Flamengo, cerveja, mulher e literatura. Necessariamente fora dessa ordem.
terça-feira, 17 de abril de 2007
Be-a-bá: Monsieur Feijão
Primeiro eu imagino um objeto. Pode ser qualquer coisa, grande ou pequena, quente ou fria, sei lá. Vejamos: sal, por exemplo. E é daí que sai todo o processo.
O sal me leva até o tempero da paella, que me leva até a Espanha, que me põe no meio duma arena de tourada.
Ou então, ou então!
O sal me leva até uma salina, que me leva até o mar – ou melhor, que está no mar –, que, por sua vez, me leva até qualquer lugar do mundo. Muito amplo.
Outra chance:
Sal me leva até um saleiro Cisne, que me leva a um mercadinho de esquina, que me leva até o restaurante do Jardel. Agora vai.
Imagino uma área generosa, como se fosse a sala de um casebre antigo. Aliás, o restaurante em si é uma casa velha, daquelas que têm um espaço embaixo para guardar tranqueiras e vermes.
A suíte do casal virou área de fumantes, e o quarto da filha mais nova agora é a sala de espera, com dois velhos cavalinhos de balanço para as crianças. O nome ainda é do tempo que o avô de Jardel tocava o negócio: Lancheria do Tata. Hoje eles servem pratos feitos e buffet, mas isso não vem ao caso.
Ok, o sal. Vamos ao sal.
Eis que certa vez aparece um homem finíssimo na lancheria, daqueles de cartola e fraque. Parece saído de um filme do Carlitos. Marilda é quem o atende:
- Pois não, senhor?
- Bom dia, mademoiselle. Eu queria uma porção de repasto, si vou plé?
- Ih, Sêo França, aqui nós não tem isso aí não. Pasto tem na fazenda do Miranda. Fica a uns dois quilômetros daqui.
- No, no. Creio que mademoiselle compreendeu mal. Eu quero comer alguma coisa. Alimento, comida, entende agora?
- Ah, claro. O senhor vai de P.F. ou bifê?
- Bifê é carrrne?
- Não, não, senhor. Bifê é essas bacia aqui. Hoje tem arroz e feijão, salada de repolho, macarrão na manteiga e batata-doce. E o senhor pode escolher uma carne também.
- No, merci. Quero o outro mesmo.
- Dona Mariiiiia! Salta um P.F. pro francês!
O homem senta numa mesa perto da janela. Nem bem começa a pensar nos motivos que o levaram a entrar naquele restaurante e surge o garçom, Zulu, segurando seu prato com apenas dois dedos.
Zulu é um negrão de quase dois metros de altura, que vive suado, com a camisa aberta até o umbigo e uma corrente dourada escrito “PEGA REX”.
- Me-merci, monsieur.
- É três real.
- M-mas eu tenho que pagar já?
- São normas da casa.
Tremendo, paga.
Quando terminou de engolir a primeira garfada – ta, ta, antes ele temperou a salada com o bendito SAL –, sentiu um fio grosso de cabelo lhe roçando o céu da boca. Mantendo a austeridade, chamou Marilda:
- Pois não, Sêo França?
- Mademoiselle, pardon. Tem um fio de cabelo na minha refeição.
- Ih caraca! Deve ser mais um cabelo do saco do feijão. O senhor me desculpa que eu já vou resolver.
E, virando-se para o balcão, chamou Zulu até próximo da mesa:
- Troca o prato aqui pro moço, Feijão. Quantas vezes eu vou ter que te dizer pra lavar as mão antes de cozinhar?
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Dois – Outra Versão
- Apartamento.
- Uma casa, e no campo! Mas de frente para o mar, meio, assim, híbrido sabe? Imagine aquelas janelas esverdeadas, grandes, com uma rede pra poder deitar e passar o dia só olhando. [gole] Aquelas casas que você vê no morro quando está na areia de Ubatuba, tomando sol. Nunca se sabe de quem são! E a gente fica imaginando: ora, como será que eles chegam até lá?
- Azul.
- Ah... cor é um negócio meio assim, assim. Aqueles dias que eu acordo meio triste, eu gosto de uma roupa preta, porque não quero chamar muita atenção [gole]. Mas quando eu sonho só com coisa boa visto logo aquela jaqueta amarela que é pra todo mundo me ver! É incrível, parece que todo mundo quer conversar com você daí. [gole, babando] Mas a parede do meu quarto é azulzinha, tipo azul-calcinha.
- Salada.
- Ah, sai fora. Bom é porcaria [gole]. Sempre que dá, eu vou no mequi, peço uns dois números de cara e mando ver [gole]! Mas pra domingo não tem nada melhor do que aquele churrascão na casa do tio Mário. Todo mundo tem um tio Mário. É sempre aquele tio que conta as piadas, que se suja todo fazendo a carne. Aquele tio que todo mundo queria ser mas não tem coragem [gole]. Mas vamos combinar, hein?: nada melhor que aquele arrozinho com feijão da vó, hummmm! [gole]
- Frango grelhado.
- Ah não! Bom mesmo é aquela costela bem gorda [gole]. Garçom, outra gelada aqui! Aquela costelinha de porco, costela borboleta. Você já comeu no Tobias? Nossa, lá é maravilhoso! Se você pede costela gorda ela vem com aqueeeela capa branca...
- Credo.
- [gole] Haha[engasgo]hahaha...
- Balada.
- Obrigado, chefia. Quê? Balada? Bah, que nada. Bom mesmo é bar, olha isso [gole]. Olhe em volta, veja as pessoas felizes. Não tem nada mais sociável do que a cerveja [gole]. Você vem aqui e faz amigos, muito amigos. O cara do balcão, o garçom, os malucos da mesa do lado. [gole, O gole] Ah, isso sim que é vida.
- Gato.
- Ui, odeio gato [gole]. Na verdade eu tenho medo. Uma vez um primo me jogou um gato que me arranhou a cara; Daqui até aqui, ó [sobre a mesa], tá vendo? Foi sinistro, quase pegou no meu olho [gole]. Mas animal? Deixa eu ver [gole pra pensar]. Acho que eu gosto dos tubarões. Pensa comigo: aqueles bichos não dormem, são sanguinários e sociáveis. De certa forma eles têm um charme [gole]. Sabia que os tubarões não podem parar porque senão falta ar? É, eles respiram com a pele, têm que ficar sempre se mexendo [vira o copo, enche o copo, deixa vazar, tira o rótulo].
- Gatos são espertos e charmosos.
- Tubarões comem gatos. E os donos dos gatos se estiverem juntos.
- É, e correm atrás do próprio rabo. Hahaha...
- [gole, baba] Que nada. É só uma forma pitoresca de nadar.
- Ok, não muda de assunto. Caipirinha.
- Sai fora, cerveja é o canal [vira o copo, outra vez].
- Chocolate.
- X-qualquer-coisa, bem gordurento [gole, arroto contido]. Bem porco, tipo aquele da lanchonete Xiang perto da faculdade. Chocolate só se for branco, e olhe lá. Isso é coisa pra meninhas [vira o copo, mais uma vez]. Ô colega! traz mais uma aí.
- Wolverine.
- Wolverine é massa. Mas quando eu era criança eu era o Jaspion [hic, opa!]. Sei lá porque, ele parecia mais forte [gole]. Ele crescia, lutava contra robôs [faz robô, derruba garrafa]. Sei lá. Mas dos X-man? deixa ver... Aquele das cartas, como é que é nome dele mesmo? [gole, arroto] Desculpa. Eu não lembro, como é que é o nome? Sei lá, desisto. Segue o baile.
- Cordel do Fogo Encantado.
- Você é estranha [gole]. Esses caras dessa banda são uns macumbeiros. Aquele nomes estranhos que eles dão pra músicas: O Teclado Escondido da Maria Joaquina OU [exclamação, mão nas costas do garçom, não, não é nada, acertei sem querer], OU A Silhueta Perfeita do Fantasminha Camarada. Eles são sinistros! [gole] Presta atenção: quem é que dá dois nomes pra uma mesma música e ainda escreve no encarte dos cds?! E esses nomes ainda, fala sério [enche o copo]. Garçom, traz mais uma. Como acabou? Que bar é esse que acaba a cerveja?! Cacete. Então me vê um conhaque. Mas me manda um bom, tipo um Hennessey. E com gelo [vira o copo, põe na bandeja]. Do que a gente falava mesmo? Ah, banda né? Então... Eu gosto de uma pegada mais ácida, umas bandas gringas, sabe? Sei lá, Foo Fighters, sei lá. É, Foo Fighters mesmo.
- Friends.
- Puuutz, Friends é ótimo! Obrigado garçom [mexe o gelo]. Lembra aquele episódio que a Phoebe recebe aquele irmão estranho dela? "Eu gosto das coisas que derretem – e não gosta do que? – das coisas que não derretem", hahahaha! [golão no conhaque] Tsc, ahhhh, esse é dos bão! O verdadeiro uísque brasileiro.
- Tv e novela.
- Nuuunca [gole, soluço]. Eu jogo video game, computador. Sou descolado [gole, gole, soluço, gole]. Mais um desses, garçom. Agora eu to viciado naqueles poquer de internet. Nossa, é muito bom. Pena que fica difícil de blefar, mas eu to muito bom. Sabe que blefar é como um arte, né? Você tem que passar toda a confiança de quem tá falando a verdade, mas na real tá mentindo! Eu sempre jogo lá em casa – obrigado, xará – com a minha mãe e tal. Eu fico com pena de blefar com eles, mas jogo é jogo. Eu minto mesmo [gole].
- Mário Bro's.
- Haha... Velhos tempos! Hoje em dia é só Winning Eleven, mulher [gole]. Esse jogo é animal. Eu sei de uma história que os caras que inventaram são tipo deus lá no Japão. Tá, não sei se e verdade isso, mas se eu conhecesse os caras eu ia criar uma igreja pra eles [gole]. A Igreja Quadrangular do Triângulo Redondo, hahahaha!
- Por que você riu?
- Do Mário Bro's, vai, continua.
- Seu bobo. Orkut.
- Olha que coisa mais fútil. Orkut é coisa de quem não tem o que fazer, que fica mandando recadinhos [gole]. E odeio quem fala "scraps". Ai, te mandei um "scrap" e você não respondeu. Ai, ai, "scrap", "scrap". Isso é uma putaria. É recado, tá escrito recado lá e pronto, cacete [golão]. Caraca, vou mijar.
Minutos depois...
- Publicidade.
- [com outro copo] Publicidade é coisa de capitalistas mercenários! Sou socialista, marxista, revolucionário! Sou do time de Jornalismo [gole]. Lá no banheiro tinha um negócio escrito, muito engraçado. Tipo assim, Jesus cagou aqui. Muito mal gosto, mas foi engraçado na hora. To com fome, garçom! Ô garçom! Ei, chefia! Manda aquela batatinha caprichada lá pra nós? Valeu, meu chapa.
- Revista.
- Gibi. Qualquer gibi. Eu leio Mônica, Cebolinha, Tio Patinhas, Urtigão, Pelezinho – haha desenterrei essa – eu leio até Tex [gole]. Tex é muito engraçado porque parece mais aqueles livros de quinta categoria que vende nas banquinhas de jornal. Aqueles livros que são de uma histórinha de aventura, sempre com um autor de nome americano – que eu acho que deve ser um brasileiro frustrado –, onde o mocinho sempre fica com a mocinha lá pela página 64 e vence o vilão perto da 90 e poucos [gole]. Muito previsível. Não que eu costume ler, claro. Mas eu li um uma vez, e deve ser todos iguais. O que que a gente tava falando mesmo?
