sexta-feira, 25 de maio de 2007

Casal Perfeito

Ela, moça morena de 30 anos, estatura mediana, excelente saúde, emprego estável, função desejada, família unida, varias amigas e, ao que se sabe, nunca teve um ataque histérico. Menstrua impreterivelmente a cada 28 dias, sem cólicas ou TPM. Nunca bateu o carro ou reprovou na escola. Lê pelo menos um livro por semana e joga boliche todas as quintas-feiras com as colegas que se formou na faculdade. Quando procurava uma empregada para ajudá-la nos afazeres domésticos – já que faz questão de fazer a comida e arrumar as camas – encontrou uma velhinha viúva, sem filhos, super simpática e de extrema confiança. Acabou contratando-a para ser governanta da casa e são melhores amigas. Mariana e o marido planejam ter o primeiro filho em dois ou três anos.
Ele é um rapaz de 33 anos, formado, pós-graduado, mestre e doutorando. Com muito senso de humor e sinceridade. É honesto até no truco que joga depois do futebol, sagrado, de todo domingo com o pessoal da firma. Não bebe, não fuma, não joga valendo dinheiro e nunca chegou em casa depois das 20h sem avisar. Joga xadrez contra o pai uma vez por mês. Um fim-de-semana por ano segue em viagem com o irmão – padre – em visitas de cunho social. Pratica natação três vezes por semana, além do futebol, e só come alimentos orgânicos. Seu corpo é perfeito e a saúde, exemplar. Nunca traiu, nunca se atrasou no trabalho e nunca quebrou o braço. Saraiva e a esposa planejam ter o primeiro filho em dois ou três anos.
Enfim, eles não têm qualquer história para contar.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Alô Negócios

O papel da imprensa, pelo menos no Brasil, nunca foi bem definido. Ou definitivo, sei lá. Bem, não há um consenso sobre a nossa mídia. Não sabe se é, de fato, uma formadora de opinião ou apenas um veículo de transmissão de informação. Ou até mesmo um grande show.
Falando especificamente do jornal impresso, é triste ler estatísticas sobre a quantidade de leitores do país. São tão poucos que nem dá vontade de escrever.
Aí lançaram os jornais populares, a preços ditos "irrisórios". Ou custam cerca de um real – que no mês dá R$ 30,00, ou seja, quase 8% de um salário mínimo – ou são distribuídos de graça – e só têm matérias de assessoria de imprensa (leia-se propaganda).
Considerando que o "pobre" do Brasil ganhe esse salário mínimo há pouco citado (o que, convenhamos, não é verdade), significa que infelizmente não será nem em curto nem em médio prazo que teremos uma leva de leitores assíduos nesse país tropical.
Eu leio jornais. Esse é meu trabalho – ou pelo menos uma parte dele. Eu fuço tablóides inteiros até achar alguma notícia sobre certa pessoa. É chato, mas ao mesmo tempo gratificante. Assim, pelo menos, tenho a chance de sempre estar informado.

Mas esse intróito todo foi apenas para comentar um lance. Queria chegar nesse ponto que estamos agora, só que sem deixar de fazer uma contextualização. O que pretendo é lhes fazer uma grande análise de discurso.
Cá estou eu, 8h da manhã, sentado e com um jornal na mão. Alô Negócios é o nome. E não estou no banheiro.
Alê Negócios não é bem um jornal. Tem formato de jornal, papel jornal, textura de jornal, preço de jornal, periodicidade de jornal, mas não é um jornal. Tem editor-chefe, gerente de publicidade, diagramador, assistente de fotolito, departamento comercial, mas não é um jornal. Tem até editorial, mas... Bah!
Alô Negócios é um caderno de propagandas. Há 17 anos que é assim. É um Mercado Livre das antigas. Ali você compra e vende de tudo. De tudo mesmo. De filhote de schnauzer até apartamento duplex em Blumenau.
Mas vamos à análise.

Como dizia, estou eu com um exemplar na mão. Mais exatamente o de "22 a 24" de maio e 2007. De número, impressionante, 1645. Custa R$ 2,30, mas para o meu trabalho vem de graça. Enfim, o que quero apresentar-lhes é a capa. De brilhante diagramação, diga-se.
Tá, é mentira. Na verdade ela é muito engraçada. Não sei nem por onde começar.
Com grande destaque, tem um anúncio em verde, sob o título, escrito, pasmem, "Porque você ainda é careca ?"
Bem... Eu fui gentil com vocês. Na verdade isso está tudo escrito em caixa alta e o "careca", especialmente, está em negrito, itálico AND sublinhado.
Abaixo desse simplório título, uma apresentação, bem ao estilo Organizações Tabajara: "Chegou a revolucionária Loção Capilar Esperança (sic)". Claro que em letras bem mais, vejamos, chamativas.
[Nota do autor: aos que não sabem, (sic) é um advérbio em latim que quer dizer "assim". É usado entre parênteses depois de qualquer palavra ou frase que contenha um erro gramatical ou um dito absurdo que o redator quer deixar claro que não é dele, mas da pessoa que falou ou escreveu aquilo. Em resumo: ao colocar o (sic), você mostra ao leitor que é assim mesmo que estava no original, por mais errado ou estranho que pareça. Enfim, quer dizer "acredite-se-quiser!!!" em latim.]
[Nota do autor, número 2: Como tudo, eu disse TUDO, nessa capa é, pelo menos, absurdo – e quero deixar claro que nada é de minha autoria, mas do piadista que criou –, doravante subentende-se que em tudo entre aspas estará seguido de (sic), fechado?]
[Nota do autor, número 3, e última, espero: doravante é como se fosse "daqui em diante".]
"Agora chegou o condicionador Esperança, assim você pode por fim em sua calvície. De duas a três semanas você começa a ver os resultados". Desse jeito, assim, absurdo.
Acredite.

Depois vem um quadro de uma revendedora de veículos usados. Desse aí é inacreditável ver a chamada para o "Ford Ka Image Completo (-) ar". O que quer dizer isso? Um carro "completo" MENOS o ar? Você compra um carro completo e ele vem com (-) o ar? Menos? Ave Maria...
Em compensação tem o "Palio EX 00 cinza completo – ar + rodas". MENOS ar, MAIS roda. Sei lá. Você dirige no vácuo, mas pelo menos com cinco ou seis rodas.
Seguimos com o "Quer vender seu instrumento usado? Pagamos à vista, no ato!!!". Pois é, assim mesmo, com três exclamações. Eu li mais ou menos assim: "pelamordedeus venha nos vender seu instrumento!!!".

Depois tem um anúncio que deve ser o melhor negócio do mercado. Segue completo (é uma pena que não dê para colocar na forma com que está escrito. Ia ser muito mais engraçado): "Dinheiro!!! Faça dinheiro financiando até 100% do seu próprio carro ou de 3º. Mesmo com Dívida, com a melhor taxa do mercado em até 60X. Compramos veículos nacionais acima de 98! NÃO FAÇA SEU NEGÓCIO ANTES DE NOS CONSULTAR!"
Acho que dispensa comentários... Pena que eu não resisto!
Faça dinheiro financiando seu próprio carro? Se o carro é meu, vou financiar como? Só se for vendendo para alguém. Vender em financiamento significa parcelar. Seria isso um investimento a longo prazo?
E o carro de 3º? Seria carro de "terceiros" (que, penso eu, seria daquela tia velha ou do cunhado mala), carro de "terceiro dono" ou carro de "terceira mão"? Mistério.
"Mesmo com Dívida". Assim mesmo, Dívida com letra maiúscula. Deve ser uma bela duma dívida. Resta saber se é Dívida de quem vende o carro ou da "CdAutomóveis", que é o nome da loja.
Por fim, "NÃO FAÇA SEU NEGÓCIO ANTES DE NOS CONSULTAR". Antes de ir ao banheiro, levante a mão e peça autorização para a professora.

De mais, digamos, simples, tem o anúncio do "RR Cartuchos". Repare bem nesse nome, daqui a pouco ele vai levantar questões pertinentes.
No anúncio está escrito "RR Cartuchos! Mp3 1GB Foston R$ 90,00; Mp4 1GB Foston R$ 135,00; Mp5 1GB Foston R$ 370,00".
Pelo amor dos meus filhinhos! (sic), (sic), (sic) nisso aí!
O "RR Cartuchos" vende Mp3, Mp4 e Mp5. Cadê os cartuchos? Quero tinta para minha impressora, têm? "Não, mas temos belos mp3's"... Dio Santo!
E olha que no meu tempo mp3 era uma simples extensão de arquivo de Windows.
Bem, pelo menos a entrega é gratuita.

Por último, mas não menos importante – aliás, o mais importante; o mais engraçado; o que me fez querer compartilhar esse momento com o mundo; o que está me fazendo rir há mais ou menos 10 minutos – o da CASTRAÇÃO.
(sic) dobrado nesse aí, por favor.
Assim mesmo: "CASTRAÇÃO de pequenos animais". Precisam ver a diagramação. O "pequenos animais" é bem pequeno mesmo. E tem uma foto de um cachorrinho, daqueles pintcher eu acho, com um óculos de grau. Muito engraçado! Tudo a ver com castração.
Eu adoro esses publicitários em começo de carreira.
E o texto do anúncio: "Clínica Veterinária especializada em cirurgias de castração de machos e fêmeas pela técnica do 'Gancho' (menor corte, menos sofrimento)".
A técnica do "Gancho" . Sem mais.

Bem, o que mais esperar, né? Estamos falando do Alô Negócios, "onde a boa oferta é a melhor notícia".
Com esse slogan, afinal de contas é um jornal.
E eles também fazem sua propaganda: "3360-3333 ANUNCIE GRÁTIS", e embaixo, bem pequenininho, eu disse BEM pequenininho, escrito "obs: mediante consulta".
Isso é melhor que o livro de piadas do Ari Toledo.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Quem é esse cara?

- Dae cara!
- E ai beleza?
- Tranqüilo e você?
- Na boa.
- Então, o que anda fazendo da vida?
- Vixi... um monte de coisa. E você?
- Estou trabalhando com meu pai, jogo bola nas quartas e sábados. Nada
de mais.
- Bacana.
- E você, que monte de coisa você faz?
- Po cara, consegui um trampo numa revista de colecionadores de selo,
tiro umas fotos para um site e também tenho um trampo a noite.
- Caraca, ta ralando mesmo.
- Pois é.
- E ai namorando?
- To com a Gi.
- Gi???
- É a Gi, você não lembra.
- Não.
- Não?
- É, não.
- Como não?
- Não ué!
- Pérai, você não é o Maurício?
- Não, coé Bruno. Ta maluco?
- Bruno? Eu sou o Lucas. Quem é você
- Meu nome é Alex.
- Caraca que vacilo!(risos)
- Poutz! Vacilo duplo.(risos)
- Então falo cara.
- Só, falo meu!

Fim

A artes de Maciel

Não raro, Maciel levava bronca da mãe:
- Maciel, meu filho. Porque você continua fazendo essas coisas, menino? Mamãe já não te disse pra parar? Venha! Deite aqui que agora você vai levar umas belas dumas palmadas.
Mas mesmo depois das surras, o rapaz não mudava. Vivia se metendo em encrencas e criando confusões. As vizinhas diziam que ele tinha o "diabo no corpo".
- Acho que mimo demais esse meu filho, Soninha. Esse menino não toma tento! Não sei mais o que fazer – queixava-se D. Rosa com a comadre.
Uma vez Maciel juntou a turma toda da sua rua para brigar com os caras da rua de baixo. Foi aquela algazarra, mas a "Gangue do Maciel", como eram chamados, saiu com a vitória. A surpresa é que, quando subiram de volta à rua, as mães já os esperavam na frente de suas casas, armadas de chinelas, cintos ou varas de marmelo. Todas menos a mãe de Maciel, que empunhava um pau de macarrão – desde que o filho parou de reclamar do cabo de vassoura, ela teve de apelar.

