuras promessas da seleção.

"E eu serei o maior gênio tático do futebol brasileiro".

Aos 40, tudo como tinha de ser. Chamou os três mais jovens do elenco e sacou os três cansados. Na televisão, um comentarista disse "foi apenas uma substituição física. Os três estão cansados e o treinador preferiu tirá-los. Vamos ver o que esses novatos são capazes de fazer, mas não sei não..."

Nesse momento, uma lufada de sabedoria pareceu cair sobre alguns jogadores do elenco vermelho. "Nós vamos nos matar só para que o 'professor' seja chamado de gênio?", pensavam alguns deles. Outros se olhavam, como que adivinhando o que o companheiro pensava. Todos esperavam apenas um aceno de cabeça para entender finalmente o que fazer. Ninguém se mexia. À beira do campo, acontecia a substituição. A torcida apenas assistia, nem vaiava nem ovacionava. Ninguém na verdade conhecia os três rapazes que entraram para salvar o jogo.

Sobre os que estavam em campo, então, caiu outra luz. Pensaram – como se isso fosse possível – em uníssono: "Aqui tem 80 mil pessoas torcendo para que a gente vença esse jogo. O treinador terá lá seus méritos, mas quem correrá, se esforçará, somos nós. E nós é que seremos lembrados como o time dos sonhos; eu é que serei o melhor lateral (ou volante, ou atacante, ou goleiro, dependendo de quem pensava). É hora de dar tudo de mim e levar esses três pontos".

E o time começou um verdadeiro carrossel. A torcida se animava, a bola parecia brilhar. Os três que entraram botaram sufoco na zaga adversária. Em menos de dois minutos, mais de oito chutes a gol. Duas bolas na trave. Pareciam, finalmente, alegres em jogar futebol. Aos 45, a redenção: cruzamento pela direita, matada no peito e gol de bicicleta. O jovem que acabara de entrar salvou o time e o dia. A arquibancada fervia num delírio jamais imaginável depois de um dia daquele. Todo mundo se abraçava, havia pipoca e cerveja voando por todos os lados. Parecia uma final de campeonato.

No túnel, de volta aos vestiários, alguns jogadores davam entrevistas: "Foi mérito do professor. Ele soube ler o jogo e colocar as peças certas no momento certo. O time está unido num objetivo comum e maior do que todos nós". "Aqui a gente forma uma família, e o professor é nosso pai. Ele me deu a chance e eu aproveitei. Dedico o gol a essa torcida maravilhosa que nunca deixou de nos apoiar". "Fiz o meu trabalho o jogo inteiro. Não foi fácil segurar o ímpeto do time verde no primeiro tempo, mas sabia que seríamos recompensados. Tudo isso é graças as professor; ele é o maior gênio que já tivemos no futebol".

Já em casa, jantando ostras ao lado da mulher e dos filhos, o treinador não tirava o sorriso do canto da boca. "É fácil enganar esse povão. No futebol basta ganhar; um a zero ou três a zero, não importa. Por mais feio que seja o jogo, o que importa é o placar. O que vale mesmo é mostrar pro vizinho que 'meu time é melhor que o seu'. É muito fácil ser gênio nesse país".

Sem muito esforço mental – e, claro, com toda a licença poética que me é permitido conceder – , é possível trocar o treinador pelo governo atual de situação, os jogadores pelos subordinados da situação (ou os que querem aparecer por causa dela) e os torcedores por nós, os bobos que só queremos que o time ganhe.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Abrindo o parênteses

Estava a digitar um colossal texto sobre o sono e sua particularidades, comparando-o ao mesmo tempo com o Holocausto e com uma partida futebol, quando resolvi abrir um parênteses. Era só para explicar algo banal, mas aquilo foi tomando conta de toda a idéia de tal forma que quando resolvi abrir os olhos (sim, eu escrevo de olhos fechados) já tinha feito quatro parágrafos de explicações contra dois de "idéias". Dentro dos parênteses inclusive já haviam dois colchetes e três chaves explicando a explicação, o que me levou a conclusão de que tudo estava uma grande porcaria.

É impressionante como são tênues os limites ou regras das funções gramaticais da língua portuguesa. Para quem como eu sai por aí apregoando a estética da escrita como fundamental, é um suplício criar qualquer coisa num dia de pouca inspiração. A todo instante o cérebro implora para que se coloque um hífen ou um parênteses, seja para uma explicação sábia e necessária (ou nem sempre), seja para uma simples piadinha de péssimo gosto – normalmente um trocadalho do carilho.

Acho que a melhor explicação para essa maldita tentação é a sensação de invulnerabilidade que os parênteses causam no autor. O que está escrito lá dentro não soa como uma idéia própria, não é simplesmente uma frase autoral. É algo que poderia ter sido dito por qualquer um, como se fosse um adendo qualquer. Como um estudante que grita do fundo do salão no meio de uma palestra; todo mundo ri ou acha interessante, mas só quem estava bem próximo da cadeira dele sabe quem foi que falou.

Escrever entre parênteses ou hífens é como se chamar Frankenstein e receber os óculos escuros do "paizão" Adam Sandler.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

CRÉU

Carnaval é uma seqüência desvairada de antagonismos. Em que outra época do ano faríamos o que fazemos nesses cinco (e poucos) dias de festerê intenso? Ou você, jovem e tresloucado leitor, costuma sempre acordar vestido de odalisca turca, com um profundo corte no pé causado por forças ocultas e a cabeça mais pesada do que o próprio corpo?

Uma vez ouvi um caretão (leia-se nerds) reclamando dessas loucas viagens de carnaval em turma. Ele dizia que nem pelo direito de experimentar um hipotético Halo IV antes de todo mundo ficaria em uma casa suja e fedida, na companhia de outras 11 pessoas mais loucas que o Lobão, com todo mundo cagando defecando água (e em apenas dois banheiros) e comendo os mais diversos tipos de miojo. Sorte que nunca se pode acreditar no senso de diversão de um gamemaníaco.

Qual seria a graça da festa mais popular do Brasil sem os populares? Eu, por exemplo, conheci a Embaixatriz da Angola em plena Atlântica de São Francisco do Sul. Era um negão de dois metros de altura, dois de largura e dois de comprimento com uma tanga roxa e turbante, cantando "o que é que a baiana tem?" e dançando à la Carmen Miranda. Sem contar que o irmão dele era a própria Vera Verão.

Um carnaval só é verossímil numa casa com infinitas pessoas -- entre conhecidos e desconhecidos -- copos e latas para todo lado, areia e água pelo chão e pelas paredes, dores de cabeça e de perna e muita (eu disse MUITA) risada. Um carnaval só é verossímil com os amigos.

E entenda amigo por qualquer pessoa, afinal carnaval é só alegria.