- Último Romance do los Hermanos.
- Los Hermanos, você? Justo você, publicidade.. Mal contada essa história aí. Los Hermanos é tipo banda cult. Já virou até adjetivo: olha lá o cara vestido como quem escuta Los Hermanos, olha esse óculos estilo de quem escuta Los Hermanos [gole]. Você vai no show dos caras e todo mundo usa camisa xadrez lá. O engraçado é que os homens e as mulheres usam a mesma camisa [gole]. Vou pedir outro conhaquinho [gesto mais-um]. Agora música eu não tenho nenhuma especial. Eu gosto daquela Johnny be Good, do Chuck Norris – ! – hahahaha Chuck Norris! É Chuck Berry, hahahaha.
- Corinthians.
- Ihhh, vem falar de futebol? Eu te esmirilho aqui. Olha a batata, beleza. Valeu companheiro. Nem quero te desmoralizar, sabe? Você já torce pro Corinthians e isso é um castigo. Eu sou Flamengo e só isso já me dá um ar de superioridade [gole, tosse, gole].
- Beijo.
- Acho que eu to passando mal... Hum? Beijo? Hummm, beijo! Claro, adoro. Ainda mais que sempre acaba na cama. Acho que vou no banheiro.
- Você.
- [de pé] Ãhn? Você. Você também. Dá licença que eu vou vomitar.
quarta-feira, 11 de abril de 2007
Dois
- Casa.
- Azul.
- Vermelho.
- Salada.
- Batata frita.
- Frango grelhado.
- Picanha sangrando com aquela capinha de gordura.
- Credo.
- Hahaha...
- Balada.
- Bar.
- Gato.
- Cachorro, odeio gato.
- Gatos são espertos e chamosos.
- Cachorros comem gatos.
- É e correm atrás do próprio rabo. Hahaha...
- Gatos não prestam!
- Ok, não muda de assunto.
- Caipirinha.
- Cerveja.
- Chocolate.
- X-bacon! Nhaaaaam...
- Wolverine.
- Homem-Aranha.
- Cordel do Fogo Encantado.
- Monobloco.
- Friends.
- Os Simpsons.
- Tv e novela.
- Video game e internet.
- Mário Bro's.
- Haha... Winning Eleven.
- Por que você riu?
- Do Mário Bro's, vai continua.
- Seu bobo. Orkut.
- Messenger.
- Publicidade.
- Jornalismo.
- Revista.
- Gibi.
- Último Romance do los Hermanos.
- Cara Estranho deles também.
- Corinthians.
- Flamengo.
- Beijo.
- Beijo.
- Você.
- Você.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
Última Chance
- Oi, sou eu. Pode falar?
- Cinco minutos.
- Então me diz... Porque você está fazendo isso comigo?
- Não tem como evitar – é meu jeito.
- Como seu jeito? Pára com isso!
- Sossega, é a vida.
- Nada disso! Você tem que me dar uma chance.
- Se enxerga, Maurício. Aceite as coisas como elas são.
- Como assim aceite? Você diz "aceite" e é tudo?
- É, ué. Simples assim.
- Simples assim? Eu estou desesperado! Faz três dias que eu não durmo direito! To perigando perder o emprego!
- Ora, vá! Se acalme que tudo logo volta ao normal. E pare de fazer tempestade em copo d'água.
- Não é tempestade em copo d'água. Eu realmente estou sofrendo com essa situação.
- Não fala assim... Não fala assim que eu não resisto...
- Não resiste? Como assim?! Ta me estranhando?!
- Não resisto e rio! Hahahaha... Que otário, você, Juca!
- Otário nada! Vamos marcar outro jogo pra hoje à noite então.
- Sai fora, rapaz. Você é um asno jogando Winning.
- Uma revanche. Eu tenho direito a uma revanche.
- Mais uma?
- E quantas for! Eu ainda vou ganhar de você, Maurício.
- Que seja. Na minha casa ou na sua?
O mundo da voltas
- Oi, tudo bem?
- É!
- É?
- É!
- Aconteceu algo?
- Sempre acontece algo. Você sabe.
- Mas dessa vez o que foi?
- Depressão, já ouviu falar?
- Já, claro. Mas quem está deprimido?
- A tua mãe, aquela vaca!
- Porra Maurinho, por que me tratas assim?
- Oras Rubens, porque você me faz perguntas estupidas!
- Foi mal, não quis irritar. Posso te ajudar?
- Pode.
- Como? É só falar, se estiver ao meu alcance.
- Me empresta sua arma.
- Pra quê?
- Eu te mostro.
- Tudo bem, mas olha lá hein. Isso pode sobrar para mim.
Pow, pow, pow!!! Três tiros bem no meio da cara do sujeito, Maurinho
passou Rubens, o ex-amigo, sem pestanejar. Entrou no carro, colocou uma
música tranqüila e seguiu para a estrada com direção ao litoral. Quando
está quase chegando ao fim da serra liga para sua namorada.
- Alô.
- Oi Bia sou eu.
- E ai onde você esta?
- Estou indo.
- Pra onde?
- Logo eu chego lá.
- Lá onde?
- Onde eu quero chegar.
- Lá vem você com esse papo.
- Já sei de tudo.
- Tudo o quê?
- De você e daquele filho da puta.
- Do que você esta falando.Eu e quem? Você está louco?
- Não se faça de idiota, você é bem espertinha na hora de fazer planos.
- Planos?
- Escuta aqui sua piranha imbecil, já sei tudo sobre seu plano de matar
a mulher do Rubens. E depois se mudar com ele para a casa da praia.
- Onde você está?
Maurinho desliga o telefone. Chega na rua da casa onde Bia morava perto
do porto. Liga novamente e avisa Bia que está chegando. Ela sem pensar
direito pensa num jeito de sair dali. Pega uma mochila com algumas
roupas, uma garrafa de água, os cigarros e a bolsa. Escreve um bilhete e
deixa em cima da mesa de centro em frente a tv.
Nisso Maurinho para o carro duas quadras da casa de Bia e segue a pé até
um bar na esquina de onde observa quando Bia entra no carro dela. Antes
dela dar partida liga de novo.
- Estou com problemas no carro. Me espere um pouco, já chego e quero
falar com você.
- Ah é!? Pois fique sabendo que já estou indo embora. Estou na estrada e
nunca mais você vai me ver.
- Não vai me esperar?
- Você é muito burro mesmo. Um derrotado, saiba que desde o começo eu
saia com o Rubens. Nunca gostei de você, nosso namoro foi só um
passatempo. Pelo menos me rendeu alguma coisa. A casa na praia, este
carro, algumas viagens...Você foi usado amorzinho.
- É uma pena. Sabe que eu gostava de você de verdade.
- Pena é o que eu sinto de você. Otário, perdedor, mauricinho de merda.
- Você é bem burrinha mesmo! Achou que um plano idiota desses daria
certo. Mas ainda vou fazer mais um favor. O último.
- O quê?
- Eu fui uma vítima de um erro médico. No meu acidente devido à pressa e
imprudência do hospital, fizeram a tranfusão de sangue sem fazer os
devidos testes de hepatite e HIV. Sugiro que você faça um teste.
- O quê?
- É mocinha, pensei em contar isso antes, mas foi na época que descobri
sobre você e o Rubens. Dei uma chance de você me falar sobre isso
comigo. Mas você não se manifestou. Continou sendo falsa como sempre.
- O quê?
- Fiquei muito mal por isso, perdi o chão. Mas agora é tarde, está tudo
se encaminhando para o fim.
Bia desliga o telefone e no momento em que gira a chave do carro, ele
vai pelos ares. Maurinho vê de longe o clarão provocado pela explosão,
paga a cerveja e volta para o carro com lágrimas no olhos. Volta para a
estrada em altíssima volocidade e enfia o carro em um poste.
Fim
domingo, 8 de abril de 2007
A Surpresa
- Jesus! Que coisa horrível!
O rapaz, mesmo com todo seu porte atlético, ficou na defensiva.
- Não é nada disso que a senhora está pensando!
Mas a Dona, tapando os olhos, não podia acreditar no que acabara de ver.
- Ponha-se daqui pra fora, seu desaforado! E não me apareça mais nem pintado de ouro!
- Mas, mamãe...
- Nada de mas. Fora. Fora!
E saiu Dagoberto, escorraçado de casa, sem ter para onde ir.
Perdão
Passaram dois dias sem que o garoto aparecesse pela vila. D. Altiva, de cabeça fresca, achou por bem perdoar o filho. Deu a ordem ao criado:
- Ache Dagoberto e mande que ele volte para casa.
Sabe-se que horas depois ele apareceu, sem camisa e desesperado.
- Soube que mandou me procurar, mamãe.
Ela ainda foi ríspida:
-Sabes que teu erro foi gravíssimo. Não terás vida fácil daqui pra frente.
- Então eu posso voltar para casa?
D Altiva impôs a condição:
- Contanto que nunca mais apareça na minha frente usando aquela camisa do Vasco.
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Encontro Forçado
A família Demóstenes era muito rica. Muito rica. Esnobe e esbanjador - e com um nariz típico dos armênios -, Carlinhos tinha muitas namoradas, todas apaixonadas pela beleza da sua carteira de couro jamaicano. Ele era amigo de Juan, filho da empregada guatemalteca da família, que era quem lhe conseguia as moçoilas. Sua segunda ação com diretor, depois de enfeitar a sala com um tema havaiano de muito mal gosto, foi contratar Juan como seu assessor direto.
Na primeira reunião daquele novo gabiente, a dupla fez uma lista de todas as meninas que poderiam ser contratadas como secretárias. E Carlinho queria muitas secretárias.
A Equipe
Depois de muita discussão, essa não porque é feia, mas é gostosa, então tá, decidiram-se por Paula, Ana e Tássia. E elas nada tinham pra fazer. Passavam o dia escutando Juan falando do chefe, sai fora, olha aquele nariz, nunca que eu vou ficar com ele. Ana foi a primeira a ser demitida por justa causa, e as outras acabaram cedendo aos encantos do caçula Demóstenes.
E assim se foi por oito meses, pra trabalhar aqui você tem que passar pela aprovação do chefe. Foram Marianas, Lúcias, Joanas. Até duas Cremildas foram sabujadas. Juan nunca falhava.
Eis que, subitamente, Carlinhos deu piti, enjoei, não quero mais, já tenho 19 anos e preciso de carinho. E iniciou a quarentena.
Um dia, pelos corredores da empresa, viu Silvinha. Olha-essa-boca! Que olhos. Que cabelos. É ela, Juan. É ela que eu quero. Mas chefe, é a Sílvia, mulher do Sandoval, do financeiro. Não importa, é ela que eu quero, e te pago pra isso. Mas chefe, nada de mas! Ofereça dinheiro se for preciso. Silvinha, é ela que eu quero.
Flerte Fatal
Juan tentou, tentou, tentou e nada. Não quero, não quero, não quero. Amo meu marido. Sílvia, é Carlinhos, filho do presidente. Não!
Juan, que sempre foi pobre, oferecia dinheiro, 50 reais, 100 reais. Necas. Chefe, eu desisto, essa menina é mais acre que a Madre Tereza. Negativo, Juan. Traga-a aqui. Mas chefe, na de mais! Traga.