Clínica
D. Rosa achava que Maciel tinha problemas psicológicos. Vez por outra conversava com o médico:
- Ah, Doutor, esse meu filho não tem jeito! Além de arteiro ele agora é tarado. Ontem deu um jeito de levantar a saia da filha da D. Marisa na frente de todo mundo. Não sei mais o que fazer.
E o médico:
- Pois é, D. Rosa. Esse garoto está cada vez pior. Nem os remédios estão adiantando. Acho que já é hora de levá-lo comigo para tratar, que acha?
Mas ela era uma mãe muito coruja. Era muito protetora e não podia ficar sem fazer as vontades do filho. Não queria se separar dele e mandá-lo para uma clínica. "Afinal é uma criança", ela dizia.
- Não, não. Nada de clínica, Doutor. Eu vou resolver isso na conversa – despistava.
Só que nada fazia.
Quando D. Rosa tinha essas conversas com o médico, Maciel adorava. É porque sempre depois disso a mãe abrandava. Ficava umas semanas sem ligar para o que o rapaz fazia. D. Rosa tinha medo de que, se a vissem brigando com o filho, por exemplo, quisessem levá-lo à força para um hospital.
E ele seguia com suas estripulias.

Ponto final
Mas um dia não houve jeito. Definitivamente Maciel passara do ponto. Até a associação de moradores reclamou com D. Rosa. O garoto passou a ser odiado em toda a vila.
- Esse moleque tem que ir preso! – dizia a velha viúva "sabe-se lá de quem".
Cartazes foram colado em frente a casa da família depois do incidente. "Morte ao monstro!", "Maciel é um bandido!" e "Queremos tranqüilidade!" eram alguns dos dizeres. Realmente já não o queriam mais por ali.
D. Rosa deixou de condolências e chamou o filho num canto:
- Maciel, meu filho. Agora não dá mais. Você precisa parar com isso tudo.
- Ih, lá vem a "véia" com aqueles papos de novo – Maciel só chamava a mãe assim. E sempre em terceira pessoa.
- Não, querido. Dessa vez é sério. Cansei de deixar que você faça tudo o que quer. O pessoal da vila está até querendo te pegar depois do que você aprontou ontem.
Maciel ficou quieto dessa vez. Sabia do que a mãe falava e, dessa vez, realmente teve medo. D. Rosa continuou:
- Vou mandar você para a casa as Alagoas. Eu te mimo muito! Seu pai vai saber o que fazer com você. Ele vai te colocar pra trabalhar, tenho certeza. Quem sabe assim você aprenda a ser um homem adulto. Está na hora. Você já tem 25 anos, poxa.
E, jogando as roupas do rapaz na mochila, ela foi derradeira:
- E trate de deixar as figurinhas do Campeonato Brasileiro. Pelo que seu filho falou, você ganhou dele no bafo justamente as que faltam para completar o álbum.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Daquela janela

Já fazia muito que não a via! E para falar a verdade tento esquecer. Mas é como diz aquela música 'o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer' (no meu caso o contrário). O tempo parece que se desfaz quando ela aparece. Agindo como um fantasma, ela não precisa chegar perto, nem falar comigo e nem tocar em mim. Basta aparecer, só isso uma simples aparição, mesmo que de longe, é capaz de me deixar como se estivesse dentro de um navio no meio de uma tormenta. Cheguei a pensar que nunca mais sentiria isso, me sentia confiante. Mas agora não é o que parece.Não que seja culpa dela, e sei bem quem é o culpado. Mas hoje foi diferente, estava almoçando naquele restaurante (que você sabe bem qual é). Estava sozinho, eu e meus pensamentos, como diz o poeta 'cabeça vazia é a oficina do Lúcifer'. Dessa vez nem Deus nem o Diabo tiveram nada a ver com isso. Criei essa situação sozinho, porque ir naquele restaurante, naquela mesa em frente daquela janela...Na mesa com três lugares vazios, sem ninguém para conversar ou incomodar. Mas alguma coisa me dizia que era para eu almoçar sozinho. Talvez se estivesse acompanhado, quem sabe eu perderia a poesia do momento.Já quase terminando de almoçar, perdido em pensamentos que não tinham uma lógica certa, fico olhando os carros e as pessoas apressados na praça Tiradentes. As pessoas parecem que não tem rosto, e os carros também parecem os mesmos.Do meio das muitas pessoas ela surgiu, com a mesma graça de outros tempos. Vejo ela aguardando o sinal abrir, aqueles quarenta segundos me perdi em lembranças, umas boas outras nem tanto, como se o tempo parasse. Diferente maneira que ela surgiu, assim de repente, aos poucos foi sumindo meio da multidão. Fiquei algum tempo seguindo com os olhos aquela blusa verde, que se destacava entre o cinza e marrom das roupas de frio das pessoas. Parecia de propósito, não sei.Como quem acorda, olho para o lado e vejo que o casal percebeu que eu estava com o pensamento longe. Sorrio e como se fossemos conhecidos me despeço do casal. 'Quem será esse maluco?' Eles devem ter pensado. Esse maluco aqui é só um cara normal que erra muito, mas que sempre errou tentando acertar.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

O Furo

Existem coisas que acontecem e mudam pra sempre nossa vida. E olha nem precisam ser aquelas coisas grandes, como um acidente de carro ou uma morte na família. São as coisas pequenas, aparentemente insignificantes, que fazem toda a diferença.

Não se preocupe. Não é auto-ajuda. Vai ser só um breve relato.
Ok. Vejamos: coisas pequenas são até piores. Claro! Elas acontecem e a gente não dá bola. Elas surgem do nada e a gente nem percebe, nem presta atenção. Mas lá no fim, no ápice do acontecimento, no êxtase de tudo, no clímax da história, no punctum da fotografia, no cheiro do ralo, no... Enfim, no final é esse pequeno incidente que define se sim ou se não.

Lembra daquela ligação que não deu tempo de atender porque você estava no banheiro, lavando o rosto? Ou daquele código de barras da pasta de dentes que você esqueceu de mandar para o Faustão? Sei lá, Freud explica. São escolhas – ou, às vezes, não – que mudam um pouquinhozinho a rota dos acontecimentos. Não fique frustrado, acontece com todo mundo. Ora, podia ser seu dia de sorte. Podia ser a ligação do Roberto Justus, querendo te contratar.
Mas não foi o acaso que me fez comentar esse assunto. Freud explica.

Outro dia aconteceu algo que mudou minha vida.Na hora eu não percebi, afinal foi algo tão pequeno. Um acontecimento ínfimo, reles, diminuto, mas que ontem cheguei à conclusão de que foi o ponto crucial de toda a história. Dá até raiva de lembrar que era só aquilo, que um furinho mudaria minha vida.

Isso mesmo, um furo. Um mísero furo numa camiseta que sequer era minha. Um furo de mais ou menos um centímetro de diâmetro, quase que na altura do pescoço, perto da axila esquerda.
Eu olhei  e pensei "ora, um furo, e daí". Achei que fosse apenas um lapso de atenção, ou então que ela se enroscou no alambrado durante a aula de educação física. Ou até que ela ainda nem soubesse que aquele furo estava lá, senão o teria escondido. Mas não.

Na outra semana eu voltei e ele estava lá. O furo, o mesmo furo, no mesmo lugar, na mesma camiseta. E ela? Na maior naturalidade. Um furinho, na altura do peito, meio que sobre o coração. O que isso mudou minha vida? Ora, um furo, e ela nem liga.

Exatamente.

Exatamente!

Um furo, na camiseta, e ela nem liga! Quer coisa melhor? Um furo, que todo mundo vê e não tem escapatória. Um furo que é até bonitinho, mas não deixa de ser um furo. Enfim, ela usa camiseta furada. ELA USA CAMISETA FURADA!

Eu só poderia adorar esse fato. Ela caiu do pedestal. Ela é normal, como eu. Ela usa camiseta com furo. Ela deve dormir com o pijama velho só porque está sem elástico, como eu. Ela é normal. Eu sou normal. Somos o casal perfeito.

Ela...

Ah!

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Biscoito

Querido e mimado por todos, assim vivia Biscoito, o cachorro trapezista
do Circo do Magralha. Os palhaços lhe davam comida o dia todo e Biscoito
retribuía a gentileza tomando conta do trailer dos palhaços. Mas os
outros artistas circenses também gostavam de Biscoito.
O treinador de Biscoito, costumava ser truculento com Biscoito quando
ele não acertava alguma coisa no treino. Se errasse durante um
espetáculo então, nem os palhaços conseguiam salvar o couro de Biscoito.
Ficava de castigo numa caixa de papelão de castigo. O treinador fazia
isso, mas depois se arrependia e para fazer as pazes dava bife na
manteiga para o Biscoito.
Biscoito estava treinando um novo truque que iria revolucionar a
participação canina em circos de todo o mundo. Teria que passar por uma
roda de fogo, andar na corda bamba, equilibrar dois copos em um pedaço
de madeira e tudo isso com as patas traseiras amarradas.
Durante o treinamento tudo correu bem. Magralha ficou maravilhado,
ordenou que bife na manteiga fosse a refeição oficial do Biscoito. E
assim ele foi tratado como um rei, todos adotaram Biscoito como ícone do
circo. Os ensaios de Biscoito eram os com maior presença de outros
artistas do circo. Todos estavam enciosos pela estreia do novo truque.
Na estréia do novo truque 'McGiver' do Biscoito ela seria atração
principal, a multidão se apertava nas arquibancadas para ver o grande
truque de Biscoito.
É chegada a hora, o Magralha avisa que depois dos tigres será a tão
esperada vez do Biscoito entrar no picadeiro. Os tigres saem de cena sob
o aplauso da platéia,o domador acena para a multidão e vai com os tigres
em direção a saída. Quando o Biscoito estava quase entrando no picadeiro
um dos tigres abocanha o cachorro-malabarista. Ele foi o último bidcoito
do circo.

Fim

terça-feira, 15 de maio de 2007

Série Lendas - O Velho Boca

Dizem as más línguas que o velho da velha casa amarela nunca saia de casa, não tinha amigos, não falava mais do que o necessário com a moça da padaria. Ele não comprava jornal para não saber da vida de ninguém.

Certo dia um sujeito foi pedir uma informação para ele. O velho, como de costume, deu um sermão que arrepiou os cabelos de todo mundo que passava na rua. Perguntou porque o sujeito tinha que falar logo com ele, falou que se ele não sabe onde ficava o lugar que procurava, por que saia de casa sozinho. Foi uma situação constrangedora para o rapaz que só queria saber onde era o edifício tal.

Mas o velho teve que pagar por ser tão ranheta, teve um mal-subto e caiu perto da porta de sua casa. O carteiro Abelardo ouviu um gemido e foi ver o que era, ajudou o velho. Chamou uma ambulância que levaram o velho para o hospital, lá o Dr. Alvarenga receitou repouso e disse para o velho abandonar a mania de ser tão rabugento. O velho saiu do hospital contrariado e bufando com raiva dele mesmo.

