quarta-feira, 14 de maio de 2008

Se-pa-re

Existem coisas que acontecem diariamente e são tão absurdas que quando as presenciamos não sabemos exatamente como pensar. Os sentimentos normalmente duelam entre a vontade de rir e a de chorar, com algumas variações socialmente aceitas. Acontece assim: você está andando calmamente e de repente vê a cena; uma cena qualquer, normalmente absurda, mas que no fundo você sabe que acontece o tempo todo. Aí abaixa a cabeça e a balança e um lado para o outro, como quem faz "não", num gesto claro de indignação. Então, finalmente, percebe que a sua boca está se contraindo até formar aquele esboço de sorriso, onde só aparece um lado da arcada dentária, geralmente o mais amarelo. No íntimo do ser, no ID de Freud, a confusão está instalada: enquanto sua consciência "anjinho" quer se indignar, a consciência "capetinha" quer rolar no chão de tanto rir.

Um exemplo claro disso tudo aconteceu hoje comigo. Cheguei no trabalho bem cedo e, como de praxe, cumprimentando todo mundo. Bom dia para um, abraço no outro, conta uma piada daqui, fala do tempo dali... Aquela festa de sempre. Mas e aí fui jogar fora o papel da bala que ganhei da D. Gilda e aquilo que incomodaria até político corrupto aconteceu. Na hora eu ri e me indignei da mesma forma explicada anteriormente, mas ainda não havia captado a profundidade da coisa. Eis o fato: uma moça da limpeza (não sei o nome, me desculpem) estava esvaziando os latões de lixo e jogando tudo no mesmo saco. Não eram vários latões de lixo "geral" espalhados pelo pátio; era uma única estrutura com vários buracos para separar o lixo reciclável. Azul para papel, vermelho para plásticos, amarelo para latas, etc. Ela estava abrindo recipiente por recipiente e jogando tudo num mesmo saco preto – que certamente seria amarrado e colocado na calçada para o caminhão de lixo (aquele lixo, que inclui desde caixa de leite e casca de banana estragada até papel higiênico e pilhas alcalinas) levar para o já saturado aterro da Caximba.

Essa situação leva a duas conclusões, ambas revoltantes: ou a moça que fazia a limpeza não considera a reciclagem algo relevante (e isso me faz pensar "que equipe de limpeza é essa?"); ou ela parte da premissa que as pessoas não levam em consideração as cores das latas e que jogam qualquer coisa em qualquer lugar (o que seria muito mais periclitante devido a sua abrangência). De qualquer forma, nenhuma das duas conclusões exime a moça da limpeza de qualquer culpa. No primeiro caso, foi uma decisão dela e somente dela, mesmo que isso atinja de certa forma todo o mundo. No segundo caso, ela faz um juízo de valor de toda a sociedade, e juízo de valor é algo totalmente pessoal, portanto também decisão dela. Importante: consideremos, aqui, "ela" e "moça da limpeza" como a personificação de toda a equipe de limpeza, pois a moça que efetivamente retirava o lixo de seus latões podia simplesmente estar cumprindo ordens de uma chefe e não agindo segundo seus próprios ideais.

Particularmente acho importante a coleta seletiva do lixo, apesar de não saber o que acontece com ele depois os ponho para o caminhão pegar. É o que de mais simples podemos fazer para ajudar o meio ambiente e prevenir o tal aquecimento global. Não cansa, não dói e não te atrasa para o jogo de boliche. Basta pegar o que é papel e por no balde de tampa azul. Simples assim. E se é tão fácil, porque as pessoas não o fazem regularmente? Pior: aqueles que fazem, e são poucos, vêem seu parco esforço indo por água abaixo por causa de uma moça que não considera isso importante (não esquecer que ela é apenas uma personificação). Até duvido que a lata de tampa vermelha tivesse somente plásticos e a marrom baterias de celular – a grande parte das pessoas infelizmente não considera que seu lixo individual irá afetar o meio ambiente do planeta inteiro – mas o que é que custa acreditar que a sociedade é perfeita? O mundo é bom, até que me prove o contrário. Ele até que tenta, mas eu sou teimoso e custo a acreditar.

Um comentário:

chicoB disse...

grande post!
(entender o sentido é por sua conta)
well, até que seus textos não são de todo ruins não. vou colocar nos favoritos e de vez em quando dar uma passada.
abrç