E logo estava lá, Sílvia, linda, entrando assustada na sala de Carlinhos, o abatedouro, a cova. Meio forçada, claro, mas era ela, Sílvia, no ninho do amor. Bom dia, senhor. Quero você, Silvinha. Mas, senhor, eu amo meu marido. Não importa, eu quero. Nada feito. Eu pago, Sílvia, quanto você quer? 50 mil? 100? 200? Isso, 200 mil, uma vez só. Amanhã, aqui, as 20h00.
No dia seguinte, Sílvia se arrumou. Se perfumou. Se maquiou. A própria fêmea fatal. Na hora em ponto estava lá, meu dinheiro, senhor. Depois. Eu quero agora. Primeiro o sexo. Agora! Sílvia pegou o cheque com a mão direita enquanto a esquerda segurava a faca. Dois segundos depois ela estava no pescoço de Carlinhos. Sílvia, não a faca.
terça-feira, 3 de abril de 2007
Série NR – Quando não é para ser...
ícone! Todos imaginavam um futuro brilhante para ele. Agia como se o
mundo fosse dele, que de certa forma era mesmo. Tudo que ele fazia
virava sucesso, o garoto era um espécie de rei Midas. O tempo foi
passando e o sucesso era questão de tempo. Hermes inventou um motor
movido à som, isso acabaria com a luta pelo petróleo e ainda ajudaria o
meio-ambiente. Mas que só seria concluído e apresentado na feira de
ciências. Todos esperavam o grande dia no colégio Guachupé de Monte
Castelo, em Piraporanga do Sudoeste. A feira começou e todos só
esperavam hora de ver o engenho de Hermes. As pessoas não queriam saber
do gato de duas cabeças, que cantava Benito de Paula, que Aninha levou,
ou do vulcão de suco de laranja que Astolfinho fizera e muito menos da
chinchila-rinoceronte que o Teodoro comprou numa loja de antigüidades.
É chegada a hora, Hermes entra na sala com a certeza de que tudo daria
certo, como de fato aconteceu até aquele momento. Mas o mundo é um
moinho, já disse Cartola, e como na canção não o mundo, mas sim um
ventilador de teto se desprendeu do alto da sala e destruiu o projeto de
Hermes. Como um moinho triturou o trabalho de um ano e que brinde ainda
deixou Hermes com síndrome do pânico e com pavor de ventiladores de teto.
Aninha venceu o primeiro prêmio com o gato de duas cabeças. Astolfinho
ficou em segundo e Teodoro em terceiro. Hoje, dez anos depois, Hermes
faz um bico como chapeiro numa barraquinha de hamburguers, que ele mesmo
prepara e tenta a vida como cantor brega em bailes de terceira idade.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Irish Pub
estavam ocupadas. A fumaça de cigarro, o jazz tocava o tempo todo e só
era interrompido por Cartola, Tom Jobin ou raramente por Chico Buarque.
Um dos garçons entre as mesas anotando e servindo os pedidos. Do lado
esquerdo da entrada uma máquina de música, para quem quisesse dividir
seu goto musical com os demais no bar. Dentro do balcão o garçon que
servia as bebidas e James, o proprietário do recinto, também ajudava com
as bebidas.
Todo dia ela entrava no bar, tomava uma dose de whisky e uma água.
Pegava uma moeda e colocava uma música do Cartola, A Vida é um Moinho,
sentava-se sozinha e do balcão sem muito interesse olhava para os
clientes do bar e depois parecia ignorar tudo e todos. Tinha um certo ar
de intelectual, mais pelos livros que carregava do que pelo estilo e os
óculos quadrado (moda entre emos, fãs de Los Hermanos e Indies) que
caprichosamente ela guardava após James, trazer seu whisky.
O Bar do James, sempre foi um reduto democrático, jamais ocorreu alguma
briga ou alguém deixou de pagar a conta. Dizem que apenas quando a
seleção irlandesa ganha dos ingleses, James sem fazer alarde nenhum
oferece uma dose por conta da casa. James é filho de irlandeses, viveu
durante vinte anos em Dublin. Mas foi depois de uma passagem por Belfast
que resolveu voltar para o Brasil, seu país de nascimento, após um
incidente com... fogos de artifício digamos.
A garota com jeito intelectual e óculos quadrado, certo dia resolveu
pedir o seu costumeiro whisky, só que desta vez no lugar da água pediu
uma guinness. James que não era de muita conversa, sempre servia e não
se alongava em conversas com os seus clientes, estranhou o pedido da
moça. Elogiou a escolha, ela retribuiu com um sorriso. E nos dias
seguintes acabou subistituindo também o whisky por duas guinness. A
música continuava a mesma, Cartola.
James certo dia se sentiu a vontade e assim que a moça chegou no balcão
trouxe uma guinness e quis puxar conversa como nunca tinha feito com
nenhum(a) outro(a) cliente do bar. Ela sorri e os dois conversam sobre
suas vidas, sobre a Irlanda e outras afinidades. Depois desse dia James
e Eva (nome que substituiu o 'garota com jeito de intelectual') sempre
ficavam jogando conversa fora no balcão ao som de Cartola.
Isso fez o ambiente do bar mudar, com o tempo James foi tratando com
mais cortesia os seus clientes. O lugar parecia até mais iluminado, e os
freqüentadores sabiam o motivo. Desde que James e Eva se tornaram amigos
o lugar mudou. Certo dia James avisou que não iria trabalhar, deixou um
dos garçons como responsável e foi resolver "uma coisa", foi o que
disse. Claro que ele foi ao encontro de Eva.
Os dois foram jantar num restaurante egipcio, depois foram andando até a
casa de Eva, ela o convidou para entrar e os dois "dormiram" juntos.
Após isso começaram um namoro afinal eles tinham algumas qualidades e
defeitos muito parecidos. Mas Eva escondia algo, isso com o tempo foi
deixando James ressabiado. Até que um dia Eva diz que perdeu o pai,
ainda quando era uma garotinha, mas nunca falava quem era o pai dela e
nem como foi a morte dele.
A relação de Eva e James se fortalecia cada vez mais, e com isso James
pode notar que Eva sempre ficava muito deprimida e depois um tanto
raivosa quando lembrava do pai. James falava de seu pai tentando
confortar Eva, o pai dele tinha sido um importante detetive policial em
Dublin. Ele foi chefe do departamento anti-bombas, um departamento
designado também para acabar com o IRA.
Depois de saber disso Eva pediu para ficar sozinha um tempo, disse que
estava tudo bem, que James tinha ajudado bastante. Ele não entendeu
muito e mesmo assim saiu deixando Eva sozinha. No bar James continuou
tratando todos de maneira gentil e atenciosa, mas Eva já não aparecia
por lá com frenqüência. E foi ficando cada vez mais raro ver Eva no bar,
mas o relacionamento de James e Eva continuava a mesma coisa.
Numa noite chuvosa de sábado, um dos garotos de rua que se escondiam
debaixo da marquise de uma mercearia ao lado do bar, entra no bar e
entrega um bilhete para James e sai, era um bilhete da Eva. Do lado de
fora do bilhete estava escrito: 'abra no carro'! Como o bar estava cheio
James colocou o bilhete no bolso e continuou trabalhando. Acabou
esquecendo do bilhete, na hora de ir embora lembrou-se, mas resolveu
fazer o que Eva pediu no bilhete.
James entra no carro, coloca a chave na ignição e antes de dar partida
abre o bilhete, que tinha os seguintes dizeres: /Querido James, foi
maravilhoso conhecer você. Tudo que passamos foi e será inesquecível. É
uma pena não poder viver mais com você, mas isso aqui é o fim.../ antes
que James terminasse de ler, resolve ligar o carro. Num instante uma
explosão acaba com a calma daquela noite chuvosa. O carro de James vai
pelos ares em pedaços.
No dia seguinte foi encontrado um pedaço do bilhete: /Estou fazendo isso
pela honra da minha família. Seu pai foi o responsável pela morte de meu
pai. Ele não soube como provar que não era o perigoso militante do IRA.
Na verdade era eu quem seu pai procurava, só era conhecida apenas por
meu sobrenome. Por isso confundiram e pegaram meu pai, que não tinha
nada com o IRA. Mas agora seu pai deve saber a dor que é perder alguém
amado.../
Depois disso nunca mais se teve notícias de Eva.
sexta-feira, 30 de março de 2007
Falta de Memória
Abro a cortina o sol insuportável invade o quarto, só não é tão insuportável quanto os gritos das crianças que brincam no estacionamento. Preciso acordar direito, o reflexo do espelho me mostra que a noite passada foi daquelas. Olhos vermelhos, cabelos desgrenhados (isso que tenho cabelo curto) e ainda com aquele gosto horrível na boca. Escovo os dentes como se isso fosse curar a ressaca num toque de mágica. Claro que não cura a ressaca, mas já estou com um hálito decente.
Tomo um banho gelado, fico algum tempo só deixando a água cair sobre a minha cabeça, numa tentativa de me sentir melhor. Deito no sofá, coloco uma música e começo a raciocinar de maneira coerente. Vou até a cozinha preparo um café. Tomo uma caneca cheia e sem açúcar. O telefone toca, alguém de quem eu não me lembro me pergunta se estou bem. Não sei o que dizer, só digo que estou bem, apenas um pouco cansado. Ela se despede sem me dizer o seu nome nem do onde me conhece.
Uma e meia toca a campainha, quando abro a porta um taxista me entrega a minha carteira. Confiro e percebo que não falta nada dentro da carteira, pago o valor da corrida e agradeço a gentileza. Quando vou me sentar, sinto uma vontade de vomitar, corre até o banheiro e já sabe né! Três gorfadas e me sentia melhor. Lavo o rosto coloco uma camiseta e saio.
Vou até um restaurante bem sem-vergonha, mas a comida é boa, a garçonete já me conhecia de vista, e eu nunca tinha reparado nela. Sorridente ela me pergunta como foi a festa, disse que não me lembrava. Ela olhou bem nos meus olhos e disse, "mas é claro que não lembra, não sei o que você queria provar tomando uma garrafa de tequila de uma vez", a garota do restaurante falou me recriminando.
Pergunto a ela, como é que ela sabe disso, ao mesmo tempo as lembranças vão voltando, era óbvio que a garota estava no mesmo lugar que eu. Ela contou que estava com as amigas mas que não era muito de sair. "Reconheci você, mas quando fui falar contigo já era tarde. Você estava no meio de garrafa de tequila que parecia uma mamadeira. Você deveria se cuidar mais" disse ainda me olhando nos olhos.
Mal consegui comer direito, estava me sentindo debilitado, só belisquei um pedaço de frango e um pouco de arroz branco. Quando ia saindo a garota disse que eu não precisava pagar nada, que eu tinha crédito com ela ainda. Não entendi direito, e fiz questão de pagar, mas ela insistiu. Então perguntei a ela porque tinha crédito com ela. "Você me ajudou e ainda me ofereceu carona no mesmo taxi que você. Por falar nisso o taxista devolveu sua carteira.? Ele foi até minha casa devolver, ai disse que você morava aqui em frente. Aproveitei e vim para o trabalho" contou a mocinha, que já estava sentada ao meu lado.
Chego em casa e desabo no sofá, do jeito que cai dormi, algum tempo depois a campainha toca novamente. Era a garota do restaurante, ela queria saber se eu estava bem. Disse para ela se sentar, conversamos um pouco. Já me sentia melhor, de repente ela se levanta vai até o meu quarto e debaixo da camisa que eu usei na noite anterior ela tira uma bolsa e diz; "sabia que tinha deixado aqui!"
