quarta-feira, 30 de abril de 2008

Um chinelo e modernidade

Ontem comprei um chinelo novo. Sei que alguns dirão que isso não é um fato muito relevante para a sociedade e não tem nem porquê eu estar comentando, mas mesmo assim achei importante compartilhar. Não é nenhum absurdo comprar um chinelo novo, hora ou outra todo mundo acaba tendo que fazer isso; convenhamos, também, que, apesar de parecer um ato simples, não é algo que ocorra tantas vezes na vida de um homem.

Para mim, foi um marco. Voltei às legítimas Havaianas depois de muito tempo. Já fazia alguns anos que eu usava o chinelo antigo, um pesadão, daqueles que se ganhava de graça numa promoção do shopping. Não estava exatamente velho, a tira ainda nem tinha arrebentado e o solado aparentemente estava inteiro. Jamais me deixou na mão (ou, no caso, no pé), aquele chinelinho. Durante seus quatro anos de vida, dei-lhe o prazer de conhecer mais de dez cidades em cinco estados diferentes, sem que ele nunca tivesse tentado fugir a nado pelo mar ou de tiras dadas com uma azaléia qualquer.

Fui ao mercado calçando-o alegremente, como sempre fiz. Nunca me deu vergonha, o chinelo. Ao meu ver, era como se eu tivesse acabado de recebê-lo das mãos daquela modelo no balcão da loja. "Parabéns, você fez 300 reais em compra no nosso shopping e ganhou este lindo chinelo". Lembro-me como se fosse hoje. Tinha muito valor, aquele chinelo. Pelo menos 300 reais. Peguei as Havaianas na estante já com uma ponta de remorso corroendo o fígado. Branca de tiras azuis, a clássica. Tamanho 41/42, contrariando todas as teorias de que Havaianas precisam ter números maiores do que usamos nos tênis e sapatos. No caminho até o caixa, ainda peguei uma mortadela e um pote de requeijão, mas acho que isso não tem muito a ver com a história.

O ponto culminante (e, para o meu coração, fulminante), foi a hora em que o código de barras das Havaianas passou na máquina registradora. Naquele instante senti meus pés pesados como chumbo. Era como se estivesse com eles enfiados numa poça de lama, todo sujo e sem nenhum movimento. Olhei para baixo e senti asco – aqueles pés envoltos numa tira de plástico tão velha quanto uma copa do mundo. No exato momento em que as Havaianas apareceram registradas no computador do mercado, meus chinelos antigos se tornaram sumariamente obsoletos.

Mas, ora, se até aquele momento eu não tinha nenhum problema com os velhos chinelos de promoção, por que eles ficaram assim, sujos, de repente?  É que comprei um produto substituto num momento em que eu ainda nem precisava, e isso tornou o chinelo velho, bem..., velho mesmo. Qualquer semelhança com um impulso consumista não é mera coincidência. Já sabia que essa praga existia e estava por aí, levitando no ar, mas não esperava – mesmo! – que ela fosse atingir um chinelo. Meu chinelo.

A moda é o exemplo mais prático dessa obsolescência programada. Quando você finalmente termina de pagar aquela jaqueta verde-limão com bordados em amarelo da coleção outono/inverno 2007, vem um novo Crystal Fashion e as tendências das cores puxando para o cítrico se tornam ultrapassadas, demodê. Sua jaqueta se tornou out depois de apenas uma mísera estação. E, pior: se você usa uma jaqueta verde-limão com bordados em amarelo enquanto todo mundo está de sobretudo azul-turquesa, você é ridículo. Ridículo e sem noção nenhuma de moda.

As coisas já não são mais feitas para durar. Não só materialmente falando, mas também na idéia de conceito. A linha que separa o que é bom do que é ruim hoje em dia é muito tênue, completamente maleável. Basta ver os modelos de carros: não se passa três anos sem que uma reformulação seja feita, nem que seja para trocar um farol ou uma curva no pára-lamas. E digo mais: até os vidros de hoje são mais finos que antigamente, só para que em no máximo cinco anos seu carro esteja em frangalhos e seja preciso trocá-lo por um novo. É o mercado se alimentando de si próprio, os próprios produtos estimulando sua recompra.

Eu farei parte da resistência. Não vou deixar que essa sede por novidades tome conta de mim. Prezarei sempre pela qualidade enquanto ela ainda existir. Não quero nada efêmero, apenas produtos duradouros. Ao invés de ter um Ford Fusion 2008, comprarei um Monza 1981 porque ele ainda têm pára-choque de ferro e farol de vidro. E quanto aos meus chinelos, guardarei o novo no armário, dentro da caixa, e usarei o velho tanto quanto for possível, até que ele se desintegre completamente ou finalmente arrebente a tira. Nem que para isso acontecer eu tenha que usar uma tesoura com ponta.

2 comentários:

Pauline disse...

Mycon,
ADOREI O TEXTO, O BLOG, A MANEIRA COMO ESCREVE! Meus parabéns!

E esse texto é bem disso mesmo! Vivemos por impulso no consumismo quase que diário... Não sei onde isso irá nos levar, mas enfim...

Bjsss

[renan] disse...

Quem diria, Maycão? Você um sujeito um político! Eu sabia que isso ia acontecer. Agradável surpresa.