Já em casa o velho fez um exame de consciência e viu que talvez fosse hora de ser menos birrento mesmo. Foi comprar pão e antes de pedir disse ‘bom dia’ e a atendente surpresa nem respondeu. Na banca de jornal a mesma coisa, o velho cumprimentou o Seo Peçanha que só balançou a cabeça e deu um sorriso amarelo.

No caminho de casa, com os pães e o jornal na mão o velho foi acenar para os senhores que conversavam sobre política, religião e futebol no café e acabou escorregando. Quando viu os sujeitos do café rindo dele, começou a xingar todos como de costume. Xingava e xingava, mesmo caido, sem parar, até que morreu. Ali mesmo, naquela calçada bem perto de casa.

Dizem que é por isso que chamam a Rua XV de Boca Maldita, as más línguas dizem que o velho era conhecido como o Boca Maldita.


Fim

O Crime

Ela abriu a torneira com as mãos ainda trêmulas. Não podia crer que tivesse feito aquilo. Quando a primeira gota d'água tocou seus dedos, Sara fez uma cara de horror que denunciava o arrependimento. Mas já era tarde. Marcelo havia gritado com tanto desespero que toda a vizinhança devia ter acordado. O que ia dizer aos filhos? Agora estava trancada no banheiro, atormentada com seus pensamentos.  Lavava a mão com a ânsia de quem acredita que toda a culpa descia pelo ralo junto com a sujeira. Ela sentia o coração palpitando cheio de amargura, sentia como se nunca mais pudesse sair daquele banheiro e encarar alguém de frente. Fora horrível o que fizera. Sara esfregava por entre os dedos nervosamente, incessantemente. Queria apagar qualquer prova que pudessem ter contra ela. Agoniada, só pensava no que fizera com o marido: "Ele vai me matar. Marcelo vai me matar! Nunca mais faço fio-terra nele... Nunca mais!" 

segunda-feira, 14 de maio de 2007

PQP fui tomar bezetacil

Dor de garganta é uma das piores desse e de outros planetas. Semana passada tive uma crise dessas e sinceramente achei que passaria dessa pra melhor. Acho que foi isso que extinguiu os dinossauros da terra. Dois dias de cama, até para tomar remédio a garganta arranhava quando eu bebia água parecia que era ácido. Foi horrível, não desejo isso nem para o cara que inventou o exame de próstata. Tudo bem esse cara merece algo mais sádico.

Em meio a febre e a deficiência temporária de não poder falar muito, minha mãe me convenceu de ir ao médico. Com todo respeito, mas aqueles médicos que olham a roupa que você veste ou da uma olhada no seu batimento cardíaco e faz o diagnóstico não dá né não!? Chego para minha consulta, aguardo a minha vez e tento um papo com a minha mãe. Mas ela está muito preocupada com seu filhinho enfermo (eu no caso). Ela só me pergunta o que eu quero comer, se eu vou para aula, diz para eu largar a birita todo final de semana (pelo menos pegar mais leve).

Chega a minha vez, entro na sala e o doutor diz: Então Alexandre, o que você me diz

- Caraca doutor, to podre! Dor em todo corpo, isso deve ser gripe. To com a garganta escangalhada, nem a corestina o melhor remédio do Brasil ta dando jeito, mas ainda dá barato.

- E você sente mais alguma coisa?
-
Para coroar uma dor de cabeça desde quinta feira de manhã.
- Hummm...
- To indo pras cucuias?

- Não não, vamos ver essa garganta. – pega um aparelho tipo uma lanterna, mas é um daqueles produtos que só médico tem.

- Ahhhhhhhhhh...ahhhhhhh

- É Alexandre, você está com problema na garganta. Bebeu alguma coisa gelada?

- Só uma cervejinha. – lembrei que assisti o jogo do Flamengo (Mengão 2x0) com um camarada no boteco e comecei a ficar bolado.

- Vou ter que te receitar aquela famosa.

- Famosa quem? – ele começa a rabiscar algo quase ilegível.

Por acaso você está falando da bezetacíl?

- Essa mesmo. Você pode fazer um tratamento com antibiótico, mas isso vai te dar um trabalhão. E com uma dessas você melhora rapidinho.

- Fazer o que né.

Não entendo a minha mãe, acho que ela gosta de me ver sofrer. Depois que mostrei a receita, ela deu uma risada e disse que quando eu era menor até chorava quando tinha que tomar injeção. Ah tá, e quem não chora. Eu era um garotinho como qualquer outro, pra quê dar injeção? A medicina poderia fazer o mesmo conteúdo de uma injeção mas que fosse para tomar via oral, pra quê fazer a criançada sofrer. E a minha mãe lá com aquele sorrizão.

Passo na farmácia e peço a mardita, não a ‘marvada’, a mardita da bezetacil. O cara da farmácia me olha com cara de quem pensa: “xiii esse ta fudido!” e me entrega a parada. No caixa a mesma coisa, a mocinha olha o nome do produto na tela, depois olha para mim com a mesma cara do sujeito do balcão. No hospital a moça da recepção queria que todos soubecem que eu iria tomar uma injeção. Falava alto ‘ah uma bezetacil’ ‘ah você já trouxe o medicamento’ ‘ a enfermeira já vai te aplicar a bezetacil’. Percebi as pessoas me olhando com um certo pesar. No dos outros é refresco né, pensei.

Entro na sala onde vou ser... medicado digamos e não tem ninguém lá na sala. Nem um minuto depois uma senhora, devia ter uns 55 um pouco mais talvez pelos cabelos grisalhos, olha para mim e diz: - É você então.
- É, não estou muito bem ultimamente.

- Já tomou essa daqui alguma vez?

- Só quando era criança.

- Então você já sabe como é.

- Sei, e não tenho boas lembranças.

- Ta bem, agora abaixe um pouco a calça e relaxe!

Como assim, você deve concordar comigo que é no mínimo difícil relaxar numa hora dessas.

Foram os cinco segundos mais longos de toda minha vida.
- Pronto, pode levantar a calça. Pode levantar moço.

- Eu só estou esperando a dor passar.

- Relaxa acabou.

- É difícil relaxar. Estou me conformando, só isso.

Sai de lá com uma puta dor na bunda, ainda com a garganta escangalhada e a dor de cabeça que não vai acabar. Fiquei em casa de repouso, pensando na vida, tentando lembrar a hora de tomar o remédio. Mas tudo bem faz parte, o que me incomoda agora é que a velhinha que viu meu traseiro até agora não ligou não mandou e-mail nem nada. Fui só mais um nas mãos dela.


Fim

Pianinho

Aquela vez, na praia, foi quando eu me apaixonei. Nos encontramos por acaso, e você era tão quietinha. Eu falava pelos cotovelos, e liderava rodas de prosa, e me fazia de entendido, e contava piadas do Ari Toledo. E você lá, quietinha.
Eu fazia brincadeiras, você ria. Eu discursava sobre Sócrates, você concordava. Eu falava de flores, você sorria. Quietinha.
Eu não percebi na hora, mas como era incrível aquele seu olhar. Sei que não era pra mim – especialmente para mim –, mas tudo em você era perfeito. O seu sorriso, a risada, a forma de mexer nos cabelos. E que cabelos.
Mas como as coisas mudam. Agora sou eu quem te observa liderando rodinhas de pessoas. Sou eu quem concorda quando você adora Montesquieu. Sou eu quem ri das suas piadinhas prontas.Logo eu, outrora tão falante.
Agora fico de longe, só olhando, quietinho.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Festerê

Que beleza de idéia que eu tive. Essa porcaria de festa. Só pra minha cara! Olhe em volta. Todo mundo está bêbado, quebrando coisas, jogados pelos cantos. Porque minha mãe foi viajar? Uma casa livre pra um jovem só podia dar nisso! Que besteira.

Ali no canto tem um vômito, provavelmente do Betinho. Nem vou limpar esse, já são tantos. Que zoem com a casa toda agora. O besta aqui limpa tudo amanhã. Fui eu que tive a idéia, fui eu que convidei toda essa galera pra "curtir um som" aqui na minha. Bah! Desgraça. Agora guenta, otário.

O Cebola chegou dizendo Cara, que festa maneira. Maneira pra você, seu ridículo. Não é tu que vai limpar tudo amanhã. Eu quase disse isso. Quase. Preferi ficar quieto e sair pra comprar mais gelo.

Vendo tudo de fora parecia pior. Tinha  mesa de truco até no meio da rua. Não sei como esses vizinhos não reclamaram. A música está no máximo, repetindo Cowboy Viado pela quinta vez. Que festa horrível. Minha festa.

Quando voltei do posto com o gelo parecia que tinha chegado mais gente. Na minha casa, bolas. Tudo lotado, gente em todos os quartos fazendo todo tipo de coisa que se possa imaginar. Amanhã eu limpo tudo. Amanhã eu tenho que limpar tudo. Que idéia de jerico.

Chegou o Beronha dizendo que seu irmão vomitou da sacada. Que se dane! Não quero saber! Por mim que todos fossem embora naquele instante. Foi ridícula essa idéia de fazer festa. Porque fui pensar nisso? Festa. Otário.

Daqui da rede nem parece que a festa é minha. Não parece nem que eu estou na festa. Fico só olhando os caras que já estão sem camisa dançando Poperô pras menininhas mais novas. E eu balançando, pra lá e pra cá. No meu mundo, pensando porque, ó Deus, porque fui fazer isso!? Nesse momento só dá pra ouvir o barulho das centenas de latas jogadas no chão que eu terei que limpar amanhã.

De repente parece que tudo melhorou. Sei lá, a música agora é boa, o pessoal está jogando o lixo no lugar certo. Até definiram a banheira como vomotódromo. Menos mal. O que será que está acontecendo? Jorginho, logo ele, me traz um copo do ponche que a Laurinha fez. Que delícia. A festa está ficando boa, será? Ou eu é que estou bêbado?

Não.

Foi ela que chegou. Ela, trazendo consigo seu lindo sorriso. O mais lindo do mundo. Seus cabelos brilhosos formam uma cachoeira no sinuoso leito do seu corpo. Ela veio! Toda essa festa foi feita para isso. A festa, a minha festa. Eu só queria que ela viesse e conversasse comigo dois minutos que fosse. Ou nem isso. Bastava estar no meu campo de visão que tudo já valeria a pena. Agora eu podia limpar todos esses vômitos com a minha camiseta. Ela chegou. Ela veio. Minha festa. Que festa linda, ó Deus!