Ela pegou a bolsa me deu um beijo e saiu.
Série NR - Cláudio e Cláudia
Na manhã seguinte, durante o café, Cláudio e Cláudia se conheceram. Desde o começo ela se insinuou, mesmo com o marido por perto. Cláudio, agradecido, queria distância.
Mas ela insistia.
Dizia para o Maneco convidar Cláudio e Suelen para jantares, almoços, churrascos. Chegou ao ponto de ligar para Cláudio durante a tarde, mesmo sabendo que ele e Maneco sentavam-se lado a lado na firma. Depois de tanta insistência, Cláudio cedeu.
Combinaram de se encontrar, às 17h, num parque afastado do centro. Ele disse que ia jogar bola, ela, num chá de bebê.
Nem conversaram. Cláudia beijou Cláudio. Cláudio possuiu Cláudia. Enfim, os dois corpos viraram um só, ali mesmo, no parque.
Cláudio voltou pra casa desnorteado. Cláudia, satisfeita.
O Traído
Os dias seguintes foram de confusão para Cláudio. Via o amigo e a mulher com dor na consciência.
Além disso, não se encontrou mais com Cláudia. Ela já não ligava nem convidava para almoçar.
Suelen nada sabia e Maneco ainda era o mesmo amigo de antes. Mas eles eram traídos, Cláudio tinha pena.
Numa crise de remorso, chamou Maneco num canto:
- Tua mulher te trai. – Largou, indiscriminadamente.
Maneco, sem demonstrar interesse:
- Ora...
- Não ligas? Não queres saber quem foi?
- Não.
Inconformado:
- Mas e se foi um amigo teu? Não queres matar o desgraçado?
- Pouco me importa.- diz Maneco, friamente.
- Fui eu Maneco! Foi comigo que tua mulher te traiu!
- Não tem problema.
E, súbito, uma paulada corta o ar. Maneco agora jaz ao lado do máquina de fax.
Cláudio não pôde suportar tamanha indiferença.
Série NR - O Sarcasmo
- Neném quer papinha? Ah guti-guti-guti... – daquele jeito que só mãe sabe fazer.
- Não. Quéio buchada de bode com muita pimenta.
Quando conheceu Marina, uma pequena de modos e beleza invejáveis, estava usando uma camisa do São Paulo.
- Torces para o tricolor? – Perguntou, ingênua.
- Não.Esta é a última moda em Milão.
Ela, meio sádica, gostou daquilo, e começou a se insinuar. O problema é que Rogério, além de zombeteiro, tinha um orgulho que o fazia levar suas mentiras até o fim. Quando Marina disse "aceitas um sorvete?", ele largou, sem medir as conseqüências:
- Na verdade eu prefiro uma sopa. Gostas de canja?
E lá foram eles, sob um sol de 36ºC, na cantina da Jurema, pedir canja de galinha.
O fato é que passaram o dia inteiro juntos. Foram ao parque, ao cinema, à biblioteca. Marina o tempo todo agüentando respostas grosseiras – e adorando. Certa hora, Rogério encontrou uma vizinha:
- Conheces a rapariga? – de propósito, Marina provocou.
- Não. Eu costumo beijar e abraçar todo mundo que usa um Armani verde salto 12.
Lá pelas tantas, Rogério foi levar a moça em casa. Naquela última conversa, na escadaria do prédio, ela se ofereceu:
- Queres subir comigo? Podemos tomar um vinho e...
Ele interrompeu, e não mentiu, desta vez:
- Não!, você não faz meu tipo.
quarta-feira, 28 de março de 2007
A Cabeleira
Na adolescência era um rapaz de comportamento medíocre. Não respeitava ninguém, tratava todos com rispidez e acerbo. Mas mesmo assim tinha tudo que queria. Usava seu cabelo para, de alguma forma, conquistar a todos e satisfazer seus anseios.
Teve muitos amigos e namoradas, todos, claro, interessados em seu lindo cabelo. Mas Deodato não ligava. Sabia que qualquer um que o virasse as costas poderia facilmente ser trocado por outro, bastava que balançasse a cabeleira. A usava sem economia, ostentando aos quatro cantos aquilo que, como poucos, possuía.
Certa vez, lá pelos seus vinte e tantos anos, Deodato estava muito bem instalado na vida pública, graças ao sábio uso de suas características capilares. De repente algumas notas brotaram na imprensa questionando a autenticidade daquela cabeleira. Instalou-se, afinal, no Congresso Nacional, uma CPI com o intuito de apurar todas essas denúncias.
A "CPI da Barbearia", como ficou conhecida, procurou qualquer tratamento químico na cabeça de Deodato. Chapinha, escova, bobis, mega-hair, alisamento japonês, dread-locks. Nada. Cogitaram até escova de chocolate, mas o cabelo do réu era mais limpo que carteira de brasileiro. "Isso tudo veio do meu pai", dizia.
A Revelação
Deodato ficou velho e velho, sabe como é, começa pensar na vida. Ele passava as tardes na varanda pensando no que tinha feito durante a sua. Pensado se valeu a pena te usado a cabeleira para conseguir o que queria, se valia a pena as tantas namoradas que teve, mesmo sabendo que era só interesse no cabelo. Numa dessas tarde chegou a conclusão: sim, valeu.
Ele aproveitou tanto a vida que isso já bastava. Foram tantas festas, tantas viagens, tantos romances televisionados. Deodato era um sucesso. E ainda colecionava uma porção de amigos, acreditava. Para provar isso resolveu dar mais uma festa, de arromba, talvez a última de sua vida.
E convidou todo mundo que um dia tinha passado pela sua agenda. Milhares de pessoas compareceram. Artistas, militares, políticos, esportistas, enfim, todos. Alguns jornais até botaram uma foto da festa na capa. Não havia mais dúvida: Deodato era mesmo um sucesso. Por ironia, caiu doente no dia seguinte.
Perto do fim, Deodato chamou a enfermeira para perguntar onde estavam suas visitas, seus amigos. Tinha recebido, até então, dois ou três filhos e um ex-funcionário, talvez seu único verdadeiro amigo durante toda a vida. Já Júlio, "o careca do lado", tinha ganhado até coroa de flores da comunidade onde morava.
Ao ouvir a conversa, Júlio interpelou: "Olha, amigo. Percebi que aproveitaste bem tua vida. Mas existe um velho ditado que te cabes direitinho agora: 'Se queres saber quantos amigos tens, dê uma festa. Se queres descobrir a qualidade deles, fiques doente'". Dito isto, morreu.
Deodato, enfim, entendeu: o cabelo não é tudo nessa vida.
terça-feira, 27 de março de 2007
Dire Straits
Miltinho já havia discutido com o chefe por tê-lo colocado numa rota muito longa; com um motoqueiro, por quase levar seu retrovisor; e até com uma velhinha que custava a atravessar a rua. Ele já não via a hora daquele dia acabar.
Eis que surge um sinaleiro. Apenas mais um naquela rua aparentemente infinita. Miltinho pára e fica quieto, com cara de quem já não agüenta nem mais reclamar. Arruma o cabelo, enxuga o rosto e olha em volta. Nem acredita.
O destino, sempre ele, colocou a sua direita tinha uma loura, daquelas espetaculares, num Fiesta azul, cantarolando e batucando uma singela canção. Não se ouvia a música por a janela estar fechada – provavelmente por causa do ar condicionado, sortuda –, mas aquele batuque, um tum-tum-pá, tum-tum-pá na parte de baixo do volante, seguido de uma virada e dois tapinhas no console central, não deixava dúvidas: ela ouvia Dire Straits.
Mas, oh!, que maravilha. Uma loura quase escandinava, fabulosa, ali do lado, cantando Dire Straits, absorvida em seu momento. Miltinho estava apaixonado. De várias formas tentou chamar a atenção da moça. Gritou, buzinou, acenou, enfim, só faltou sair do carro e bater no vidro dela. Nada.
O sinaleiro abriu – agora era o "maldito sinal" – e Miltinho ficou pra trás. Ela arrancou primeiro e só deu tempo de ver o adesivo colado na traseira do Fiesta: "Ciências Ocultas – FACCUL".
A Caçada
Não era muita coisa, mas já tinha uma pista. Estudava na FACCUL, as Faculdades Avançadas das Ciências Ocultas (um erro de ortografia permitiu o uso do trocadilho), no curso mais concorrido do Câmpus. Mas agora precisava ir até lá para encontrá-la. Mas o que poderia ser entregue num lugar como aquele? Decidiu mudar para o setor de entregas gerais.
Era o setor mais sinistro da empresa. Na primeira semana, Miltinho já tinha entregado desde aqueles cabos em espiral para telefones até fraldas geriátricas a macacos velhos. Quis o destino, sempre ele, que um dia um carregamento de galinhas pretas chegasse até o pátio da empresa. Para sem entregue na FACCUL, que ironia. Miltinho se ofereceu para fazer o serviço. Era sua chance.
Nesse dia todos se espantaram com o capricho de Miltinho. Botou uma camisa florida nas cores da empresa, passou brilhantina nos cabelos e até comprou um sapato novo com o Garcia, o baiano que trazia produtos importados do "exterior". Ia, afinal, encontrar-se com Maria – nome que inventou para sustentar a mentira de que já tinha conversado com a "menina do Fiesta".
No Câmpus da FACCUL, Miltinho não teve trabalho. Os alunos se estapeavam na porta da van atrás do melhor exemplar de galinha preta que poderiam conseguir. Era o que nosso herói precisava. Com isso ganhou tempo para ir atrás de seu amor.
Partiu em busca de Maria como um rato atrás de queijo. Os alunos estavam apressados naquele dia, mal dava tempo de olhar-lhes nos olhos. Mas eis que de repente o destino, sempre ele, colocou Miltinho e Maria frente a frente, num esbarrão. Na hora de pedir desculpas, ele balbuciou algo como "caixa de papelão". Estava nervoso.
"O que eu vou falar pra ela agora, cacilda?", pensou. Nervosamente, tentou uma conversa:
– Oi-você-não-é-a-loira-que-tem-um-fiesta-azul-e-escuta-dire- straits-muito-prazer-Miltinho. – Falou, de uma vez só.
Ela, claro, não entendeu nada, mas foi muito gentil:
– Calma moço. Não entendi nada. Porque você não toma esta água?
– Caixa de papelão!, quer dizer, obrigado.
De um gole só, Miltinho acabou com a garrafa da menina. Pelo menos se acalmou:
– Oi. Então, olha só. Eu te vi, quinta-feira, antes do feriado, na rua Germânia, na frente do Walter's .
– Ah sim. Eu sempre passo por lá. Mas você me viu e daí?
– Ah, então, você escutava, e cantava, e batucava, uma música. Eu adoro. Só penso em você, desde então. Pensei que, sei lá, se você, talvez, não queria sair, no Walter's mesmo, pode ser, comigo, e tomar um suco, ou uma cerveja. Sei lá.
– Hum, você é engraçado. Acho que pode ser uma boa. Que tal hoje à noite?
– Fechado.
– As oito?
– As oito.
E lá foi Miltinho, distraído, assobiando Dire Straits, de volta para a empresa.
O Namoro
As oito em ponto estava Miltinho esperando na frente do Walter's, brilhantina no cabelo, camisa de gola rulê, e sapato novo. Nem sinal de Maria – "oh, esqueci de perguntar o nome dela". 8h05 e nada. Ainda não se configurava atraso, mas Miltinho começou a se preocupar. "Será que ela não vem? Acho que fui enganado, afinal nem combinamos direito. Como fui burro! Ah, vida ingrata".
