terça-feira, 17 de abril de 2007

Be-a-bá: Monsieur Feijão

Atendendo à pedidos, o passo-a-passo da criação de um conto, pelo menos da minha parte:

Primeiro eu imagino um objeto. Pode ser qualquer coisa, grande ou pequena, quente ou fria, sei lá. Vejamos: sal, por exemplo. E é daí que sai todo o processo.
O sal me leva até o tempero da paella, que me leva até a Espanha, que me põe no meio duma arena de tourada.
Ou então, ou então!
O sal me leva até uma salina, que me leva até o mar – ou melhor, que está no mar –, que, por sua vez, me leva até qualquer lugar do mundo. Muito amplo.
Outra chance:
Sal me leva até um saleiro Cisne, que me leva a um mercadinho de esquina, que me leva até o restaurante do Jardel. Agora vai.
Imagino uma área generosa, como se fosse a sala de um casebre antigo. Aliás, o restaurante em si é uma casa velha, daquelas que têm um espaço embaixo para guardar tranqueiras e vermes.
A suíte do casal virou área de fumantes, e o quarto da filha mais nova agora é a sala de espera, com dois velhos cavalinhos de balanço para as crianças. O nome ainda é do tempo que o avô de Jardel tocava o negócio: Lancheria do Tata. Hoje eles servem pratos feitos e buffet, mas isso não vem ao caso.
Ok, o sal. Vamos ao sal.
Eis que certa vez aparece um homem finíssimo na lancheria, daqueles de cartola e fraque. Parece saído de um filme do Carlitos. Marilda é quem o atende:
- Pois não, senhor?
- Bom dia, mademoiselle. Eu queria uma porção de repasto, si vou plé?
- Ih, Sêo França, aqui nós não tem isso aí não. Pasto tem na fazenda do Miranda. Fica a uns dois quilômetros daqui.
- No, no. Creio que mademoiselle compreendeu mal. Eu quero comer alguma coisa. Alimento, comida, entende agora?
- Ah, claro. O senhor vai de P.F. ou bifê?
- Bifê é carrrne?
- Não, não, senhor. Bifê é essas bacia aqui. Hoje tem arroz e feijão, salada de repolho, macarrão na manteiga e batata-doce. E o senhor pode escolher uma carne também.
- No, merci. Quero o outro mesmo.
- Dona Mariiiiia! Salta um P.F. pro francês!
O homem senta numa mesa perto da janela. Nem bem começa a pensar nos motivos que o levaram a entrar naquele restaurante e surge o garçom, Zulu, segurando seu prato com apenas dois dedos.
Zulu é um negrão de quase dois metros de altura, que vive suado, com a camisa aberta até o umbigo e uma corrente dourada escrito “PEGA REX”.
- Me-merci, monsieur.
- É três real.
- M-mas eu tenho que pagar já?
- São normas da casa.
Tremendo, paga.
Quando terminou de engolir a primeira garfada – ta, ta, antes ele temperou a salada com o bendito SAL –, sentiu um fio grosso de cabelo lhe roçando o céu da boca. Mantendo a austeridade, chamou Marilda:
- Pois não, Sêo França?
- Mademoiselle, pardon. Tem um fio de cabelo na minha refeição.
- Ih caraca! Deve ser mais um cabelo do saco do feijão. O senhor me desculpa que eu já vou resolver.
E, virando-se para o balcão, chamou Zulu até próximo da mesa:
- Troca o prato aqui pro moço, Feijão. Quantas vezes eu vou ter que te dizer pra lavar as mão antes de cozinhar?

Um comentário:

Fogo disse...

Um breve comentário:
VTC piá, vc é retardado!!!
Me caguei de rir!!!