Pega ladrão

Eu sou a favor da redução da maioridade penal.
Agora, por favor, releia o parágrafo anterior. Releia, aprecie, deguste. Foi realmente duro conseguir escrever isso. Releia.
Não faz muito tempo ganhei o direito de ser preso. Sou um jovem rapaz, com meros 19 anos, cheio de idéias revolucionárias e nenhuma atitude. Fizeram-me decidir sobre o que penso da redução da maioridade penal. Ora, se é assim, sou a favor da redução da maioridade penal.
Eu, com essa idade toda, não consigo formar uma opinião. Preciso de alguém que me explique as coisas, que me convença do certo e do errado. Até pouco tempo atrás minha mãe fazia isso por mim, agora não. Tenho que ler os jornais, conversar com pessoas, ir à Boca Maldita e escutar seus velhos pensadores. Sou grande o bastante para dirigir, mas ainda não sei nada sobre a vida. O primeiro parágrafo. Leia, por obséquio.
Como todo mundo, tenho meus acessos de raiva. Fico irado quando, por exemplo, perco uma partida de futebol no vídeo game para um colega ou recebo ordens sádicas de meu supervisor de estágio. Nem que por alguns instantes, faço deles meus inimigos mortais. Quero esganá-los, botá-los na forca, dar-lhes tiros no meio do nariz. São processos instantâneos, que eu consigo controlar, que eu aprendi a controlar. Mas e se os faço? Se esgano meu superior ou atiro no pâncreas do meu colega que me venceu? Vou preso, afinal estou apto a isso. Tenho 19 anos e, pela lei, já entendo o sentido da vida. Posso ir preso.
Mas eu não entendo. A vida ainda é uma grande incógnita para mim. Eu seria preso considerado como adulto, ainda que sem as certezas que surgem em tal estágio da vida. Fui preparado, fiz o caminho certo. Cada coisa em seu tempo, cada tempo um aprendizado. Sou um caso de quem viveu sob todos os direitos assegurados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Pois bem, mas esse é o meu caso.
Releia o primeiro parágrafo. Foi difícil.
Eu fui um filho pretendido. Minha mãe desejou que eu tivesse nascido. Me amamentou com amor e carinho, me levou para brincar nos parques e praças da cidade. Quando criança, fui para a escola e aprendi as palavrinhas mágicas. A tia me ensinou a rezar antes das refeições e formar fila para descer no escorregador. Tive uma vida de criança.
Na adolescência, fui ao colégio. Jogava futebol contra outros times de garotos, ia ao cinema com as garotas. Estudei química, física, biologia, ética, filosofia, religião. Tive uma vida de adolescente. Agora estou aqui. Com 19 anos e começando a viver a vida adulta.
Não esqueça do primeiro parágrafo.
Nem todo mundo teve essa vida. Nem todos têm a vida exatamente como prevê o estatuto da criança e do adolescente. Moro no Brasil. Não sei se moro muito bem ou muito mal, mas sei que as oportunidades não são para todos.
Imaginemos outra criança. Ela foi odiada desde o momento de sua concepção. Um filho de uma adolescente de 15 anos, estuprada por um mendigo enquanto voltava da escola para sua casa numa favela qualquer. A menina fez de tudo para que a criança não nascesse. Tomou remédio, tomou purgante, deu socos na própria barriga, quase morreu numa clínica clandestina tentando realizar um aborto. Mas nada deu certo: nasceu um menino, já cheio das marcas da vida, mesmo tendo vivido alguns minutos dela.
Ele foi odiado pela mãe. Ela quis jogá-lo no rio dentro de um saco plástico ou doá-lo para uma equipe de tráfico internacional de órgão. Cogitou até a hipótese de mandá-lo para um orfanato, mas desistiu quando lembrou que no futuro ele poderia procurá-la e exigir algum carinho. Enfim, o menino teve mesmo que viver e continuar no barraco. Ele e mais oito pessoas, num casebre de três cômodos, feito de placas de outdoor.
Nunca foi à escola. Do zero aos dois anos, passava o dia como símbolo de pobreza no colo da mãe enquanto ela trabalhava pedindo esmola no sinaleiro. Dos dois aos cinco, ele próprio o fazia, depois de dançar uns passos de hip-hop na faixa de pedestres. Aos cinco arrumou um emprego: aviãozinho do tráfico no morro. Levava a droga da boca ao asfalto, e ainda fazia a contabilidade. Aos oito, perdeu o emprego – o terceiro, já que foi “vapor” e “cargueiro”, depois de aviãozinho – porque juntou uns amigos para assaltar uma vendinha da região, o que desagradou o chefe.
Eu ainda estou no primeiro emprego, um estágio. Enfim, releia o primeiro parágrafo.
Aos doze anos, o menino já tinha matado, cheirado, roubado. Era sujeito homem. Tinha sua própria boca de fumo, que vendia só maconha, por enquanto. Nunca estudou, mas fazia a contabilidade, contratava funcionários, preparava uma logística de vendas e mantinha um recursos humanos. Aos 13, começou um guerra quando perdeu sua virgindade com a mulher do chefe do tráfico do morro vizinho. E venceu. Aos 13, o garoto já sabia o que queria.
O primeiro parágrafo. Leia.
Segundo a legislação brasileira, qualquer pessoa com menos de 18 anos não têm o desenvolvimento capaz de compreender exatamente a natureza da sua conduta, não estando, portanto, apta a ser condenada a uma pena de reclusão. Em casos graves, entretanto, este menor necessita de internação em estabelecimento adequado a formá-lo para a vida social. Ser “ressocializado”. O que eles não dizem é que isso só serve para as situações ditas ideais, onde criança é criança e adolescente é adolescente.
Eu cresci sendo preparado para a sociedade, o garoto não Quando era pra ser criança, eu fui criança. Quando era para ser pré-adolescente revoltado, eu fui pré-adolescente revoltado. Agora estou no caminho para a fase adulta, seguindo passo a passo todas as etapas. O outro personagem nasceu precisando ser adulto. Ele não foi preparado, pulou etapas.
Desde que veio ao mundo teve que trabalhar, passar fome, conseguir dinheiro para as contas da casa. Não pôde estudar, não pôde almoçar aos domingos na casa da avó, não pôde jogar futebol com os amigos. Não pôde sequer ter amigos. Ele sempre foi obrigado a ter convicção do que queria. Sabia que ninguém nunca iria decidir qualquer coisa por ele. Sabia que não poderia errar e depois pedir desculpas. Se errasse, estava morto. Ninguém nunca o ensinou a controlar seus acessos de fúria.
Se ele matar alguém, foi pensado. Ele já sabe o que quer. Tendo 14, 17 ou mesmo 19 anos, ele sabe o que quer. Ele teve sempre que saber o que quer. Ele é adulto.
Ser adulto não é um status adquirido, não tem a ver com a idade. Ser adulto é estado de espírito, é estado de consciência. Os adultos dizem que o são por terem certeza do que querem da sua vida, mesmo sabendo que isso é mentira. O garoto sabe o que quer da vida: ele quer é viver.
Ora, matando alguém, ele estará cometendo um crime, tendo 14 ou 19 anos. Deve ser preso. Preso para manter a ordem pública, não para prepará-lo para a ressocialização. Adultos já sabem viver em sociedade.
Agora leia novamente o primeiro parágrafo. Só que ao invés de "sou a favor da redução da maioridade penal", leia "sou a favor da maioridade penal, desde que só adultos sejam presos".

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Você sabe do que está falando?

Aproveitando o momento-protesto ou momento–boca-no-trombone do Maycon contra o cacique do estado, vou pegar uma carona e mandar o meu pitaco na visita da Santidade o Papa (esse menos pop que o outro).
Agora só se fala da visita do Santo Padre ao Brasil. Claro que não é um evento que as pessoas devam ignorar, mas calma ai. Quem paga a conta? O que ganhamos com isso? Tudo bem não tenho nada a ver com isso, mas uma coisinha me chamou a atenção.
E ele vem com direito a plumas e paetês para falar, impor, mandar, persuadir, enfiar goela abaixo, trazer a mensagem, enfim discursar sobre alguns assuntos importantes para o bom andamento da vida dos cristãos, mas um deles não tem como ele (o Santo Padre) ser expert. Ora como um padre (ainda mais ele, o Santo Padre) falar sobre sexo? Ele não faz, não fez e se tudo der certo (como manda o figurino) nem vai fazer. Então por que raios ele tem que se intrometer na vida das pessoas e dizer se é certo ou errado usar ou não camisinha? Isso é loucura! Não da para levar o que a igreja católica diz com verdade suprema e absoluta, eles não sabem do que falam.

A não ser que eles queiram discutir os casos dos garotos abusados por membros da igreja.

Fim (ou não)

Palhaçada

E não é que o ônibus sorteado pelo Ilustríssimo Sr. Requião para os deputados era de brinquedo? Bem bonitinho até, mas de brinquedo. Isso nos dá duas perspectivas de análise, uma otimista e outra real, digo, pessimista.
Digamos que isso seja bom. Um brinquedo, um gracejo para estimular a presença dos deputados na "escolinha" do governo. Tudo muito bom, tudo muito bem. Uma piadinha para descontrair, quem não faz? Não é só porque os assuntos por lá tratados são sérios que não se pode fazer uma graça de vez em quando. Dizem os palestrantes – os bons palestrantes – que uma boa apresentação começa com uma piada para entreter os espectadores. Entretêm-se, conquista-se a confiança e só então são tratados dos assuntos sérios. Pela visão otimista, foi o que fez nossa corte magnânima, o governo. Ponto.
Pela visão pessimista, ou realista, ironicamente fica tudo mais engraçado. Vejamos: já li por aí que este episódio do sorteio classificou nosso governador como inconseqüente, irresponsável, oportunista e ditador; que a chamada "Escola de Governo" se desvirtuou e virou simplesmente um talk show de Sua Excelência, o Requião; que o governo estadual virou um Estado-Novo regional, vítima dos inúmeros desbundes de seu chefe máximo. Enfim, tudo como numa perfeita descrição do perfeito caos. Não é nada disso, pessoal.
Roberto Requião de Mello e Silva nada mais é do que um contador de histórias. Para tudo isso que têm acontecido só cabe uma descrição: piada! Nosso governador é um fanfarrão, um gabarola, um farrombeiro, um pábulo, enfim. E nós também, convenhamos. Aceitar tudo isso com essa conivência de Magro para Gordo, de Pink para Cérebro só corrobora para mostrar que os antigos revolucionários se tornaram preguiçosos e que os novos sempre o foram. Eu próprio tive minha gangue pré-adolescente de guerrilheiros preguiçosos.
O fato é que precisamos todos nos juntar, os novos e os velhos, os Pinks e os Gordos, para, pelo menos, reclamar dessa babilônia que ocorre no Palácio Iguaçu. Nem queremos que o monarca Requião seja queimado em praça pública ou afogado no chafariz da praça Ozório, basta que ele pegue seu fardinho de cuecas e vá morar em outra granja. Aconselho até que ele compre um trailer e siga turnê com o Circo Garcia, transvestido de Palhaço Mamona, para a alegria da criançada.
O pior é que, segundo um palhaço me explicou – o Alípio, profissional, daqueles que usam máscara (de verdade, diga-se) e roupas coloridas –, existe dois tipos de palhaço: o "branco", que é o líder, que faz graça zombando do companheiro, o dominador, o Cérebro, o Magro; e o "augusto", que é o bobalhão, o de sapatos grandes, o que leva as tortas na cara. “Pink, venha. Hoje a noite nós vamos dominar o mundo”!
Infelizmente, nesse caso, palhaço “branco” é o Requião. A nós sobra apenas o “augusto”.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Chun Lee a poliglota

Chun Lee trabalhava como guia turística, seu trabalho era mostrar para os turistas o que que a baiana tem, levar-los para fazer coisas de turistas, aqui no Brasil. Sua vida e trabalho eram bacana e tranqüilo, solteira convicta admirava amarula, dançar e feijoada. Mas o que gostava mesmo, era do frango chop-suey do seu avô Ling Lee. Um ancião que deve ter uns 700 anos pela sua sabedoria e paciência, que como todo bom chinês, no Brasi,l torce para o Mengão.