Quando o relógio da torre em frente marcava 8h16, Miltinho resolveu entrar no bar. Sozinho, cabisbaixo, nem se importou de pagar o dez reais de entrada. Eis que, quando entra, o destino, sempre ele, prega outra peça em Miltinho. Lá estava ela, linda e loura, sentada no balcão, tomando alguma coisa, e procurando as horas no celular. De súbito ele recupera o ânimo, levanta os ombros e vai lhe falar:
– Oi.
Ela, com a cara de quem achou água em pedra no meio do deserto, quase gritou:
– Oi!...
– ...Miltinho...
– ...Miltinho! Achei que você não vinha.
– Pois é. Eu estava te esperando ali na frente. Também achei que você não vinha.
– Puxa vida, que mal entendido. Senta, puxa uma cadeira. Quer uma gin-tônica? Prazer, Lúcia.
Lúcia. Ela agora tinha um nome. Um nome e um sorriso por tê-lo visto. Parecia nervosa e tomava uma gin-tônica.
– Não, obrigado. – respondeu secamente.
Sentou e pediu um conhaque. Tinha agora o controle da situação, afinal era ela quem estava nervosa. "Não se pode confiar em quem toma gin-tônica", pensava ele. Mas, enfim, ninguém é perfeito e ele cedeu o fato da gin-tônica. Engataram uma conversa por cerca de dez minutos. Afim de começar um novo assunto, Miltinho começou a falar do dia em que a viu no carro cantarolando:
– E você fazia tum-tum-pá, tum-tum-pá assim no volante. Depois tinha uma virada e dois tapinhas no console central. Era lindo!
– Ah sim, eu lembro! Mas não era uma virada, era uma pausa. Eu tenho mania de fazer aquele movimento assim quando tem uma pausa.
– Uma pausa? Então você estava fazendo errado. Naquela hora é uma virada.
– Ora, claro que não. É uma pausa, eu tenho certeza.
– Como? Eu escuto Walk of Life desde criancinha. Tenho certeza que é uma virada.
– Walk of Life? Do Dire Straits? Ui, eu odeio Dire Straits! Eu estava ouvindo Love Leads To Madness, do Nazareth.
Então Miltinho se levantou e jogou os quatro reais do conhaque sobre a mesa. Saiu sem falar nada. Toma gin-tônica vá lá. Mas não gostar de Dire Straits era demais.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Série NR - O Conto do Vigário
Estava sempre com sua bicicleta e uma mochila velha e surrada. A bicicleta às vezes ficava em casa, mas a mochila era inseparável. Jamais fora visto sem ela pendurada nas costas. Fosse na igreja, na mercearia ou na praça, Vigário não tirava aquele trapo das costas. Nos primeiros seis meses, ninguém ligou para essa característica. Mas eis que um dia o Tibúrcio, o padeiro portuga, perguntou por que motivo ele carregava aquilo o tempo todo.
Depois disso a vila virou um pardieiro. Vigário pichou muros, ruas, quebrou vidraças, assaltou velhinhas, molestou crianças, chutou cachorros, mijou nos carros. Enfim, tocou o puteiro! O bairro todo virou num grande caos. De repente Vigário sumiu, não se sabe para onde nem por que motivo.
sexta-feira, 16 de março de 2007
Série NR - 5ªB
Estudava com Edilson, o Dilsinho, na 5ª série B do Colégio Padre Marcelo Turras. Não que fossem amigos, claro; apenas estavam na mesma turma. Dilsinho, ao contrário do outro, tinha muito respeito pelos colegas. Humilde e respeitados, não colecionava nenhum inimigo. Mas suas amizades também eram temporárias. Não que fosse chato, mas seus amigos, coitado, o esqueciam: ele passava o dia todo com a cara nos livros, estudando. Um perfeito CDF. Aquele típico estereotipo de futuro-dono-de-empresa.
Mas o futuro... Ah o futuro! Este sim é uma caixinha de surpresas. Dilsinho abriu uma firma promissora de comércio de pneus, com capital aberto. Começou lucrando horrores, criando filiais por todo o país e logo ficou conhecido no meio. Certo dia, na sua casa de Angra, apareceu morto, afinal. O assassino? Platão, agora famoso matador de aluguel. O mandante foi Zaôr, aquele ex-gordinho zoado da 5ªB.
quarta-feira, 14 de março de 2007
Capítulo 2
Mas assim que chegamos em Monterrey, fomos em busca de um lugar para ficar. Tínhamos ainda 340 dólares, pois o chicano da caminhonete nos cobrou trinta pratas de cada um, como agradecimento pela carona. Nos hospedamos em um cortiço como aquele do seriado do Chaves (Chavo del ocho por essas bandas). Uma kitinete de uns dez metros quadrados, e com paredes finas. Graças a isso toda vez que o visinho recebia a visita de sua afilhada, é o que ele dizia pelo menos, eu não conseguia dormir. E quando não dormia pelo menos seis horas, eu tinha um... Como posso dizer, eu tinha... Uma necessidade intensa em ficar piscando durante o dia todo. Isso irritava muito Clarisse.
Minhas crises de “piscadelas” duravam horas, mas para alegria de Chancho (o visinho) a afilhada veio passar as férias em Monterrey. E graças aquelas duas semanas, a minha crise de piscadelas fazem parte da minha vida. Mas coisas boas aconteceram em Monterrey também. Consegui um trabalho como professor de inglês para os coiotes. Eles acreditavam que teriam mais chances de conseguir trabalho na América falando o idioma deles. Não que tenha sido um sucesso total, mas ao final da nossa estada em Monterrey conseguimos algum dinheiro. O problema é que a vida não era de graça e parte dessa grana foi para nos mantermos em Monterrey.
O México é um lugar bacana, as pessoas são carinhosas. Alguns me chamavam de Gio, outros de Guio, quase nunca pelo meu nome verdadeiro Guiomar, Giomar Beltrame. Mas a história do meu nome fica para outra hora. Porque agora tenho que pensar em um lugar bem longe daqui para viver com minha amada Clarisse. Acabamos de encontrar um caminhoneiro, Ozório, que vai para o sul do México, ele se dispôs a nos dar uma carona até lá. Clarisse ficou um pouco preocupada com o tipão do Ozório e pediu para que eu tentasse não dormir durante a viagem. Fiz o que ela me pediu e fora à volta crise de piscadelas ainda ganhei um cacoete novo. O de levantar como e estivesse levando um susto a cada princípio de cochilo.Entre cochilos, sustos, noites em hotéis de menos duas estrelas chegamos em Acapulco. Pelo menos a praia é boa.
terça-feira, 13 de março de 2007
Série NR - Chef de Cuisine
Seus relacionamentos duravam no máximo dois anos. Sempre acabavam pelo mesmo motivo. Dilberto só gostava de garotas magrinhas, e na audiência do divórcio todas já pesavam mais de 90 kg. Dilberto cozinhava mesmo muito bem e odiava pessoas gordas. "Elas comem muito, não apreciam", dizia. Então separava-se.
Uma vez conheceu Verônica. Pele morena, estatura mediana, lábios carnudos e, principalmente, magérrima. Decidiu que seria ela sua próxima esposa. Uns dois jantares depois já estavam juntos, casados. Ao final do segundo ano, a mulher ainda ostentava aquele porte esguio de quando se conheceram. Dilberto se desesperou. No fundo, no fundo, gostava de se separar das "gordinhas". No aniversário de quatro anos de casado, Dilberto se matou na banheira da suíte.
Verônica tinha bulimia.
segunda-feira, 12 de março de 2007
Sexta, sábado e domingo
domingo, 11 de março de 2007
Série NR - Mulher de um Cara
Ela sabia que eu deixava de pegar o coletivo para ir junto com ela. Ficávamos naquele jogo de olhar, de sedução. Certo dia ela apareceu de mãos dadas com um cara. Aquilo me deixou a beira da depressão.
Dois dias depois, a malandra apareceu com outro rapaz. E assim foi, um cara diferente por semana. Até que numa manhã chuvosa de terça-feira oferecia ela uma carona no meu guarda-chuva. Gabi. Gabi foi como ela se apresentou. Fiquei confiante e a chamei para sair. Fiquei puto. Ela me disse que era casada e que o marido me conhecia.
Ela só saía com estranhos.
Série NR - O enteado
sábado, 10 de março de 2007
Série NR - Casal 20
Para provar, todos os domingos saiam de mãos dadas pelos parques da cidade, comendo da mesma pipoca e desenhando coraçõezinhos nas árvores, bancos e postes. "Marinho e Dirce, para sempre", escreviam.
Certo dia, durante uma janta, resolveram conversar:
- Porque me traes? – disparou Dirce.
- Ora... Já faz tanto tempo! Você sempre soube, tua mãe sempre soube, seu irmão sempre soube. Porque vens me perguntar isso logo agora? Além do que você também me trai. – Respondeu Mário.
- Eu sei! Mas eu ainda estou com o Fábio da Jurema. Já você largou da minha prima para se atracar com aquela vaca da marcinha.
- Opa, opa! Olha lá como você fala da Marcinha. Ela é muito boa para mim. Deixe-a fora disso.
- Falo como eu quiser! Você só podia ficar com a Luana. Pensei que tínhamos um acordo.
- Acordo o catzo! E eu sempre odiei aquele Fábio. Só deixei porque achei que voltavas sempre feliz da casa dele.
- Já chega Marinho. Vamos parar por aqui.
E a noite, de fato, acabou ali, bem em cima da mesa, entre uma panela de lentilha e um prato de angu.
sexta-feira, 9 de março de 2007
Série NR - Beatíssima
Mas Carlinha não estava aberta a novos relacionamentos. Na flor da adolescência, com seus 17, 18 anos, foi obrigada a decidir o que faria da vida: ou se casava ou estudava para ser freira. Por influência das suas primas Marlúcia e Santinha, mais velhas, solteironas e feias como o diabo, decidiu-se pelo caminho religioso.
Dias depois foi encontrada morta no banheiro do seu quarto. Suicidou-se com o estilete que usava para abrir a embalagem do vibrador que acabara de comprar.
terça-feira, 20 de fevereiro de 2007
É melhor ser alegre que ser triste
Certo dia Duílio estava numa roda de amigos depois do trabalho e apareceu uma senhorita que agradava os olhares de todos. Os homens do bar ficavam hipnotizados com a beleza da beldade que passava entre as mesas. As mulheres procuravam algum defeito, sabe como é né! Ela encontrou um grupo de amigas que a aguardava numa mesa próxima.
Na mesa de Duílio e seus amigos a pauta da conversa foi a gata da mesa 8. Um dos colegas de Duílio o desafiou: Duvido que você passe um xaveco na gata! Sem deixar a peteca cair Duílio nosso herói , aceita o desafio. Duílio malandro que é, foi até a mesa das garotas e fez das suas. Contou uma piada, fez uma brincadeirinha aqui e outra acolá e conseguiu o telefone da garota pretendida.
Porém, sempre tem um porém, a garota ao sair do bar foi até a mesa de Duílio e seus amigos, aproximou-se e disse: Duílio meu lindo, por deixar para me ligar depois, vamos dar uma volta agoara mesmo! Ele responde na bucha: Só se for agora!
E fanfarrão que é fanfarrão não perde a oportunidade, e Duílio não deixou por menos. Levantou na mesma hora e falou para o amigo desafiante que pagasse a parte dele da conta. E saiu com o mulherio.
Foram para a casa da moça e sabe como é né. Como diria o ícone da MPB Mc Catra “o bagulho é sério/ vai rolar um adultério/ tara tatara taratara tatara taratara” . E rolou mesmo. Duílio era um cara hábil com as palavras e sempre arrumava as melhores desculpas para a sua esposa. No dia seguinte ele percebeu que a garota tinha passado um telefone que não era dela. (malandra não!?)
Mas a vida é uma caixinha de surpresas, certo dia Duílio teve um piripaque no trabalho e teve que ser internado. Eram os efeitos da boemia e farras aparecendo aos trinta e poucos. Teve que fazer exames e tals, ele estava na cama meio que dormindo e ouviu o médico comentar com a enfermeira que ele estava com AIDS.
Aquilo foi um tiro no coração do fuleiro, ele queria sumir. Lembrou-se da garota do bar e não se perdoou. Ele que sempre foi um ícone nas desculpas mais estroboscópicas (lembrei do strogonoficamente sensível hahaha), como ele iria avisar a esposa que estava contaminado. E que possivelmente ela também estaria contaminada.
Ao receber alta do hospital Duílio voltou para casa e notou que os médicos não disseram nada sobre o fato dele ser soropositivo, apenas ereceitou um caminhão de remédios e uma dieta. O que deixou Duílio boladão. Dias se pasaram e ele não copnsegui falar com a esposa e nem mesmo teve coragem de olhar para os exames. O de sangue então, quase enfartava só de pensar.
Eu já disse que a vida é uma caixinha de surpresas, pois então. Uma semana após a alta do hospital ele volta ao trabalho. Nem parecia o mesmo, tentava mas não conseguia fazer as piadas e brincadeiras de outrora. Até um dia resolveu ir falar com o médico que fez o seu tratamento hospitalar.
_ Doutor! Preciso que você me diga uma coisa, quanto tempo de vida eu tenho, se minha esposa vai sofrer muito, se existe cura para isso?
_ Cura não tem, mas se você seguir o tratamento corretamente pode viver normalmente, mas sem exageros.
_ Po Doutor, mas e aqueles remédios. É aquele tal coquetel que as pessoas soropositivas tomam?
_ Soropositivas!?
_ É doutor, que tem AIDS toma isso não toma?
_ Aqueles que estão infectados com o HIV sim, mas os diabéticos não.
_ Diabético!?
_ O que foi, vai dizer que você acha que o tratamento é o mesmo?
_ Sabe o que é doutor. É que quando eu estava no hospital, teve um dia que eu o ouvi dizendo para uma enfermeira que eu era aidético.
_ Não eu disse, diabético!
_ Uhuuuu eu sou diabético. Diabético hahahaha... Doutor salvou minha vida.
Fim
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Capítulo 01
O ano era 1978 e estávamos de férias no sul dos Estados Unidos. Férias é modo de dizer. Éramos dois desempregados cheios de idéias na cabeça e nenhum dinheiro no bolso. Só queríamos diversão e era somente o que conseguíamos. Apenas com a cara e a coragem, tínhamos passado por Forth Worth e Dallas. Compravamos as passagens com o dinheiro dos bicos em lava-carros, sex-shops e lanchonetes. De carona em um Ford F400 1966, o caminhão de Barry Bouani (ou Big Bear, como se apresentava), chegamos até a metade da Route 45. "BB" nos deixou na estação que, dizia ele, passava um trem velho em direção ao México, com parada nos arredores de Houston. Feito para imigrantes, custava meros 13 dólares. Clarissa e eu nos empolgamos com a possibilidade de mudar de ares. A sede do Condado de Harris tinha o maior aeroporto da região, e os 400 dólares que tínhamos guardados dava pra voar até Iowa ou Wisconsin.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Salve Nelson, o Rodrigues
Para essas minhas tão comentadas férias, fiz questão de comprar esse livro. "A Vida Como Ela É" é simplesmente fantástico! Contribuiu com 60% do meu processo de perda de identidade. Neson Rodrigues conta histórias que parecem ter sido tiradas das conversas com o velho tio Joel ou com o falecido Biso. São tão reais, palpáveis, que você parece interagir com cada personagem; chega a ter pena do mocinho traído e raiva do vilão coadjuvante. Nada melhor do que a realidade de terceiros para te fazer pensar melhor na sua.
Foi o que me fez cogitar que o tal "crítico literário" não consegue aceitar a realidade em que vive. Com o perdão do trocadilho, não consegue aceitar a vida como ela é. Cheia de sexo, intrigas, gambiarras, traições, paixões, malandragem, brigas, a vida é uma mistura de emoções. Nelson Rodrigues foi inocente o suficiente para transcrever com fidelidade o que acontecia a sua volta. Contava como um amigo pelo telefone o óbvio ululante que podia estar se passando no apartamento do lado, sem fantasiar, como tantos outros escritores realistas de seu tempo.
Amante do futebol, por um tragédia do destino torcedor do Fluminense (o Fla-Flu é o que é por causa dele e do seu irmão, o jornalista Mário Filho, agora Maracanã), dizia que "o mal da literatura brasileira é que nenhum escritor sabe bater um escanteio".
Ele sabia.
domingo, 11 de fevereiro de 2007
Tudo igual no ano-novo
Quando saí de férias, uma das propostas-para-mim-mesmo, aqueles juramentos que não podem nem devem ser quebrados, era usar o tempo que eu teria disponível para repensar a minha vida. Repensar o que eu tenho feito de interessante e o que ainda tenho por fazer. Eu esperava descobrir quem sou para ter idéia do que poderia vir a ser.
Pelo menos para poeta agora descobri que sirvo.
Logo eu, outrora sagaz, vindo de tão longe, preparado por tantas combinações, por tantos gestos extintos. Estou desaparecendo pouco a pouco, dando espaço para novas combinações e outros gestos. Outros ataques, réplicas, reviravoltas da sorte... Enfim, uma quantidade pequena de aventuras.
Estou emocionado, sinto meu corpo como uma máquina de precisão em repouso. Posso dizer que tive verdadeiras aventuras. Não recordo seus detalhes, mas percebo o encadeamento rigoroso das circunstâncias. Atravessei mares, deixei cidades para trás e subi rios, ou então me embrenhei em florestas, sempre me dirigindo a outras cidades. Tive mulheres, me meti em brigas; e nunca podia voltar atrás, como um disco que não pode girar ao contrário.
E tudo isso me leva aonde? A esse minuto, a essa cadeira, a essa bolha de claridade zoante de música.
Ando mentindo muito para mim mesmo. Minha vida nada tem de muito brilhante. Eu imaginava que em determinado momento da minha carreira na Terra poderia assumir uma qualidade rara e preciosa. Tenho vivido como um aposentado lobo dos mares, se mantendo firme graças as suas histórias. Quando toca alguma música nos lugares que frenquento, me transporto ao passado, evoco aventuras que de fato vivi, mas em outras épocas, em outras circunstâncias. Aventuras que não voltam mais.
As aventuras estão nos livros. Menti pra mim mesmo durante os últimos 19 anos. Tudo o que se conta nos livros pode acontecer realmente, mas nunca da mesma maneira.
Pobre de mim. E pobre de vocês, os que lêem essas coisas.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
Revolta às aulas: barbaridade!
Aquele misto de sal e areia no olhos prejudicou minha visão. O excesso de cerveja na cabeça diluiu toda minha capacidade de entedimento das coisas. A mistura frenética de churros, milho verde, coco gelado e mais churros destruiu todo o meu aparelho digestivo. Realmente estou a ponto de ir pra vala.
O que mais me preocupa é que ganhei uma crise de identidade em janeiro. O tempo que fiquei somente com a minha família, sem contato com amigos boêmios e bagunceiros, me serviu para o "autoconhecimento de si mesmo", como disse o loura Grazi Massafera dias desses. As intermináveis horas que eu passava sozinho, seja lendo, jogando winning ou olhando para o teto, serviram para pensar na porcaria que eu estou me tornando. Não cheguei a conclusão nenhuma.
Agora, em Curitiba, de volta a 50% da vida normal, eu olho no espelho e não vejo nada. Sequer uma forma humana para ficar contamplando e procurando cravos. Já não sou mais aquele que conhecia e não sei o que virá depois. Medo! Meu irmão e minha mãe dizem que é a barba, não sei.
Enfim, feliz 2007; ele está chegando. É logo ali, depois do carnaval.
domingo, 14 de janeiro de 2007
Aguardem
Vaos dar seguimento ao 'DoisCopos'.
Aguardem...
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
Infidelidade
- Ô boba, não tem perigo nenhum!
quarta-feira, 6 de dezembro de 2006
Qual é a música
“Eu fico pelado no quarto vendo a sua foto...” Wander Wildner
Ta bom, ta bom! Não fico pelado, mas eu costumo olhar a sua foto nos meus momentos solitários que eu fico sozinho comigo mesmo. Olho mesmo, por quê vai encarar!?
“Não vou me adaptar” Nando Reis
Camaleão só aquele inimigo do Homem-Aranha que apanhou da Mary Jane. Que otário!
“ Eu que já não quero mais, ser um vencedor. Junto as mãos ao meu redor. Faço o melhor que sou capaz...” Los Hermanos
Querer ser o melhor é cansativo, só irei pensar ser o melhor, quando isso realmente importar para mim mesmo. Vou ser eu mesmo. O melhor eu possível. Sem culpa menhuma!
“Apesar de você. Amanhã há de ser outro dia” Chico Buarque
Não há mal que sempre dure, nem bem que nuca acabe. E é vida que segue.
Alguém tem alguma outra sugestão?
terça-feira, 5 de dezembro de 2006
Não apague a luz
De que valeram todas aquelas noites sem dormir? E todos aqueles telefonemas? Será que de nada valeram? Você vai me deixar assim, de repente... sem aviso! Simplesmente acabou, tchau, fui?
Eu quero você, será que não entende? Eu preciso de você! Para onde mais eu vou correr quando a noite estiver vazia e cinzenta? Preciso de você aqui, me envolvendo. Só com você eu sou feliz. Sem você meu sorriso não funciona mais.
Preciso de você para poder apreciar a lua. Preciso de você para poder escutar boas músicas. Preciso de você para ter conversas inteligentes sobre o universo, a política ou sobre nada.
Ao seu lado eu fazia serenatas. Ao seu lado eu fazia recitais. Ao seu lado eu fazia tudo, ou não fazia nada. Pouco importa. O tempo bom que estivemos juntos não pode acabar. Todo aqueles jantares, aqueles saraus, aquelas dançatas. Volta. Estou sozinho precisando de você.
Barroca, sem você meu sorriso não funciona mais.
E tenho dito.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2006
Saudosa Barroca
Dia 01 de dezembro de 2006, o líder da autoridade Palestina e o primeiro ministro de Israel se reunem para selar um acordo de paz. Há anos o mundo esperava por esse momento, um dos conflitos mais sangrentos do Oriente Médio está com os dias contados. Quando de repente assessores dos dois chefes de Estado educadamente entram, cochicham ao pé do ouvido com cada um deles. O palestino e o israelita juntos dizem que a reunião deveria ser adianda. Todos ficaram se perguntando o que estava acontecendo, o que os assessores disseram a eles.