A bela Chun Lee só trabalhava com grupos de apenas um mesmo país, para não ter que trabalhar numa Torre de Babel (como ela dizia) e para que ela conseguisse fazer um trabalho de melhor qualidade. Chun Lee falava alemão, francês, inglês, mandarim, espanhol, italiano e guarani. Guarani ela estudou por diversão, já os outros idiomas por ossos do ofício. A única coisa que Chun Lee não gostava era quando faziam piadinhas com seu nome, mas conta para todo mundo que a Chun Lee do Street Figther foi criada em homenagem à sua mãe, Shang Lee.

Numa bela tarde no verão de 1992, Chun Lee recepcionou um grupo de alemães que estava chegando em Recife. Logo nas primeiras horas algo chamou sua atenção, dos quinze alemães, cinco pareciam não entender bulhufas do que ela falava. E isso começou a irritar a nossa querida Chun Lee.

Ela da um jeitinho de afastar os cinco dos demais alemão e pergunta o que esta acontecendo e o que ela pode fazer para tornar a viagem deles mais agradável. Eles ficam olhando para ela como se ela fosse um ET. Um senhora com um chapéu engraçado da uma cutucada, com a bengala, na canela de seu acompanhante. Ele um sujeito com a cara do do Mário Bro's, chama Chun Lee e pergunta.

- Escuta aqui rapariga, a senhorita só estais a falaire em alemão, como queres que eu e meus patrícios estejamos a vontade aqui, sem entender patavinas raios!



Fim


segunda-feira, 7 de maio de 2007

Caos da Segunda-feira


(Sem tempo no trabalho, uma anedota curta, bem curta)

O garoto Rui estava de partida para a guerra no Iraque. Para manter os contatos, perguntou nome e endereço dos amigos mais próximos. No fim da rua tinha um velhinho polonês, com quem passava tardes e tardes trocando dedos de prosa.
- Seu Wenceslaw... Como é mesmo o seu sobrenome?
- Por quem, meu filho?
- Para que eu lhe mande cartas lá do Iraque. O senhor sabe, estou indo para a guerra.
- Ah sim. É Chikenplutgyoscher-tsciechamayowinski.
O rapaz ficou, digamos, perplécto.
- E como é que se escreve, Seu Wenceslaw?
E o velho:
- Com tracinho no meio!

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Chutando o balde

Já passava da meia noite e Joilton não conseguia pregar o olho. Rolava
de um lado para outro da cama e nada de conseguir dormir. Tentou contar
carneiros, prender a respiração, contar até mil e dezessete, enfim
tentou várias coisas e não teve jeito. Quando achava que ia pegar no
sono logo vinha a lembrança de que teria que levantar cedo do dia
seguinte e lá se foi o sono de Joilton.
Quase duas da madruga e finalmente o sono vem chegando, Joilton já com
aquele ar de quem está mais pra lá do que pra cá. Ele vê um unicórnio e
pensa: estou sonhando, então estou dormindo finalmente. Puft! Ele
acordou na mesma hora que pensou isso. Irado levantou, foi até a cozinha
tomou um copo d'água, olhou no espelho viu que já estava com olheiras
por causa da sua falta de sono.
Deita-se novamente e dessa vez parece que o sono vem. Com os olhos
pesados ele vê o relógio marcando três e vinte. Mas não fica preocupado
pois finalmente parece que vai conseguir dormir. Na hora em que ele
começa a acreditar nisso, leva um susto com o telefone tocando. Atende
achando que deve ser algo importante ou que aconteceu alguma coisa
grave, para alguém ligar a essa hora.
- Alô!
- Oi, me desculpe a hora, mas a Brigite está?
- Não tem nenhuma Brigite aqui.
- Mas ai não é do Cabaré Gaiola das Loucas?
- Não.
- Ops! Foi engano, foi mal!
Com muita raiva, Joilton quase quebra o telefone. Olha mais uma vez para
o relógio e já eram quatro e quinze. Aflito ele desiste de dormir, vai
até a sala liga a TV e deita no sofá. Do jeito que caiu no sofá pegou no
sono, dormiu como uma criança. Mas não o suficiente, acordou atrasado,
mesmo com o despertador berrando do seu lado perdeu a hora. Tomou um
banho rápido, se arrumou e saiu correndo para o trabalho.
No caminho lembrou da reunião e também da pasta com o relatório, que
deixou em cima da mesa para não esquecer. Puto da cara, voltou para casa
buscar a pasta com o tal relatório e depois de uma correria chegou no
trabalho. Gabi, a secretária, avisou que a reunião tinha sido adiada
para depois do almoço.
- Mas o que houve? O chefe tava boladão por causa desses relatórios.
- É eu sei, mas ele mudou o horário por causa do seu atraso rotineiro e
da sua cara de sono que dura até depois das onze.
- Mas hein!? Ele disse isso?
- Foi o que ele me falou.
- Aquela velha raposa felpuda disse isso é!?
Joilton rasgou os relatórios, beijou Gabi, foi até a sala do chefe, fez
um bunda-lelê, balançou o bilau na frente do chefe e foi embora para
nunca mais voltar. Hoje ele trabalha no turno da noite em uma
multinacional e trocou o dia pela noite. Nunca mais teve problemas para
dormir.

Fim

O Barbeiro Infeliz

Sem que nada acontecesse, Sávio resolveu se impor:
- Ei, filha! Estou mandando me dizer o que se passa entre você e Anselmo. Anda!, agora!
Discutiam a relação da pequena. O pai queria saber a que ponto estava o namorico entre Juliana e o barbeiro da esquina. Ela, acuada, permanecia calada.
- Então vê se me escuta, minha filha. Te digo desde já que não quero te ver com esse rapaz. Não quero, me ouviu bem?
Então ela saiu, cabisbaixa, terrena, desiludida. Ora, porque será que o pai não a queria com Anselmo? Que foi ele ou ela fizera para serem vítima de tamanha injustiça?:
Pensava, consigo mesma:
- Ora, veja. Agora mesmo é que vou me casar com ele.
De pirraça, foi-se encontrar com o rapaz.

O Encontro
Anselmo tinha a aparência de um toureiro espanhol. Aqueles cabelos negros e brilhosos denunciavam sua ascendência. Seu porte robusto anunciava um esportista. Mas Anselmo passava os dias entre tesouras e navalhas, cortando cabelos e aparando barbas.
- Juliana, meu amor. Que saudade!
Ela não respondeu. Estava imóvel, pensativa. Só sua mente trabalhava incessantemente as palavras há pouco ouvidas do pai. Ele percebeu a inquietação:
- Que foi? Teve a tal conversa com seu pai?
Como ela não respondesse, Anselmo se preocupou. Teve de insistir até que ela falasse:
- Meu pai não nos quer juntos, Anselmo.
- Não quer? Como assim? Porque?
Nem Juliana sabe porque, mas saiu correndo no mesmo instante. Deixou Anselmo para trás, e com ele seus sonhos e planos para o futuro. O rapaz ficou a observá-la correndo, sob a chuva que iniciara.

A Notícia
Juliana foi pra casa e se trancou no quarto, inquieta, pensando no que tinha feito.
- Jesus! Porque eu falei daquele jeito com Anselmo? Que vou fazer agora, meu Deus?
Ela percebera que tinha sido rude. Estava arrependida. Sabia que amava Anselmo, tinha certeza. Amava mais do que tudo que existia no mundo. Não era só porque o pai não aprovava aquele relacionamento que ela deixaria o barbeiro.
De noite, Sávido chega em casa. De mansinho, entra no quarto da menina, que ainda chora.
- Oi filha. Encontrei D. Terezinha na rua. Já soube do Anselmo.
Ela pôs-se a chorar ainda mais, e bradou aos quatro ventos, como que se fosse para a vizinhança inteira escutar:
- Eu não queria ter dito aquilo! Me arrependo, escutou? Eu vou voltar e me desculpar. Eu amo Anselmo mais do que tudo nessa vida!
O pai estava imóvel. Olhava Juliana com os olhos baixos, meio que desconfiado, meio que irritado. Ela ainda esperava uma resposta.
- E então, pai? Não vai dizer nada? Acabei de lhe informar que vou me casar com Anselmo, custe o que custar. Eu sei que o senhor não aprova, mas eu o amo, entendeu? Amo!
E Sávio:
- Não vai não, minha filha. Anselmo está morto. Ele foi encontrado há pouco com uma navalha enfiada no pescoço. O delegado tem certeza de que foi suicídio.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Baseado em fatos reais

1- Um casal de namorados conversa na frente do portão, o rapaz deixa a sua moto na calçada sem preocupação nenhuma, afinal ele mesmo está ali tomando conta.

2- Um outra moto com dois caras passa, faz a volta e o sujeito que está na garupa da moto desce e aponta um arma na cabeça do rapaz.

3- O rapaz pede calma ao ladrão.

4- O comparsa (e também ladrão) do ladrão que está na moto grita: mete um tiro na cara dele, se ele não entregar a chaves.

5- Ouço o choro da garota.

6- O bandido com a arma (ainda) na cabeça do rapaz diz: se a mina correr eu atiro, se você não me entregar a carteira eu atiro. Me da as chaves logo!

7- O rapaz derruba a chaves da moto no chão, o bandido se irrita, o bandido que esta na moto fala para seu comparsa meter um tiro na testa do rapaz.

8- A garota se abaixa, pega a chave e entrega na mão do ladrão.

9- Os bandidos saem, a garota chora e após o susto o rapaz em um acesso de raiva atira o capacete na rua.

10- O rapaz liga para a polícia. -Senhor eu acabei de ser assaltado. Na frente da casa da minha namorada. Rua Luiz Tramontin. Eu já disse, dois caras roubaram minha moto. É agora mesmo, o cara colocou uma arma no meu rosto e levou minha moto. Rua Luiz Tramontin. - sem ter o atendimento esperado ele se desespera e quase joga o telefone no chão.

11- O rapaz perde a paciência: muito obrigado, por não me ajudar. Muito obrigado mesmo, quantas vezes tenho que repetir o nome da rua e o que aconteceu comigo? Será que já não deu tempo para os pilantras sumirem?

12- Os bandidos sumiram com a moto do rapaz. A namorada ficou muito assustada. O rapaz ficou sem moto. E a polícia...


Fim

Rúgbi: Esporte Para Crianças

Depois de ler o texto de hoje do excelentíssimo Luis Fernando Veríssimo meus pensamentos foramlonge. Ele falava sobre uma partida da rúgbi, aquele esporte bem estranho vindo lá das Ilhas Britânicas.
Dias desses eu assisti a uma dessas partidas. Eu estava em casa, naquela modorra, zapeando pelos canais daquela inutilidade chamada TV a cabo. Num dos tantos canais de esporte passava, acho, a final do mundial de rúgbi. Oh!, grande coisa. Mas que seja.
A partida era entre Nova Zelândia e, sei lá, Congo – os Lions. Na verdade, lembrei: era semifinal, porque me recordo do narrador anunciando que depois viria a grande e decisiva partida entre Austrália e Ilhas Fiji. Entretanto isso agora não vem ao caso. O fato é que assistir àquela partida me lembrou intensamente da minha infância. Mais precisamente os meus sete ou oito anos. Exatamente.
Explicar-lhes-ei um pouco do jogo: são 15 marmanjos que têm que atravessar o campo para colocar a bola – também oval mas bem maior do que o do football e sem costuras – do outro lado do campo, no espaço chamado in-goal. Quando um dos jogadores pegam na bola, todos os do time adversário que estiverem por perto partem para cima daquele. Pulam em cima, agarram a bola, chutam, se abraçam. Enfim, é aquela zoeira.
Mas, as vezes, outro jogador da equipe daquele que está com a bola consegue pegá-la e passar – nunca lançando, sempre jogando para trás, e com as mãos – para outro, desmarcado. Este, por sua vez, a coloca debaixo do braço e corre. Corre até fazer o gol. Ou até que algum ou todos ps outros adversários o agarrem pela camisa.
Aliás, pode-se lançar a bola para frente desde que com um chute. Com aquela bola oval, o chute normalmente sai sem direção.
É claro que as regras não são só essas. Têm várias particularidades que até tornam o jogo um pouco interessante. Mas por que uma coisa dessas me lembrou a infância? Ora, essa é a exata descrição de como eram meus jogos de futebol (o nosso, o soccer) quando criança, mais exatamente aos sete ou oito anos. Precisamente.

Tinha o campo lá perto da casa da Vó. Um campão de areia, que na época parecia ter uns 200 metros de comprimento (mas que hoje, eu sei, não tem nem 50). Juntávamos toda a piazada e íamos jogar. Naquele campo que não tinha fim, sempre ficava uns 15 pra cada lado. A bola era velha, já meio ovalada e sem alguns gomos (sem costura). E era sempre do Rafael, o riquinho da rua.
A gente até se organizava em campo – "você e o Japa jogam atrás. Eu e o Polaquinho mais na frente e o João mais o Homer pelas laterais. O resto pega o meio" –, mas isso durava só até o pontapé inicial.
Quando o primeiro pegava na bola, todos os adversários que estivessem por perto pressionavam, pulavam em cima, agarravam a camisa, chutavam a bola, se abraçavam. Mas, às vezes, a bola sobrava para aquele que ainda não tinha chegado no bolo de piás. Aquele que não gostava muito de contato físico e ficava só olhando, esperando justamente essa sobra. Aí ele saía correndo até que fizesse o gol ou alguém o derrubasse. De vez em quando até rolava uns lançamentos. Mas no ponto futuro, sabe? Sem direção.
Rúgbi e futebol de crianças: qualquer semelhança não é mera coincidência.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Amnésia

Na sexta feira eu tinha um post bacana, sobre alguma coisa interessante
para colocar aqui, mas devido aos acontecimentos etílicos do feriado não
lembro mais.

Fim

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Tobias, o marketeiro

- Pára! Pára tudo! Seguranças!
O narrador se esgoelava mas não conseguia conter a balbúrdia. Um corre-corre, um empurra-empurra, pessoas se xingando, copos voando sobre as cabeças. Tudo por causa de um pequeno desentendimento na arena. Os competidores ainda discutiam:
- Você apertou minhas bolas, cara!
- Foi você que puxou meu cabelo primeiro.
Na platéia, urros e gritos desafinados. Algumas pequenas brigas iniciando aqui e acolá. Os guardas tiveram que intervir com seus cacetetes e sprays de pimenta. Socos, pontapés, voadoras, tacapes. Virou uma verdadeira batalha. Já não se sabia quem torcia para quem, brigavam só por brigar. Na taverna anexa, o pessoal animado via tudo pela tela:
- Olha lá aquele baixinho com a cadeira na mão! Vai dar na cabeça da velha... Ai! – sentia um beberrão.
E o garçom:
- Isso tá uma bagunça mesmo. Vai mais um drinque?
O bar continuava enchendo. Transeuntes que circulavam pela região se amontoaram em frente aos telões para assistir, não mais à partida, e sim ao confronto entre torcidas. Pediam drinques e petiscos.
- Isso tá divertido! Parece Telecatch. – dizia um, que acabara de chegar.
- É mesmo! Olha esse golpe – apontando para o canto da tela –, igual o Apolo Colombiano. Toma uma cerveja?
Seguiu assim. Amizades se fazendo, o pessoal se divertindo e o bar lucrando. Havia mais gente no anexo do que no próprio salão. Tinha gente que chegava e nem sabia do que se tratava o campeonato.
- Vim por causa da luta. Uma amiga disse que tá aqui e me ligou convidando, só que eu não achei ela ainda. Mas quanto é o uísque com energético?
Passado meia hora – a platéia ainda se esbofeteando na TV – a turma no bar já nem olhava mais para o telão. Estavam todos conversando, as mesas lotadas, os garçons trabalhando a todo vapor. Em um canto iniciou-se uma mesa de truco, em outro um casal recém formado se beijava enlouquecidamente. Iniciou-se, até, uma briga entre bêbados que os experientes seguranças logo contiveram.
Então Tobias, o dono do bar, trocou o DVD das lutas por um do Guns'n'roses.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

A mãe da namorada

- Saco meu dia está uma droga.
- Aconteceu alguma coisa?
- Sei lá esta dando tudo errado.
- Você quer falar sobre isso?
- Não.
- Então vamos fazer alguma coisa, o que acha?
- Boa idéia, estou precisando mesmo.
- E ai, o que você gostaria de fazer.
- Sei lá. Tenho que comprar um presente para minha sogra.
- Se precisar de ajuda, sabia que sou o queridinho da sogrona.
- Haha... você é uma comédia.
- Sério cara minha sogra me ama. Faz tudo para me agradar, nem parece sogra.
- Como assim cara? Po a minha só falta arrancar meus olhos enquanto estou dormindo.
- Mas é tão ruim assim?
- Acho que ela só não arrancou meus olhos ainda, porque não arrumou uma boa desculpa para a Bruna.
- E ela lhe trata mal na frente da Bruna?
- Quando estamos juntos e a sogra aparece, fica um clima pesado. Climão mesmo ta ligado?
- Sei sei, mas e quando, sei lá, a Bruna vai ao banheiro ou quando só está você e ela no mesmo lugar?
- Malandro, aquela mulher considera mais a baba do cavalo do que eu. Outro dia eu estava esperando a Bruna e acabei pegando no sono, foi só um cochilinho rápido. Quando eu acordei vi a sogrinha querida com uma tesoura de jardim me olhando com uma cara de psicopata.
- Caceta maluco, e você ainda tem coragem de freqüentar a casa dessa louca?
- Po, é casa da Bruna também.Mas você vai esperar esse doida te arrancar um pedaço...
- Ui!
- Hahaha... to falando sério. Vai que ela te faz alguma coisa.
- Sei lá meu.
- Tem que tomar cuidado.
- Me conta qual o segredo para uma relação no mínimo civilizada com a sogra.
- Sabe cara, é até engraçado.
- Fala ai meu.
- Cara, foi na segunda vez que fui na casa da Aline. A Dona Lúcia estava sozinha, a Aline tinha se atrasado na aula de inglês, e quando ela abriu a porta pensei que fosse a namorada e fui entregando um presente que tinha comprado para a Aline. Só que meio apressado entreguei na mão errada.
- Mas era só avisar que não era para ela.
- Não deu tempo cara, ela já foi abrindo e agradecendo. "Nossa Wesley, não precisava!" ela falava repetidamente.
- Caraca meu que situação.
- Pois é, na hora fiquei com pena de contar que não era para ela.
- Haha...
- Ta mas , o que era o presente?
- Um dvd do Wando e uma caixa de bombom.
- Você ta brincando!?
- Não estou não. Queria fazer uma brincadeira com a Aline e o tiro saiu pela culatra.
- Mas ela gostou tanto assim?
- Cara a mulher é fãzona do galã do "meu iá-iá meu iô-iô".
- Mas e ai, e o presente da Aline?
- Inventei um jantar, disse para a Aline que iria leva-la para jantar e tals.
- E a sogra?
- Achou que eu estivesse interessado nela.
- Como é que é?
- Isso ai que eu te falei.
- Ah fala sério!?
- To falando, a Dona Lúcia achou que eu estava passando um sambarylove nela.
- Hey cara, olha aquela mulher no carro azul ali. Acho que ela te conhece.
- Caraca malandro, é a dona Lúcia.
- Noooooooossaaaa... como você tem coragem de chamar aquela gostosa de Dona Lúcia.
- O meu, ela é a mãe da Aline, lembra!?
- Que fosse mãe do papa.
- Seu pervertido.
- Oi Wesley, Aline pediu para avisar que vai com o pai dela a avó dela na rodoviária. E quer que você espere ela lá em casa.
- Tudo bem Dona Lúcia, obrigado por avisar.
- O que é isso? Já disse para não me chamar de dona. O que seu amigo vai pensar?
- Certo Lúcia, já já eu vou para lá.
- Eu te espero, te dou carona. Te espero no carro.
- Meu neurônio, Wesley seu puto, já pegou a sogra né???
- O que é isso meu!? Capaz!
- Fala, juro que não conto pra ninguém. Fala meu...
- Ta bom, mas foi só uma vez.
- A minha sogra querendo me matar e o cara ai todo prosa. Também com uma sogra essa era Wando todo dia.

Fim

Laços de Família

Estavam na mesa, almoço de domingo:
- Pai, porque você come tanto?
Não respondeu. Aaron, com 14 anos, já tinha perguntado sobre tudo na vida. Sabia tudo sobre o que não é tão importante, sexo, dinheiro, amor. Insistiu:
- A gula não é pecado capital? – ele queria por que queria saber.
Zenon, o pai, não estava preparado para aquilo. Achou que demoraria uns anos para que o filho viesse lhe falar sobre um assunto de tamanha importância. Zenon julgava aquilo muito importante. Era a hora de falar sobre pecados, sobre a gula, sobre a ira. Era a hora de mostrar para o filho o verdadeiro sentido da vida. Pelo menos o sentido que ele, o pai, achava ser o certo. Mas não perdeu a pose:
- De noite conversamos, filho.
E seguiu com sua refeição.

De fato, á noite, estava lá Aaron, na biblioteca, esperando o pai. Lá era a "sala para assuntos importantes".
Logo chegou Zenon, glutão que só ele, com uma coxinha de frango numa mão e um pedaço de torta na outra. Ele não era aquilo que se chame de gordo, apenas encorpado, apesar de sua conhecia fama de comilão. "Apreciador do maior prazer da vida", como costumava dizer.
- Pois bem, Aaron. Eu não esperava ter que te dizer isso tão cedo. Confesso que nem estava preparado para tal pergunta. Mas vamos lá, o que quer saber?
- Eu já falei, pai. Porque o senhor come tanto?
- Bem, vejamos, por onde começar? – olhando para aquele suculento pedaço de frango – A vida, meu filho, a vida é feita de prazeres. Prazeres e pecados. Muitas vezes essas duas coisas se confundem.
O filho já estava impressionado. Nunca vira o pai falando tão sério, com tanta paixão sobre um assunto.
- Não dizem por aí que tudo o que é proibido é mais gostoso? Os pecados são proibidos, os pecados são gostosos. Quem não gosta de sair por aí e mostrar o carro novo que comprou? Isto é soberba. Quem não gosta de ter sua conta bancária lotada de dinheiro? Avareza. Quem não se nega a lavar a louça um dia? Como você mesmo diz, "coisa de irmão mais novo"? Isso, meu filho, isso é o orgulho.
- Mas, pai...
- Espera que eu não terminei. Veja: quem não se arruma todo pra ir num casamento? Vaidade. Quem não sente prazer em ver aquele valentão da escola se dando mal? Ira. E agora, vai dizer que não é bom ficar com duas garotas ao mesmo tempo? Luxúria, meu caro, luxúria. Pecados são os prazeres da vida.
- Pai. Eu só quero saber porque você come tanto assim.
- Eu vou chegar lá, calma.