Dia 01 de dezembro de 2006, cientistas prestes a estabilizar um novo combustível que substituirá o petróleo e ainda não poluiria o meio ambiente. É uma operação delicada os cientistas etão exaustos e concentrtados. Qualquer distração pode acabar com o trabalho de anos. Segundo fontes confiáveis do mundo científico em caso de falha, o projeto não poderá ser reiniciado, seria necessário outra pesquisa começando tudo do zero. O Dr. Spirolaw*, químico responsável pela pesquisa recebe um comunicado em seu ‘bip’. Depois de ler a mensagem Spirolaw da um soco na mesa, acabando com todo o projeto que mudaria o mundo paraa sempre. Claramente abatido psicologicamente depois do que ficou sabendo sai sem dar explicações sobre o conteúdo da mensagem.
Dia 01 de dezembro de 2006, o motivo de todo esses acontecimentos está em Curitiba. No bairro Campina do Siqueira em frente ‘Aquela Casa na Esquina’, pertinho da Pegeout o ‘bar e lanches’ mais legal do Brasil nos da uma triste notícia:
O Barroca vai fechar!
*Também não tenho idéia de quem seja o Dr. Spirolaw!
quinta-feira, 30 de novembro de 2006
Marrom Glacê
Eis que vejo, numa das tantas ruas com sobrenome Geronazzo, um senhor andarilho. Um velho bem velhinho, já corcunda, coitado. Ele estava sujo e visivelmente fedido. Parecia acabado, exausto, mas não parava com suas andanças. Usava um chapéu marrom à la Ventania, uma calça djeãns surrada (marrom) e um chinelo de pneu . A camiseta estava tão suja e velha que parecia marrom. A pele dele era marrom. Os cabelos marrons. Era tão melancólico que sua alma, com certeza, era marrom.
Pensei em conversar com ele, mas não é muito bom abordar transeuntes introspectivos – muitos deles encontraram o sentido da vida, a verdade absoluta, e enlouqueceram (ou desenlouqueceram, sei lá). Ele andava com o olhar fixo no chão, como que se guiando apenas pelas linhas das bordas das ruas. Nada o fazia parar ou desviar sua atenção. Nem os carros que passavam buzinando, nem os ciclistas que invariavelmente o xingavam por não sair da frente. Quando ele passava por pedestres, estes o olhavam com cara de desdém, até um certo nojo. Parecia bêbado, mas de fato estava muito fedido.
Numa subida, o velho dobrou o corpo de tal forma que parecia querer beijar o chão. Se equilibrou e seguiu em direção ao topo. Eu, veloz e atleta que sou, dei um gás para esperá-lo lá em cima. Com a bike devidamente estacionada e duas garrafinhas de água depois, vinha chegando meu amigo transeunte. Estava eu agora decidido a abordá-lo, perguntar quem era e se precisava de alguma ajuda. Já esperava que ele me pedisse dinheiro para uma passagem de volta, ou de ida, pra algum lugar. Ou mesmo uma moeda pra pinguinha.
Mas nem deu tempo. A uns 50 metros de mim tinha uma escola e, naquele exato instante em que o velho se aproximava, foi dado o sinal de fim da aula. Depois daquela dispersão das crianças, ficaram os, hã, jovens do ensino médio naquele conversê pós-aula. Uns deles, malandrões, se juntaram para, com certeza, zoar com o moribundo. De repente o velho parou, estacou, pa-ra-li-sou de fronte ao colégio. Examinou cada janela, cada porta, cada graminha. Parecia um louco tendo uma crise de excentricidade. A piazada até desistiu da zoação e foram todos embora.
A rua esvaziou. Ficamos só nós, eu e o transeunte (ainda olhando para a fachada da escola), naquela imensa ladeira agora deserta. Decidi que chegara a hora de puxar um papo. Quando cheguei perto, o velho se virou e me olhou como fizera com a escola. Examinou cada parte do meu corpo, cada ruga da minha testa. Fiquei sem ação, assustado. Até que ele tirou a mochila, marrom, das costas e se pôs a procurar algo. Juro que nessa hora pensei em fugir, mas ele tinha serenidade no rosto. Um quê de necessidade.
Tirou uma foto velha, amarelada e com as bordas comidas pelo tempo. Me esticou com a mão tremendo, ansiosa. Olhando para aquela figura, de pronto reconheci a escola. Aquela, ali, na nossa frente. Era um foto daquelas de formatura. A gurizada pulando uma sobre as outras, sorrindo por terminar o colegial. O velho me apontou um rapaz franzino, no canto, com seus 30 e poucos anos e sendo ovacionado pelos alunos. De óculos e pasta na mão, definitivamente era o professor, e aquele mais querido pela turma. Então ele apontou para o peito. Apontava o peito e a foto como quem diz: "este sou eu".
Ele pegou a foto de volta e guardou na mochila. Botou ela nas costas e se virou, cambaleando. Saiu andando mais cabisbaixo do que quando chegou. Muito mais bêbado. Muito mais marrom.
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
E o Coletivo levou
Cabelo comprido meio ruivo acastanhado, ou algo parecido, vestido marrom claro e um jeitinho que me fez não ver mais ninguém que passava pela rua. Ela segurava uma pasta e plástico em uma mão e na outra um guarda-chuva (Curitiba é uma ‘beleza’), parecia que estava esperando alguém (marido, colega de trabalho, chefe, irmão, mãe, sogra ou sei lá quem). A cada carro que dava seta para a direita, achava que iria pega-la. Mas os carros passavam e nenhum era o que ela esperava.
A ruiva acastanhada dava uma voltinhas em torno dela mesma, demonstrando certa impaciência. Fazia isso com um jeito tão delicado, como se fosse para mim. Nesse momento achei que ela dava aquelas voltinhas para mim mesmo. Minha cabeça é meio doida. Comecei a criar uns dialogos, como se eu estivesse lá com ela.
_Oi!
_Oi!
_Calor né!?
_É
Mas não comecegui pensar em nada interessante. Um coletivo azul da OAB para ela entra, vai embora e nem mais uma voltinha daquelas. Saio da janela cinco minutos depois nem lembro direito de como começou isso. Mais tarde fico pensando qual será a próxima vítima do meu olhar perdigueiro.
Constelação
Eis que surge uma estrela no céu.
Não uma estrela qualquer, como todas as outras. Uma estrela especial.
De tão especial, ela brilha o dia inteiro; faça chuva, faça sol.
E de noite brilha. Bem mais do que as outras.
Você quer dormir, ela não deixa: está sempre acesa, incomoda os olhos.
Durante o dia lá está ela, pairando sua cabeça. Aquela sensação de estar sendo vigiado.
O dia todo a lhe acompanhar.
Não quer mais gostar dela. Ela é irritante!
Mas como?
Beleza igual nunca se viu. Tem uma ubíquidade ao mesmo tempo assustadora e reconfortante.
Já está acostumado com sua luz.
Precisa viver sem ela, mas não quer.
Quer viver sem ela, mas não pode.
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Páginas da Vida
Já no começo fiquei impressionado. Nunca tinha percebido aquela rua por estas bandas. Quantos neons, quanto colorido. As pessoas davam risadas altas e o clima era de festa. Até me animei para dar uma esticadinha na noite. Parei o carro na primeira vaga disponível. Afobado , eu.
O cara já chegou pedindo "cincão pra dar uma olhadinha". Empolgado, dei; afinal a noite ia acabar muito bem, diferente de como começou. Eu já ouvia os batuques, os acordes, a gritaria. Visualizava tudo aquilo, imaginava como ia ser bom. Esqueceria das preocupações e ia apenas dar risadas. Ah... que sabor! Quanta euforia.
Entrei na primeira fila que me apareceu. Já comecei a dançar, beber, conversar. As pessoas eram simpáticas, a bebida gelada. Música boa, clima ideal. Tudo muito perfeito para ser verdade. Aí que tá: fui confundido, com certeza, com algum encrenqueiro que vivia por lá. Me escorraçaram e que eu nunca mais voltasse! Saí da fila totalmente atordoado.
Peguei o carro e segui meu caminho. Segui pela mesma rua. Devia ter feito meia volta e ido pelo caminho certo, mas não tinha nem organizado as idéias ainda. Eis que me surge outra chance, mais uma esperança. Vaga, "cincão", fila. Agora ia dar certo. Era mais uma tentativa, e agora tudo parecia tão mais organizado, tão mais favorável. Mas não. O encrenqueiro devia ser muito assíduo por ali – e deveras parecido comigo. Saí chutado, mais uma vez.
Agora cá estou, nas lamúrias de uma noite mal sucedida. Uma noite que parece não ter mais fim. Que insiste em voltar ao meu pensamento a cada fechar de olhos. Que ao mesmo tempo foi tão boa e tão ruim para minha pessoa. Foi passageira, cara, desgastante. Inesquecível. O pior é que fica perto de casa: vejo as luzes da janela do meu quarto; fecho os olhos e ouço a música; concentrando até lembro do cheiro. Inesquecível.
E tenho dito.
terça-feira, 14 de novembro de 2006
Anarco-punk Psicodélico
Sonhando com um mundo onde todas as pessoas seriam felizes fazendo o que querem, do jeito que querem.
Onde tudo é de todos e, bem, todos podem tudo.
Uma terra sem leis, sem governo, sem impostos, sem bandidos.
Aquela velha e boa utopia.
Mas esse meu sonho é um sonho de sonhador. Maluco que sou, tive de formular conjecturas.
Confesso que fiquei assustado.
E desisti.
Imagina esse mundo. Todos podem fazer o que quiser.
Tá certo que o que é proibido é mais gostoso - e lá nada seria proibido -, mas não se pode dar liberdade assim pro ser humano.
Coitadas das florestas e dos rios. Aquelas devastadas; estes, poluídos.
E quem trabalharia?
Eu que não.
E os caras pegadores? Numa terra sem leis, todas as morenas mais belas seriam deles.
Uh!
Anarquia seria lindo se assim fosse desde o começo. Desde o primeiro macaco evoluído (?).
Ainda é melhor sonhar com um mundo politizado reformado do que um mundo livre.
Um mundo livre s/a.
E tenho dito.
sexta-feira, 10 de novembro de 2006
O segredo da vida
Nada mais enfadonho do que conversar com um cara certinho, politicamente correto. Daqueles que nunca passaram um trote ou fingiram febre para matar aula. Essa pessoas não têm segredos. São mapeáveis, previsíveis. São como ônibus novos, que acabaram de entrar na linha. No começo são legais, mas com o tempo ficam infinitamente entediantes como todos os antigos. Não há nada a aprender com quem nunca se arriscou.
Todos precisam de segredos. Aquelas pessoas extremamente educadas ou forçadamente simpáticas não são encantadoras. Só a imprevisibilidade é capaz de cativar. O que faz nascer um certo feitiço é justamente a falta de obviedade. Quando se sai para velejar, espera-se algumas ondas. Mar muito calmo só serve para dormir.
A curiosidade é natural do ser humano. Ter tudo de mão beijada perde a graça, facilita as coisas. Amamos o desconhecido de um jeito tão fascinante quanto arriscado - por isso anda-se de kart, escala-se montanhas, faz-se excursão para a Namíbia, come-se fora de casa. São tentativas de conhecer novos temperos que despertem o paladar. Tentativas de atingir aquele ponto na mente até então adormecido.