Quando voltou da cozinha, Zenon trazia uma bandeja com diversos pratos diferentes. Uma tigela de estrogonofe, um prato de crepe, um tuppeware com arroz e feijão, uma banana caramelizada, um bife à cavalo, um empadão de camarão e uma fatia de torta de limão.
- Do que você mais gosta aqui, filho?
- Não sei. O empadão, talvez.
O pai empolgara-se.
- Mas e do que você PRECISA?
- Do arroz e feijão?
- Não, Aaron. De tudo. Você precisa de tudo. A gula é o único prazer insaciável. O único pecado remanescente.
O garoto estava se doutrinando:
- Como?
- Você não precisa comprar um carro novo todo dia para se satisfazer. O valentão não precisa tropeçar a cada três horas pra que você sinta o corpo ardendo de prazer. Ninguém precisa traia a mulher a vida toda para viver sorrindo. Mas comer sim. Comer é necessário, todo dia. Você precisa ter esse prazer para manter seu corpo funcionando. Você precisa cometer o pecado da gula pelo menos três vezes por dia para ter uma vida saudável. Comer, meu filho, é o maior prazer da vida. O maior porque é infinito.
Aaron agora olhava com orgulho para o pai. Aquele sábio comilão.
- Vai, coma. Essa bandeja é toda sua. E você só sai daqui quando estiverem todos os pratos limpos.
Beijou a testa do filho. Aaron fora iniciado. Estava garantida a doutrina da família Silva por no mínimo mais uma geração.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Sou o famoso pai, conhece?

Nunca tive problemas com meu pai. A gente se vê tão pouco que nem dá tempo de se criar intrigas.
Ele saiu de casa quando eu era muito pequeno, nem me lembro. Eu devia estar com uns dois anos. De lá pra cá, nos vimos uma, duas vezes por ano, quando muito.
É que ele mora longe, e normalmente não tem dinheiro pra vir pra cá ou pra que eu vá pra lá.
Mas pai é pai. E o fato é que eu o amo. E ele também me ama, eu acho.

Outro dia eu trocava os canais da televisão lá de casa. Fugia das novelas e programas de auditório – tanto que no final só me sobraram reprises de jogos de futebol e mesas-redondas.
Num dos tantos intervalos comerciais, dei aquela famosa zapeada. Bati meu recorde: menos de três segundos em cada canal. De passagem, ouvi uma voz conhecida. Era o pai.
Não era nenhum programa estilo Ratinho ou "Problemas de Família, com Márcia Goldsmith". Era algo como um talk show, um programa de entrevistas bem ao modelo Jô Soares.
Eu pensava: o que raios será que o velho está fazendo lá?

Parei para ver a entrevista. Ainda estava no começo, nas apresentações formais.
Era um canal desconhecido, entre o 70 e o 90. Ninguém vê, mas eu estava assistindo. E não sei por quê sabia que meu pai sabia que eu estava vendo.
Está famoso, o danado! Bem... famoso, famoso, ainda não. Mas estava no caminho.
O apresentador perguntava sobre a sua vida, o que fazia quando era criança, se tinha alguma história engraçada pra contar. Uma hora perguntou sobre sua prole, ó apresentador chato.
Meu pai engasgou. Afinal nem ele sabe onde estão os seus tantos filhos.

Eu ainda não sabia porque ele estava lá, não sabia porque era famoso. Mas estávamos falando sobre mim, de uma forma ou de outra.
Quando o chato do apresentador perguntou ao meu pai sobre seu filho famoso eu senti que ele se atrapalhou inteiro (o pai, não o apresentador). Eu achei que ele não se sentia bem em falar sobre algo que não entende muito, sobre um assunto que não havia estudado com tanto afinco antes da entrevista.
Queriam saber o que ele achava do trabalho do filho, como era ou estava sua relação com ele (ou comigo, como queiram), se ele tinha planos de trabalhar em conjunto. Mas ele não respondia. Estava mudo, o pai.
Surgiu-me aquela angústia. Ora, será que ele vai admitir que nunca foi presente? Será que ele vai explicar, publicamente, os reais motivos de tanto espaçamento entre as visitas? Será que ele vai explicar o que raios estava fazendo naquele maldito programa?
Então o apresentador, o chato, chamou os comerciais.

Como não há angústia que não se cure com um viciozinho inocente, peguei meu controle remoto e tornei a zapear nos canais. Ah, como isso é bom! É como uma fuga da realidade, afinal eu posso escolher a minha fantasia.
"Ó Alberto Marcos, não me deixe!" Deixo, deixo sim sua mexicana mal dublada.
"E não é só isso! Com esse revolucionário produto você..." Revolucionário produto é o controle remoto: zap!
Até que me lembrei que já devia ter começado o segundo tempo daquele clássico de 1981 que estava passando no canal de esportes. Quase perdi aquele gol antológico do mais memorável dos memoráveis pontas esquerda que existiram.

Quando lembrei da entrevista, voltei correndo ao canal (78? 79? Vai saber). A essas alturas já passava um programa sobre pesca, provavelmente gravado durante a segunda guerra mundial.
Enfim, não sei o que meu pai fazia naquele programa. Não sei porque agora era famoso. Não sei o que ele disse – ou se disse – sobre mim. Continuo não sabendo nada sobre a nossa relação, a não ser que ele me liga a cada seis meses dizendo que está na cidade.
Tanto faz. Melhor assim.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Negatividade

- Vai ser assim então?
- Não.
- Você não vai falar comigo?
- Não.
- Me conte o que aconteceu.
- Não.
- Vai me fala.
- Não.
- Eu estou com fome e você?
- Não.
- Poxa, só quero te agradar. Fala comigo vai.
- Não.
- Você só sabe falar não?
- Não.
- Você sabe que isso me irrita.
- Não.
- Vamos dar uma volta, pra gente conversar?
- Não.
- Você esta sendo chata.
- Não.
- Eu vou embora então!
- Não.
- Então, vai falar comigo?
- Não.
- Me diz, o que eu fiz para você ficar desse jeito?
- Não.
- Você deve estar se divertindo com isso.
- Não.
- Então pare.
- Não.

Prooooooouuuufff! (barulho de uma bufa)

- Seu porco!
- Ahhhhh... agora sei como fazer você falar.

Marcos, o Marcos

Marcos Correia dos Santos e Silva é um rapaz de classe média, nem pobre nem rico, que mora num bairro nos arredores do centro da cidade. Seu apartamento tem três quartos, dois banheiros, uma sala de estar com sacada, uma sala de jantar, uma cozinha e uma lavanderia, onde vivem, além dele, o irmão mais novo, o pai e a madrasta. Sua mãe saiu de casa quando ele ainda era garoto, porém sem brigas nem rancores, e eles se vêem aos fins de semana, de quinze em quinze dias.
Atualmente está desempregado, mas acabou de se formar em direito numa faculdade privada, onde conheceu Julya. Eles namoram há dois anos e fazem juntos o curso preparatório para o exame da OAB. Marcos é fiel, na medida do possível. Nunca chegou às vias de fato, mas sempre que sai sem Julya sente atração por outra mulher. Uma vez a menstruação dela atrasou e eles temeram uma gravidez. Foi apenas um susto, entretanto desde então planejam alguma coisa parecida com casamento.
Todos os sábados, às 4h da tarde, Marcos e os amigos jogam futebol na chácara do Paulo, um filho de promotor de justiça. Sempre que dá eles emendam um churrasco, que normalmente é um fracasso de público. Quando dá, ainda, eles saem juntos na balada, "para manter a união". Ficam bêbados, falam besteiras, tiram rachas de carro, vão em bordéis, mijam na rua. Enfim, tudo o que dá pra fazer entre amigos.
Marcos tem uma vida normal. Não se atola em dívidas, se diverte, estuda, procura emprego, pega ônibus, usa o carro da mãe, viaja com os amigos, joga videogame, come Sucrilhos com leite e assiste filmes. Nem para ouvir músicas ele tem problemas, já que suas músicas preferidas tocam na Jovem Pan. As mais antigas, que já "saíram de linha", ele carrega no seu iPod nano.
Enfim, Marcos não tem história alguma para contar.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Maria

Sem ela não seria a mesma coisa:
- Ó Maria, volte! – Implorava sob a sacada.
- Não enche, Paco. Já falei que não quero mais.
- Ora, o que aconteceu? Porque está fazendo isso?
Como ela não respondeu, Paco catou suas coisas pelo chão e saiu, cabisbaixo. Na pracinha, encontrou Abu, o árabe:
- Oi Abu. Cara, a casa caiu: Maria não quer mais.
- Batata?
- Batata.
- E agora? O que você vai fazer?
- Ah, vou atrás de outra. Acho que a Pati aceita. Vou ligar pra ela.

A Competição
Estavam as seis equipe alinhadas no front. O time de Paco contava com Abu, Tito, Polenta e, finalmente, Pati. Era uma daquelas corridas de aventura, e o juiz deu a largada:
- Equipes: exigimos, acima de tudo, respeito. Em suas marcas... Vão!
Aquela correria. Paco planejou ganhar tempo na primeira etapa, com as bicicletas. Formaram uma fila com Polenta na dianteira, que disse:
- Paco, viu quem tá na equipe do Aloízio?
- Não. Quem?
- Maria.
- Maria? A minha Maria? A nossa Maria?
- Pois é.
Então Paco caiu de sua bicicleta. A partir desse dia, sempre que podia, mandava a dupla Aloízio-Maria aos diabos.

Simba, o Cão Guerreiro

Sabe-se lá de onde, todos os sábados, Teobaldo aparecia, anunciando a plenos pulmões:
- Flhote! Olha o filhote de cão! Não tem raça nem pedigree, mas tem força pra domar um touro! Olha o filhote!
E assim seguia, até que a carroça se esvaziasse por inteiro.
De fato, os cãezinhos tinham uma força sobre-humana (ou sobre-canina, como preferir). Eram criados desde o primeiro dia de vida com vitamina de leite com pêra e muita aveia Quaker. Teobaldo os fazia brincar com singelos mordedores de chumbo, que era pra "mor de eles ganharem mais força nos dentes". Aprendiam a saltar sobre cercas e caçar patos, a montar guarda e render o adversário. Enfim, cresciam preparados para a guerra. Aos seis meses eram soldados formados, prontos para subirem na carroça e serem recrutados para a permanente batalha da cidade grande.
Um dia nasceu um filhote desgarrado, daqueles que nem força tinha para mamar nas tetas da mãe – quanto mais para carregar mordedores de chumbo. Nem com a série especial de treinamentos ele foi capaz de pular uma cerca. Uma vez o viram correndo atrás de um filhotinho de pato mas, suspeita-se, era só brincadeira de criança. Fazia tudo com muito esforço, por obrigação. Teobaldo, seu General, não tolerava corpo mole.
Porém, como nesse mundo capitalista não há trégua pra ninguém, aos seis meses, Simba, como passou a ser chamado, subia na carroça e partiu para a cidade. Teobaldo anunciava:
- Flhote! Olha o filhote de cão! Não tem raça nem pedigree, mas tem força pra domar um touro! Olha o filhote!
E assim seguia, até que a carroça se esvaziasse por inteiro.
Mas nesse dia, claro, um cachorro não foi vendido. Senão seria um dia como outro qualquer e daí não teríamos história. O cão, claro, Simba.

A Batalha
Teobaldo, negociante que era, não desistiu:
- Flhote! Olha o filhote de cão! Não tem raça nem pedigree, mas tem força pra domar um touro! Olha o filhote!
E assim seguiu, até um pouco mais longe do que o habitual, para ver se a carroça se esvaziava por inteiro.
Quando Teobaldo percebeu, já se passavam das onze e o vento gelado lhe cortava o rosto. Estava num lugar distante, com algumas casinhas aqui e acolá, escuro e deserto. Nenhuma pessoa a andar pelas ruas. Aquele caipira grilhão, vestido de couro de jacaré – por ele mesmo curtido – da cabeça aos pés, com as mãos marcadas pelo trabalho e o rosto rijo como pedra, estava com medo. "Medo de gente", pensava. Mas estava. Pela primeira vez Teobaldo teve medo. Pela primeira vez Teobaldo conversou com um dos seus animais:
- Escuta aqui, Simba. Eu treinei você para ser um guerreiro. Você tem que nos tirar daqui. Vamos! Pra casa!
E, como se aquele cachorro tivesse nascido justamente para amolecer o coração do caipira, Simba saltou heroicamente da carroça e tomou a dianteira do cavalo.
Andaram por mais de duas horas. Teobaldo sentia que estavam no caminho certo e foi tomado de orgulho daquele cão sem raça nem pedigree, mas com inteligência suficiente para voltar pra casa, esteja onde estiver. Subiram mais algumas ladeiras, cruzaram montes e vales, fizeram paradas em leitos de córregos, dividiram alguns biscoitos. Simba fazia um caminho diferente, mas era o certo para voltar para casa.
Certa altura, chegaram a um ponto movimentado da cidade, conhecido e iluminado. Alguns remanescentes da noite circulavam por ali. Guardas faziam suas rondas e feirantes começavam a montagem de suas barracas. Teobaldo não se conteve. Saltou da carroça e foi correndo abraçar Simba, seu cachorro salvador. O cão que os levou de volta à segurança. O animal que tinha vindo para salvar os corações rancorosos do mundo.
Quando abaixou para abraçar o cachorro, Teobaldo sentiu algo no pescoço. Foi como se tudo se apagasse de repente, e toda força acumulada por toda aquela vida intensa de batalhas se esvaísse num segundo  O sangue que lhe escorria pelo peito anunciava o fim. Eras os treinados dentes de Simba, o cão guerreiro, o soldado que agora exigia sua liberdade, cravando a mandíbula no pescoço de seu General.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Elas

7 anos

Carolina, por ela eu fazia meus desenhos (helicópteros, carros e bonecos de palito). Ela era a única garota da sala (1ª série) que tinha um estojo tipo do James Bond, com apontador, régua, tesoura e tudo mais tudo acoplado. Foi a primeira garota a andar de mãos dadas comigo. Mesmo que por longos 8 segundos escondidinhos atrás da escola no recreio. Estudamos juntos até a metade da 3ª série, depois ela se mudou. Nunca mais a vi.

10 anos

Ana, a Aninha foi quem me deu o meu primeiro beijo. Adorava os aniversários da minha prima Andréia, melhor amiga da Ana, sempre rolavam umas brincadeiras bacanas. Casamento atrás da porta, verdade ou desfio (na versão ‘for kids’) e outra que inventavam na hora. Mas a Ana foi o primeiro beijo e nunca mais. Dizem que foi para um colégio interno e virou freira. Eu hein!


12 anos

Daniela, o segundo beijo e uma coisa que eu não imaginava que as garotas faziam. A Danizinha, como era chamada, beliscou minha bunda. Hoje ela trabalha como promoter de uma casa noturna e hoje vive com sua namorada em São Paulo.


14 anos

Vanessa, me ajudou a descobrir que a diferença entre meninos e meninas não era só que a garotas não sabem jogar bola e só se preocupam em como ser igual as suas amiguinhas. Vi que meninos e meninas eram diferentes mas por um motivo muito mas nobre. Vanessa foi meu primeiro quase.


16 anos

Mariana, finalmente aprendi o que é bom na vida. Mas também descobri que ainda tinha muito o que aprender. Ah Mariana Mariana... você merecia uma estátua!


17 anos

Cláudia, a professora de química. Com ela aprendi o que é ser usado por uma mulher mais velha e experiente.


18 anos

Camila, a primeira namorada. Tudo nela era uma beleza, até o ciume que ela tinha sua doçura. Como disse o poeta desconhecido: quando o garoto sente o cheiro da brilhantina, depois disso ele nunca mais será o mesmo! E não fui mesmo, foram dois anos de fidelidade e amor eterno, até que acabou. Fiquei sabendo que ela casou com um cara que canta numa banda de forró lá no Piauí.


20 – 27 anos (auge da minha boemia)

Regina, Cláudia (a professora), Marcela, Ana Maria, Ana Tereza, Ana Cláudia, Raquel, Melissa, Tatiana, Flávia, Leila, Francine, Patricia, Luana, Jaqueline, Mara, Alice, Isabela, Isadora, Paula, Bianca, Roberta, Cátia, Simone, Luciane, Laura e mais as que não lembro o nome. Foi um tempo bom, não da para negar.


30 anos

Marília, tinha quase os mesmo gostos que eu, comida, cores, livros, filmes, esportes... Tudo a gente concordava em tudo. Adivinha!? Claro que eu casei com ela, sabe aquela coisa imbecil de sossegar na vida, para de putaria, ser sério e tals... Nós combinávamos até que um ano depois de casados acabou...


68 anos

Márcia, essa mulher cuida de mim. Esta comigo desde a hora que acordo, é ela quem faz minha comida e me põe para dormir. Ela é minha enfermeira. Mas ahhhh se eu tivesse meus 20. Ah se eu tivesse...


Fim

O meu 11 de Setembro

Pâmela a recém-contratada era o assunto do momento, toda a rapaziada comentava seus dotes e curvas. Até as mulheres falavam dela, umas falavam bem e outras mais invejosa ou por despeito mesmo vivam a procurar defeitos na nova designer. A garota não tinha namorado, era muito simpática, nunca negava de ir em alguma festa ou reunião após o trabalho para aquela gelada no bar do Beto. Era sempre boa companhia e logo se enturmou com todos.

Com o tempo fomos ficando mais próximos por causa do trabalho, e ainda mais por termos amigos em comum. Por exemplo eu estudei com a irmão do cunhado dela, e ela trabalhou na mesma agência de publicidade que eu trabelhei. Eramos amigos só isso, nada mais. Até que começaram os comentários pelo corredores. “Ai galera viram o novo casal? Bruno e Pâmela” e assim sem motivo algum, pois eu e Pâmela só trabalhávamos na mesma sala, no mais saiamos com todo o pessoal do trabalho.

E assim foi durante um tempo, até me afastei um pouco dela para não dar muito motivo para as línguas afiadas da galera. Com o tempo só os falávamos por email e a amizade foi esfriando. Certo dia uma amiga minha me avisou que uma garota me perseguia, no mercado. Disse a ela que devia ser um mal entendido e não deveria ser nada. Mas essa mesma amiga avisou que viu a mesma garota me seguindo agora na rua e no bar do Beto. Contou que essa garota ficou do outro lado da rua escondida tirando fotos e anotando alguma coisa numa caderneta.

No dia 11 de setembro de 1998, tudo parecia normal, as pessoas, o trabalho, o trânsito, o vendedor de pipoca, a velhinha da farmácia... o trabalho foi tranquilo, sem nenhum fato que mudasse o rumo da humanidade. Na hora de ir embora o telefone da minha mesa tocou duas vezes e quando eu atendia não diziam uma única palavra. Não dei muita importância. O telefone tocou mais uma vez, atendi aos berros perguntando quem estava fazendo aquela brincadeira, mas dessa vez era a Júlia, aquela amiga que tinha visto a moça me seguindo, peguntando se eu queria tomar uma depois do trabalho. Disse que sim, mas tive que ficar até um pouco mais tarde no trabalho porque um cliente chato pacas, resolveu me aporrinhar logo na sexta feira.

Sai do trabalho e já eram quase oito, liguei para a Júlia e aviso que já estava saindo. Resolvo ir apé pois o bar era ali perto, no caminho percebi que um casal que passava do outro lado da rua, olhava estranhamente para trás de mim como se algo errada estivesse acontecendo. Quando eu olho era Pâmela com uma arma na mão apontando para mim. “Você não devia ter feito aquilo comigo. Como pode sumir da minha vida sem em dar uma chance” dizia ela aos berros. Quando tentei acalma-la um tiro acidental me acertou.

Fim

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Timidez

Estavam, os dois, bebendo no bar:
- Fica de olho que ela está a te paquerar.
- Conversa.
- Que nada! Todo mundo percebe. Vai fundo.
Cristovam, que era muito tímido, ainda tentou desconversar.
- Não mesmo. Ela é muito bonita, não é pro meu bico.
O amigo foi enérgico:
- Que isso, rapaz!? Aproveita!

O Contato
Durante a semana, Cristovam passou a observar as atitudes da moça. Lurdes era uma menina linda, estudiosa, beata, enfim, um tesouro. Não era possível que estivesse lhe dando bola.
Mas, um dia, entraram no mesmo coletivo. Ele, muito envergonhado, ainda ouviu Lurdes pedir licença antes de sentar do seu lado:
- Que coincidência te encontrar aqui, Cristovam.
- Pois é, –  e tomou fôlego (leia-se coragem) – como vai, Lurdes?
- Ah, eu vou bem sim. E você?
E assim seguiu até que ele descesse dois pontos antes do habitual. Lurdes era, além de tudo, simpática e com um papo muito agradável. Ela, de certa forma, conseguiu vencer a timidez de Cristovam

O Encontro
Passadas duas semanas de seguidos encontros no bonde, resolveram marcar de se encontrar:
- Tenho um apartamento assim, assim. É do meu tio Mário. Podes me encontrar lá amanhã à tarde.
- Feito.
- Então até lá.
No dia seguinte, no horário combinado, Lurdes apareceu toda de preto, num vestido emborrachado e colado ao corpo. Sedutora como nunca visto antes. Cristovam surpreendeu-se:
- Que é isso, Lurdes?
- É assim que eu sou, entre quatro paredes.
- Prefiro você lá fora, então.
Saiu deixando a moça sem ação, no apartamento do tio Mário, em plena Nossa Senhora de Copacabana.

terça-feira, 17 de abril de 2007

A avó do Batman

Era uma vez uma senhora muito velha, daquelas bem velhinhas, daquelas
que andam devagar e meio corcundas até. Sempre cortês e gentil, vendia
salgados em uma empresa de laticínios aos funcionários. Todos gostavam
de Dona Armênia, porém um mistério acompanhava aquela mulher. Ninguém
sabia onde ela morava, se ela tinha família e muito menos qual era a
idade dela.

Certo dia Wilson resolveu seguir a Dona Armênia para descobrir seus
segredos, ou pelo menos tentar. Então numa sexta feira logo que Dona
Armênia saiu da fábrica de laticínios, sorrateiramente seguiu a anciã.
Foram quadras e quadras, como aquele velhota andava. E não aparentava
cansaço seguia com seu passo lento mas constante.

Até que em uma quadra algo inexplicável aconteceu. Dona Armênia entrou
num beco sem saída, Wilson foi de fininho para não ser pego no flagra.
Mas quando mansamente colocou os olhos no cantinho do muro para ver para
onde a vendedora de quitutes tinha ido viu Dona Armênia em metamorfose.

Ela foi murchando, murchando, murchando cada vez mais virou um morcego e
nunca mais voltou.

Fim