A atração pelo desconhecido nos faz buscar o indomável. Ninguém quer a garotinha que se entrega totalmente logo de início. O bom mesmo é aquela mulher secreta, fechada, que "nunca te dará bola". Elas fazem com que a imaginação vá às alturas nas suposições das respostas para os seus segredos. Taí o porque Paola Oliveira é apenas mais um esquecível rostinho lindo e Juliana Paes segue como uma semideusa conturbada (e conturbante).
Ter segredos é o efeito de viver intensamente. Tenha saldo negativo um dia. Paquere a moça do caixa. Xingue o bandeirinha deliberadamente - xaveque se for a Márcia Regina. Viva a vida. Se arrisque, porque quem não arrisca não vive. O tempo é sagrado e usufrua dele com paixão. Apenas caminhe lentamente sobre os dias, sem deixar pegadas, rumo à noite, à morte. Morte, esta, que talvez seja o segredo desta vida.
quinta-feira, 9 de novembro de 2006
Provocações
Eles se intitulam técnicos das seleções e falam com os jogadores como se realmente pudessem ser ouvidos e mais ainda, que ao ouvirem os jogadores poderiam ser movidos sem o auxilio do controle.
A primeira allfinetada vem do técnico “nigeriano”: -Hummmm esse Seaman, não sei não hein, com esse bigodinho e o rabinho de cavalo. – e cai na risada depois de terminar seu comentário. O técnico “inglês” faz pouco caso e faz de conta que não ouviu.
Começa o jogo a saída de bola é dos ingleses. Beckham adiantado no ataque e Owen dão os primiros toques na bola.
A saída de bola inglesa é manjada, Beckham toca para Owen que rola para Gerrard que vai até a lateral esquerda e lança Owen na corrida. Dito e feito a bola chega ao ataque inglês sem que os nigerianos toquem na bola. O goleiro Hufai sai na bola e Owen toca na saida do goleiro. 1x 0 Inglaterra, um cara ai, o técnico ”inglês” lança sua primeira piadinha contra os nigerianos.
“Nossa acho que eles não comeram nada antes do jogo, talvez já faça algum tempo que eles não comem. Não agüentam nem correr! Sem falar que eles viajaram de jangada até chegar aqui!” cutuca (no bom sentido) o “inglês.
Apesar do jogo ter começado com gol no primeiro lance, o primeiro tempo termina um a zero mesmo.
O técnico “inglês” provoca durante o intervalo para o segundo tempo.“Ééééé amigo a seleção inglesa domina o adversário, os nigerianos por algum motivo não conseguem fazer uma jogada dedente. E qual seria o motivo falat de vitaminas, fome ou o casaço pela viajem de jangada da África à Europa???” comenta o irônico técnico.
Começa a segunda etapa, o time nigeriano faz duas alterações e muda de esquema tático. Enquanto o time inglês é o mesmo que terminou o primeiro tempo.
Aos quinze do segundo tempo, alegria em verde e branco. O atacante Kanu aproveita o vacilo de Ferdinand e toca tranqüilo para o fundo do gol de David Seaman. O técnico “nigeriano” solta a lingüa e larga o verbo. “Toma bando de playboy, Kanuuuuuuuu! Golaço-aço-aço... mas que golaço. Seaman e seu bigodinho nem viram a cor da bola hahahaha...”
O jogo segue tenso chances dos dois lados, o técnico “inglês” parece mais concentrado, já o “nigeriano” é só sorriso e vai falando.
“Uhhhhhhhhh por cima do gol! Kanu quase que vira a partida. A Nigéria vai pondo a inglaterra na roda...” alfinetava o nigeriano, que a essa altura já conseguia irritar seu adversário. O jogo fica violento, Paul Scholles é expulso após uma seqüência de carrinhos maldosos, na tentativa de tirar os atacantes nigerianos do jogo.
E segue a provocação do treinador “nigeriano”. “Quareeeeeeeeenta minutos do segundo tempo. Será que teremos prorrogação!? Só da Nigéria no jogo, é uma injustiça o esse placar.” O técnico inglês retruca. “Mas como fala o Falastrão técnico da Malásia (como costumava chamar a Nigéria propositalmente)” o treinador da Nigéria sentiu o golpe, ele não imaginava que com uma frase seu amigo poderia desfazer a pressão psicológica que ele tentava impor.
Porém após um escanteio mal cobrado, Gerrard rouba a bola na entrada da área inglesa passa por um nigeriano e antes que outro chegue perto ele lança Owen que entra sozinho e faz o segundo gol inglês e decreta a vitória inglesa. O troco das provocações do treinador inglês vem logo após o apito final. “Triunfa a Nobreza! Deu a lógica! O futebol sério venceu. O time da Malásia volta desolado e ainda com fome.” Esbraveja o “inglês”.
O sarro final foi o que viria com o tempo ser o tradicional canto da vitória dos ingleses sobre a ‘Malásia’. “Volta de jangada Ô Ôôôô!!! Volta de jangada Ô Ôôôô!!!”
*Eu até acho que seria ético eu escrever de um jogo que eu não ganhei também. Mas para o bem do meu ego eu deixei para depois.
**Deicado aos meus amigos Joel (‘ex-Malasiano’ atualmente Holandês) e Rodrigo (treinador “argentino” e do resto do mundo), relembrando os clássicos mais emocionantes dedes o Campeonato japonês do Playstation até os WinningEleven recentes.
Para ler ouvindo 'o telefone tocou novamente'
Um cara ai: Oi tudo bem?
Ela: Quem está falando?
Um cara ai: Sou eu.
Ela: Ahhhh! Nossa nem tinha reconhecido a sua voz.
Um cara ai: Hehe...
Ela: Eu estava saindo do banho. E ai como vai?
Um cara ai: Ah eu to bem, e você?
Ela: Bem também.
Um cara ai: Eu preciso de uma coisa.
Ela: Ah é.
Um cara ai: É sim.
Ela: Pode falar.
Um cara ai: Lembra quando você falava de um cara que era pior que o Hitler!?
Ela: O Eichmann!?
Um cara ai: É! Esse mesmo.
Ela: Que tem ele.
Um cara ai: É que eu vou fazer uma prova e preciso saber como se escreve Eichmann.
Ela:Ah espera ai....
Um cara ai: Certo.
Ela: Hummm, eu teria que ver no meu caderno do ano passado.
Um cara ai: Não precisa se incomodar. Eu dou um jeito.
Ela:Não não espere. Eu acho aqui.
Um cara ai: Melhor não. Eu não quero te incomodar.
Ela: Sério?
Um cara ai: Sério!
Ela: Ah então tá!
Um cara ai: É... Obrigado. Não esquente. Eu me viro aqui.
Ela:Tudo bem, mas qualquer coisa me ligue.
Um cara ai: Pode deixar. Eu ligo
*desligo o telefone.
Burro, burro, burro, mas muito burro...eu queria falar um pouco mais com ela. Queria contar como realmente estão as coisas. Perguntar como vão as coisas dela, saber o que ela tem feito sei lá qualquer coisa. Queria ter falado mais com ela.
É por isso que eu digo: Não passe vontade!
Ps: Escrevi aqui no post ‘Eichmann’ depois que encontrei por acaso o nome do distinto senhor que era o responsável pela logística do extermínio de pessoas durante o Holocausto.
Manual de sobrevivência
Há os aventureiros que escolheriam um canivete. Escoteiros e marinheiros prefeririam uma corda. Os caras das forças armadas iriam com suas Ar-15. Homer Simpson com sua televisão (porque uma cerveja Duff só ia ser pouco). A socialite gostaria do seu celular, ou talvez o seu gatinho persa. Se pá, o playboy partiria com sua prancha de surf para abalar com as minas. Tem até o piadista que diria: me mandem um bombril, com suas mil e uma utilidades. Tudo besteira.
Ela é a única coisa no mundo que você pode polir, lixar, cortar, furar, raspar, comer, cavar, refletir, conduzir eletrecidade, brincar, matar, beber, se proteger e fazer fogo sendo uma pessoa normal. Se você for MacGyver, Jack Bauer, Batman e afins, a lista de utilidades tende ao infinito. Agora pasmem: este objeto não está a venda no Polishop. Pelo menos eu nunca vi. E desta vez não é uma daquelas mensagens de pseudo-auto-ajuda que eu andei escrevendo. Vou ser duro e direto (ui): eu levaria uma colher.
Colher de sopa.
E tenho dito.
segunda-feira, 6 de novembro de 2006
Breves elucidações de uma mente (já) sem esperança
Não que eu seja totalmente triste, mas é que não sou feliz o suficiente. Pelo menos não tanto quanto gostaria.
Quando você tiver problemas, conte pra alguém. Eleja um e conte tudo. Desde aquela cola na faculdade até a dívida de 200 pratas. Eu não faço isso.
Quando tiver uma paixão, qualquer uma, fale pra ela. Conte pra todo mundo. Ponha no jornal. Não vai fazer diferença se você falar agora ou amanhã.
Sorria, dê risada. Mas não ria de tudo, para não passar por bobo. Ou ria de tudo e seja um bobo feliz. E leia os livros de auto ajuda: eles são mais engraçados do que o Zorra Total.
Abrace sua mãe, seu tio, seu cachorro. Abrace você mesmo se sentir vontade.
Siga meus conselhos. Fazer o contrário de mim deve ser a fórmula certa da felicidade.
Odeio aqueles dias em que a verdade vem à tona.
E tenho dito.
sábado, 4 de novembro de 2006
Bilhetinho
Bel sempre foi um garoto educado e nunca teve chamada a sua atenção durante a auala. Meio com vergonha ele se elvanta e entrega o bilhete na mão da professora Stacy. Ela abre o bilhete e aos berros põe o pequeno Bel para fora da sala. Ele vai para a diretoria ter uma "palavrinha" com a diretora Ana Júlia.
A diretora pede para ver o bilhete, o pequeno Bel com cara de choro entrega o bilhete a ela e aos berros é mandado para casa. chegando em casa a Mãe do pequeno Bel, Dona Stacy mesmo nome da professora, acha estranho o fato de ele estar em casa antes da hora. O pequeno Bel explica o que houve e a Mãe dele pede para ver o que tem no bilhete.
Ao ler o bilhete Dona Stacy (a mãe dele) começa a chorar e chama o grande Bel, pai do pequeno Bel. Ela entrega o bilhete para o marido que antes de ler o bilhete acalma a esposa, mas ela chora muito e não consegue olhar no rosto do pequeno Bel.
O grande Bel lê o bilhete e em um acesso de raiva mete um tiro na cabeça do garoto. O pequeno Bel desencarna e vai para o céu. Na entrada do paraíso São Pedro, muito gentil, pergunta ao garoto como ele tinha morrido e disse que depois que contasse o acontecido ele poderia entrar e passar a eternidade no céu. E pequeno Bel começa a contar como foi parar ali: Olha Seo São Pedro, eu estava indo para a aula e achei esse bilhetinho aqui no chão. Antes de eu ler a professora Stacy pediu para ver o bilhete, depois que ela leu ficou brava e me mandou para a diretora, que depois de ler o bilhete me mandou para casa. Em casa a mamãe leu o bilhete e começou a chorar e contou para o meu pai. Ele leu o bilhete ficou malucão e me deu um tiro na testa.
São Pedro pede o bilhete, depois de ler ele sem titubear manda o pequeno Bel para "o andar de baixo". Chegando lá o Carcará Sanguinolento pergunta o que houve para ele ter sido mandado para lá. Depois de explicar o Carcará Sanguinolento pede para ver o bilhete, mas no momento em que toca no bilhete com sua mão de brasa o bilhete se queima.
Fim!